Não existe "efeito Sheherazade" nenhum. Ou: e o Santiago, Boechat?

(Fonte da imagem: Carta Capital)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre a repercussão do caso da mulher que foi espancada até a morte no Guarujá por conta de um boato que ela sequestrava crianças para fazer rituais de magia negra. Mais precisamente, irei comentar sobre a forma que esse caso vem sendo tratado (e distorcido) para torná-lo relacionado às declarações da jornalista Rachel Sheherazade (SBT), que ao comentar sobre o caso do menino acusado de roubo que foi amarrado ao poste no Rio disse que tal situação era "compreensível". A propósito, segue abaixo o vídeo para quem quiser conferir:


Como todos sabem, as declarações da jornalista causaram bastante polêmica e críticas, sobretudo de parlamentares de partidos de esquerda como o PC do B e o PSOL. Após muitas controvérsias, uma representação e uma ameaça de corte de verbas publicitárias ao SBT, ela foi proibida de emitir opiniões no telejornal em que ela era apresentadora. Além disso, uma série de casos de linchamentos noticiados na imprensa levaram pessoas a associar isso com as declarações da jornalista. Surfando nessa onda, Ricardo Boechat, jornalista e apresentador do Jornal da Band, resolveu endossar tal ideia, ainda que mandando uma "indireta". Confira:


Claro que os detratores de Sheherazade resolveram aplaudir o jornalista da Band, uma vez que ele era o defensor da parcimônia, da moralidade, da ética e da responsabilidade ao se emitir opiniões. Até aí tudo bonito, mas...Peguemos o túnel do tempo e voltemos a junho de 2013, período da eclosão dos protestos contra "tudo isso que está aí" no Brasil. Com a palavra, o parcimonioso, moralista, ético e responsável Ricardo Boechat:


Então galera, cadê a parcimônia, a moralidade, a ética, a responsabilidade e claro, a coerência antes de se emitir opiniões em público agora? Boechat sequer "fez escala" ao dizer que a revolta e o quebra-quebra (ou seja, vandalismo) eram "compreensíveis". Simplesmente disse que era a favor (ou seja, defendia). E não só defendia como também estimulava os atos de grupos extremistas como os black blocs em protestos. E, se seguirmos a lógica dele da "indireta" que mandou à Rachel Sheherazade, o mínimo que ele deveria fazer (isso há muito tempo) e também vir a público e dizer como se sente ao ver o resultado de sua teoria, consumado na morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, mesma emissora de Boechat. Mas, como sabemos, isso não aconteceu naquele momento, e os que aplaudem a "moderação" de Boechat são, em uma parcela razoável, os mesmos que defenderam a defesa desassombrada do quebra-quebra feita pelo jornalista. Enfim, é muito fácil querer criticar, ainda que indiretamente, alguém que em um contexto de "vácuo de autoridade" por parte do Estado diz que o ato de partir para a "justiça com as próprias mãos" é compreensível e não fazer uma autocrítica de seu discurso em que, em suas palavras era "a favor do quebra-quebra". Ainda mais quando falamos na morte de um colega de trabalho (diga-se de passagem, induzir atos que levam a morte colegas de trabalho é motivo mais que suficiente para demissão em qualquer empresa, pelo menos nas condições normais de temperatura e pressão). Sendo assim, o máximo que dá para se dizer do discurso "ponderado" de Boechat é pelo menos uma das três coisas: hipocrisia, desonestidade intelectual ou burrice. Ou uma combinação duas a duas. Ou ambas.

E o "efeito Sheherazade"?

Sobre o possível "efeito Sheherazade" dos linchamentos, incluindo o de pessoas inocentes, tomemos como base dois parâmetros: a lógica e o dicionário. Sim, essas duas coisas bastante simples que, se bem usadas, poderia tornar qualquer discussão em torno disso desnecessária. A primeira alegação é de que depois das declarações da jornalista o número de justiçamentos aumentou no país, portanto ela deveria ser responsabilizada por isso. Bem, sem muitas delongas, essa afirmação é uma falácia conhecida como post hoc ergo propter hoc, ou seja, "depois disso, portanto, por causa disso". Trata-se de uma afirmação inconsistente, uma vez que se um fato B é sucessor de A, logo o fato B é causado por A. O vídeo abaixo é bem explicativo e mostra exemplos claros disso.


Enfim, como o vídeo acima deixa claro, é necessário muito mais do que simplesmente uma sequência de fatos para provar que as declarações de Rachel Sheherazade causaram os linchamentos, da mesma forma que deveria se fazer com as declarações de Boechat sobre o quebra-quebra em protestos (é óbvio que o jornalista da Band, além de hipócrita, foi falacioso). Mas mesmo assim alguns ainda vão insistir: "ah, mas a 'Charizard' defendeu as ações dos justiceiros, ela deveria ser mais responsável em suas opiniões, mimimi...". Bem, aí partimos para o dicionário e para uma identificação básica do contexto da declaração da jornalista. Primeiramente, vamos pesquisar o termo "compreensível" (todos esses termos foram extraídos do dicionário online Michaelis):

"compreensível 
com.pre.en.sí.vel 
adj m+f (lat comprehensibile) Que pode ser compreendido."

Como aprendemos no ensino fundamental, compreendido é o particípio do verbo compreender, que significa:

"compreender 
com.pre.en.der 
(lat comprehendere) vtd 1 Conter em si, constar de; abranger: A coleção compreende biografias e ficção. vpr 2 Estar incluído ou contido: Compreendem-se, ainda, narrações de viagem. vtd 3 Alcançar com a inteligência; entender: Compreender o porquê da vida. vtd 4 Perceber as intenções de: Não compreendo as atitudes desse homem. vtd 5 Estender a sua ação a: A lei compreende todos os territórios. vtd 6 Dar o devido apreço a: Não o compreenderam, menosprezaram-no."

