Que sirva de aviso...

(Fonte da imagem: R7)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar uma coluna publicada ontem no blog do Cosme Rimoli no portal R7 sobre a repercussão (ou a não repercussão) da medida tomada pelos torcedores da Gaviões da Fiel (organizada do Corinthians) em defesa do Itaquerão diante de um protesto contra a Copa ocorrido no dia 29/04, que felizmente passou a ocorrer entre o Tatuapé e a Praça da Sé. Segue abaixo a postagem de Rimoli, com comentários no sistema "ping-pong". Volto para comentar.

""Atenção Nação Corinthiana, hoje está marcada uma manifestação em Itaquera, a caminhada começará no Tatuapé e pode terminar em nosso Estádio. Estamos convocando a Nação Corinthiana para ir conosco aqui da sede juntos, para evitarmos qualquer tipo de depredação e vandalismo na casa da FIEL TORCIDA.

Vamos disponibilizar um ônibus, saindo aqui da Sede as 16hs."

Milícia.

"Designação genérica das organizações militares ou paramilitares compostas por cidadãos comuns, armados ou com poder de polícia que teoricamente não integram as forças armadas de um país. As milícias podem ser organizações oficiais mantidas parcialmente com recursos do Estado e em parceria com organizações de caráter privado, muitas vezes de legalidade duvidosa."

Não houve destaque no noticiário o que aconteceu quarta-feira.

Aconteceu mais uma manifestação contra a Copa do Mundo.

Ela estava marcada para acontecer na Zona Leste de São Paulo.

Programada pela Internet, deveria começar em frente ao Itaquerão.

O estádio de R$ 1,2 bilhão construído com o auxílio dos cofres públicos.

Ele pertence a um clube particular, o Corinthians.

Como o Beira Rio e a Arena da Baixada.

Internacional e Atlético Paranaense se aproveitaram do Mundial.

Terão arenas novas com o auxílio do dinheiro da população.

Mas os manifestantes paulistas haviam resolvido cobrar o Itaquerão."

Só uma pequena correção (o que no final não faz muita diferença): no Itaquerão propriamente dito não houve recursos vindos diretamente dos cofres públicos, e sim financiamentos provenientes de bancos estatais (BNDES e Caixa), que costumeiramente cobram juros mais baixos em relação aos bancos comerciais. As obras de infraestrutura em torno do estádio, estas sim, foram executadas com recursos diretos do erário. Na verdade, se pensarmos que tais financiamentos poderiam muito bem ser cobertos pelos bancos comerciais e que bancos públicos deveriam priorizar empréstimos para empreendimentos de interesse público (o que não é o caso do Itaquerão), o questionamento ainda seria plausível, apesar de que está sendo feito muito tarde (como disse em um post do dia 02/03) Vamos ao próximo trecho.

"Ele seria o início e o ponto principal dos protestos de quarta.

Mas a cúpula da Gaviões soube o que iria ocorrer.

E não confiou nas autoridades, nos policiais que iriam proteger o estádio.

Decidiu que os membros das organizadas tinham uma missão.

Iriam se juntar para enfrentar os manifestantes.

A ordem era não permitir a depredação do estádio de jeito algum.

E foi o que fizeram.

Os torcedores foram convocados e estavam preparados para o embate.

Os manifestantes ficaram sabendo o que acontecia.

E decidiram.

O ponto de encontro não seria mais na estação Itaquera-Corinthians.

E sim na Tatuapé.

O medo do confronto com os torcedores foi o responsável pela mudança.

Os black blocs fugiram da briga.

O máximo que fizeram foi andar do Tatuapé até a Praça da Sé.

E mostrando sua 'revolta' queimaram álbuns de figurinhas da Copa.

Foi patético.

Infantil."

A questão: por que que os black blocs resolveram evitar um eventual confronto com os torcedores da Gaviões da Fiel? Vamos a duas hipóteses, não necessariamente excludentes: a primeira, não conseguiriam formar um "álibi". Diferente de um enfrentamento com a polícia, em que haveria Safatles, Wyllys, Sakamotos, Boechats, Brums, alguns artistas da Globo e outros intelecutalóides que povoam a mídia brasileira falando em "PM fascista", "resquícios da ditadura", "criminalização dos movimentos sociais" e defendendo ideias furadas como a desmilitarização da polícia (em um momento que não é agora explicarei o porquê de minha opinião), um enfrentamento com uma torcida organizada não conseguiria se encaixar em nenhum dos discursos ventilados pelos "engajados" até agora. A segunda, complementar a primeira é que pela primeira vez os black blocs teriam um oponente à altura.