Se pensarmos nos significados 3 e 4 do verbo compreender, não se dá para afirmar que a jornalista justificou, defendeu ou mesmo consentiu com a ação dos justiceiros. Mesmo se pensássemos no mais complicado dos significados (o 6), você ter apreço por alguma ação seria equivalente a você ter consideração por alguma ação. E você considerar algo não significa necessariamente concordar com algo.

Para comparação, vamos aos termos "justificar" e "defender", expressões utilizadas pelos críticos de Sheherazade:

"justificar 
jus.ti.fi.car 
(lat justificare) vtd 1 Declarar justo, demonstrar ou reconhecer a inocência de, descarregar da culpa imputada: Justificaram-no e atestaram que ele era inocente. vtd 2 Teol Reabilitar, declarar justo, inocente; absolver: A fé é que justifica o pecador. vpr 3 Demonstrar a boa razão do seu procedimento, provar a sua inocência; reabilitar-se: "Ele negava, explicava-se, justificava-se" (Machado de Assis). Não se justificará desse mau passo. vtd 4 Provar judicialmente por meio de justificação: Justificar a existência do ato ou relação jurídica. vtd 5 Desculpar: Um erro não justifica outro. Não vejo como justificar ao meu amigo a minha demora. vtd 6 Explicar com razões plausíveis: Como justificarei a minha presença aqui? vpr 7 Provar que é: "Teresa justificava-se filha, por índole e por sangue, de Joaquim Pereira" (Cam. Castelo Branco). vtd 8 Fazer que pareça justo; explicar, fundamentar: As circunstâncias justificam a adoção dessas medidas. Com que justificará ele o seu ódio? vtd 9 Fazer jus a: Justificar a confiança. vtd 10 Tip Fazer uma linha do mesmo comprimento de outras; espacejar. vtd 11 Inform Num processador de texto, adicionar espaços entre as palavras de uma linha para assegurar-se que o texto preencha a linha inteira; alinhar texto."

"defender 
de.fen.der 
(lat defendere) vtd 1 Dar auxílio a, proteger: "Defender sua terra" (Luís de Camões). Deus te defenda dos falsos amigos. vtd 2 Falar a favor de, interceder por, procurar desculpar ou justificar: "Eu não defendo uma escola, eu repilo um agressor" (Júlio Ribeiro). Não é possível defendê-lo de um crime tão execrável. vtd 3 Patrocinar ou advogar a causa de: Defendia corajosamente o companheiro. Sua divisa era: Defender os fracos contra os fortes. vtd 4 Apresentar ou sustentar argumentos ou razões em prol de uma causa: Defendeu brilhantemente a sua tese. Buscava defender com sofismas um ato que não poderia ter defesa plausível. vtd 5 Abrigar, preservar, resguardar: Sólidos e fortes muros defendem o quartel. Armou-se para defender as suas terras contra a invasão de aventureiros. "Ali de sal os montes não defendem de corrupção os corpos no combate" (Luís de Camões). vpr 6 Livrar-se, preservar-se, resguardar-se: Não teve tempo de se defender. Evita a publicidade, defende-se dos repórteres. vpr 7 Repelir ataque ou agressão (física ou moral); opor defesa, resistir: "Eu não sei atacar, eu só sei defender-me" (Júlio Ribeiro). Posso defender-me com o seu próprio argumento. Qualquer país defende-se contra o invasor. Defendeu-se galhardamente das acusações que lhe irrogaram. vtd 8 Proibir, vedar: Uma guarda especial defendia a entrada do palácio. "Mas comer o gentio não pretende, que a seita, que seguia, lho defende" (Luís de Camões). vtd 9 Agir, como advogado, em defesa de alguém numa demanda. vtd e vpr 10 Conseguir, obter, arranjar(-se), geralmente por processos hábeis ou menos lícitos: Defendeu a comida. Foi para São Paulo e lá se defende."

Enfim, mais uma vez, não é possível associar o fato de dizer que algo pode ser compreendido ao fato de justificar ou defender algo. Observando com calma os significados de "justificar" e "defender" no Michaelis, temos que existe uma relação entre si (o significado 2 do último verbo é relacionado ao primeiro verbo), mas não com "compreender". Ou seja, dizer que ela está justificando algo apenas por dizer que a ação dos "justiceiros" é compreensível é, de longe, outra vigarice.

Mas muitos vão ainda insistir "Ora, mas ela falou em 'legítima defesa coletiva', logo ela defendeu os linchamentos". Bem, como disse no início desta postagem, a própria Sheherazade fez questão de contextualizar a sua declaração como uma reação a algo que resumo como "vácuo de autoridade" do Estado (a propósito, para efeito de conversa, a expressão "legítima defesa coletiva" é uma invenção dela, da mesma que forma que me refiro aos defensores mais radicais dos direitos de animais como "zoochatos" e aqueles que defendem a ideia esdrúxula da ciclovia na Terceira Ponte entre Vitória e Vila Velha como "ciclochatos"). Mesmo se considerássemos a declaração de Boechat como uma reação, há uma diferença clara entre compreender algo e ser a favor de algo e dizer que as pessoas tem mais é que fazer esse algo.

Enfim, isso é mais que suficiente para concluir que o "efeito Sheherazade" sobre a questão dos linchamentos não passa de uma fraude, que Boechat endossou e muitos hipocritamente aplaudiram. O "efeito impunidade", esse sim, existe, fez e faz muito estrago.

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