Tá bom, explico minha última colocação, antes que apareçam pseudoconscientes querendo falar da "truculência policial" (não, não estou dizendo que esta nunca existiu, apenas digo que esta vem sendo superestimada) e defensores mais radicais da polícia dizendo que estou "menosprezando a PM" (a propósito, defendo uma ação mais severa das autoridades para conter atos terroristas em protestos, e você pode conferir meu ponto de vista aqui). Primeiro, a repressão policial a protestos é feita com armamento "não-letal" (na verdade a letalidade é baixíssima se comparada ao armamento convencional. Da mesma forma que existe café "descafeinado" com 0,1% de cafeína e cerveja "sem álcool" com 0,x% de teor alcoólico): bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, spray/gás de pimenta, balas de borracha e cassetetes. "Tudo isso" para enfrentar manifestantes armados com paus, pedras, coquetéis molotov e morteiros (um deles foi direcionado a um policial e acabou matando um cinegrafista no Rio). A propósito, mesmo se as polícias em algum momento tivessem brechas para usar de força letal contra manifestantes elas simplesmente não as utilizariam. Se tentando usar o mínimo de "tiro, porrada e bomba" possível a polícia ja é acossada por todos os lados (seja de sociólogos, seja de jornalistas, seja de ativistas ou até mesmo da Justiça), imaginem abrindo fogo contra manifestantes, mesmo que estejam destruindo e sitiando uma cidade...

Já a Gaviões...Bem, pelo fato de que uma vez que já age fora da lei ao entrar em confronto com outras torcidas organizadas, um hipotético confronto com black blocs seria apenas "mais um na ficha criminal". Como eles estão pouco se lixando em respeitar as leis, vão enfrentar os manifestantes com o mesmo "armamento" utilizado em confrontos com outras torcidas: paus, pedras, rojões e coquetéis molotov. A propósito, eles tem algo anos-luz a frente dos baderneiros: experiência e, sobretudo, organização. Junte isso com a impossibilidade de "álibi" da primeira hipótese e pronto, não tem o porquê de cargas d'água arriscar um encontro entre black blocs e torcedores da Gaviões (ou de qualquer outra organizada). A propósito, você já viu brigas de torcidas organizadas terem a mesma repercussão de uma suposta truculência policial em repressão a protestos?

"Diante da 'vitória', a organizada promete que a ação se repetirá.

Quando houver qualquer protesto que vá até o Itaquerão, ela estará lá.

Para 'evitar qualquer tipo de depredação e vandalismo'.

Exatamente como foi colocado na convocação.

E espalhado pela Internet.

Principalmente na Copa do Mundo.

O poder de convencimento não será discurso, abraços apertados, beijos.

A Gaviões já se envolveu em inúmeras brigas violentíssimas.

Foi banida em São Paulo, no Rio, em Brasília.

Como a sociedade aceitou calada essa postura de milícia da Gaviões?

Já sabe que os torcedores estarão lá quando novos manifestos acontecerem.

Por que tanta passividade?

Se depois do Itaquerão, a Gaviões resolva proteger a avenida Paulista?

Ou bancos, concessionárias, shopping centers?

Se a Mancha Verde decide proteger o novo Palestra Itália?

A Independente, o Morumbi?"

A coluna de Rimoli finalmente chegou ao ponto onde pretendo tocar em minha postagem. Sobre a pergunta de como a sociedade aceitou calada a postura "miliciana" da Gaviões, minha resposta é semelhante ao que fiz em relação a uma das colunas de Eliane Brum no El País (confira aqui): estamos em um perigoso caminho de "vácuo de autoridade" deixado pelo Estado e que desde os protestos de junho parece ter se tornado mais evidente. Diante de manifestantes capazes de destruir todo patrimônio público e privado que estiver pela frente, uma polícia patrulhada, podada e demonizada e uma justiça que pouco pode fazer diante de uma legislação pouco eficaz no sentido de coibir e punir aqueles que vandalizam independente da "nobreza" da causa ou não (bem como outros criminosos), cria-se uma situação em que ninguém age. E onde ninguém age, alguém, mais cedo ou mais tarde, acabará agindo. Isso nos permite compreender o porquê de bandidos serem amarrados em um poste e acabarem apanhando. Isso nos permite compreender o porquê de cidadãos comuns escorraçarem a paus e pedras grupos de sem-terra que invadem propriedade privada. E por fim, isso nos permite compreender o porquê da Gaviões achar que é melhor cercar o Itaquerão para evitar uma possível depredação do mesmo.

Pode ser que alguém desavisado que esteja lendo isso pergunte: "ora, você agora deu para defender torcidas organizadas?". Claro que não. Muito pelo contrário, justamente por conta da violência de tais grupos o futebol deixou de ser um programa de família há tempos. A propósito, um eventual confronto de black blocs com qualquer torcida organizada seria uma babaquice sem precedentes, de ambos os lados (apesar de que arrisco a dizer que os torcedores são um pouquinho mais organizados no sentido de já entenderem que com ou sem Copa continuarão não tendo direitos). E fica o alerta para as autoridades que estão dormindo no ponto até agora: por enquanto quem está tomando essa postura miliciana são grupos já conhecidos pela extrema violência como as torcidas organizadas. Mas não há absolutamente nada garantindo que, no futuro, diante de uma recorrente inação pelo medo de críticas dos mesmos grupos de sempre, pessoas comuns não resolvam seguir o mesmo caminho para garantirem um papel que o Estado deveria ser capaz de prestar.

Precisamos chegar à situação do México? (Fonte da imagem: O Globo)
O recado está dado.

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