Ainda sobre as hostilidades à Dilma: os fiscais de melanina e de conta bancária e a civilidade de fachada

Aiiiin que fofo...(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar a repercussão que as hostilidades à presidente Dilma Rousseff ainda está gerando tanto na imprensa como nas redes sociais, apesar de que nas duas postagens anteriores - ver aqui e aqui - já falei um pouco sobre o contexto por trás disso. Além disso, como vocês devem ter reparado no título, uma postagem da Reaçonaria falou sobre a existência dos "fiscais de melanina", no sentido de forçar a visão de um viés racista em torno do torneio (se bem que essa "técnica" de enxergar racismo em qualquer coisa, apesar de esdrúxula, não é nenhuma novidade, e os comentários que fiz à coluna de Gabriel Tebaldi no ano passado - confira aqui - e à "trilogia" da Eliane Brum - confira aqui, aqui e aqui). Pois bem, além disso, eu incluiria naquela postagem uma nova categoria de fiscais, que atua em complemento ou mesmo de forma simultânea à primeira: os fiscais de conta bancária.

A "técnica" (se bem que de técnica não tem nada, como você perceberá mais adiante) dos fiscais de conta bancária (ou de patrimônio, como preferir), em complemento ou mesmo simultâneo aos fiscais de melanina, é a seguinte: você emite qualquer opinião que discorde, reprove, ou demonstre repulsa ao que o governo (no caso, o governo Dilma ou os governos petistas) faz ou ainda discorde de causas politicamente corretas (cotismo, feminismo, zoochatismo, terrorismo black bloc e outras patacoadas). Aguarde alguns minutos e aparecerá alguém para patrulhar sua opinião. Se você tiver algum traço indicando que você é rico ou pareça minimamente estar com uma vida melhor em relação a algum padrão (que é tão bem definido como um flan), pronto! Você é um burguês, coxinha, atrasado, fascista, elitista e tudo-de-ruim-ísta que você imaginar. Se você for branco ou simplesmente não for considerado negro (a propósito, outro padrão gelatinoso, uma vez que os pardos exercem uma função camaleônica para tais fiscais, podendo ser negros ou brancos), piorou, além de tudo isso você é um racista. E se você for negro e/ou pobre e mesmo assim não seguir o crivo dos "fiscais"? Pior ainda, você será chamado de todos os adjetivos anteriores, dirão que é um alienado pela Globo/Veja/PIG em geral e alguns te chamarão de ingrato, uma vez que o governo (nossa, que caridade) te deu tudo (sim, T-U-D-O) para que você melhorasse de vida nos últimos anos. Ou seja, quer seja seu padrão de vida, cor, sexo ou orientação sexual, você precisa ter uma opinião muito bem alinhada com que o atual governo e/ou o politicamente correto prega para não virar alvo disso.

Resumindo: não interessa o que você é, o que você tem, qual a sua cor, religião, orientação sexual, enfim, nada importa. Se sua opinião não passar pelo crivo dos fiscais de melanina e de conta bancária, ela será automaticamente invalidada, sem qualquer possibilidade de debate ou discussão. A propósito, que debate? Que discussão? Para isso seria necessária a divergência de ideias, certo? Vai entender...

Mas o que isso tem a ver com as hostilidades e xingamentos que a presidente Dilma Rousseff recebeu no Impressorão na Arena Corinthians?

A observar pela reação de certos jornalistas e figuras públicas, muita coisa, para não dizer tudo. Algumas amostras seguem abaixo:


Lula também dando seu pitaco, conforme registrado no portal de notícias do Terra:

(Fonte da imagem: Terra)
A reação de Juca Kfouri

"O protesto de alguns torcedores contra a presidente Dilma Rousseff ontem no Itaquerão, destacado pelos jornais da mídia familiar, foi o tema do comentário feito pelo colunista Juca Kfouri, nesta manhã, na rádio CBN.

Kfouri usou uma expressão do ex-governador Claudio Lembo e disse que a "elite branca" de São Paulo deu uma prova de sua "intolerância".

Segundo ele, ao contrário da vaia na abertura da Copa das Confederações, no Mané Garrincha, no ano passado, o que aconteceu ontem foi mais grave. "Ela foi xingada mesmo", disse ele. Os gritos eram: "ei, Dilma, vai tomar no c...".

"Na Copa, os estádios não eram para o povo, mas para quem tinha dinheiro para pagar ingressos caríssimos", disse ele. "Gente que tem dinheiro, mas não tem educação nem civilidade", afirmou.

Kfouri disse ainda que a elite paulista se mostrou "intolerante e mal-agradecida por quem deu a ela uma Copa padrão Fifa"."

Poderia fazer menções (nada) honrosas a outros jornalistas e figuras públicas, mas acredito que essas três são suficientes (quem quiser conferir mais basta acessar essa ótima compilação feita pelo Felipe Moura Brasil, blogueiro da Veja). Antes de falar de fato sobre o critério - ou como você já reparou ou vai começar a reparar, a falta dele - utilizado na crítica as hostilidades feitas à presidente, vou ser breve em minha posição sobre o incidente: eu (acredito que) não faria parte do coro em forma de palavrões à presidente (uma vaia e um sinal de "não gostei" estão de bom tamanho), embora eu compreenderia quem participou do incidente. Dito isso, vamos às reações.

Em primeiro lugar, minha crítica vai à seletiva educação moral e cívica apresentada pelas personalidades públicas que se horrorizaram com os xingamentos à Dilma. Primeiro porque os "cabeças" do PT nunca foram, digamos, um exemplo de educação e civilidade. O finado ex-governador de SP, Mario Covas, que o diga. Talvez ele teria preferido levar um sonoro V.T.N.C. dos professores em greve:


Sobre o fato de Lula nunca ter coragem de faltar com o respeito a um presidente da República, lembremos disso (está na página do colunista da Reaçonaria Alexandre Borges):

Itamar Franco sendo vítima da educação e do civismo de Lula. (Fonte: Página de Alexandre Borges/Facebook)
E Juca Kfouri? Ele faz referência às ofensas feitas ao senador e atual candidato à Presidência da República pelo PSDB Aécio Neves, mas...

"O senador Aécio Neves , pré-candidato do PSDB à Presidência, disse nesta sexta-feira que a presidenta Dilma Rousseff governa com “mau humor” e “arrogância” e que as vaias e xingamentos que ela recebeu no Itaquerão, na abertura da Copa, são resultado dessa postura.

“Acho que ela colhe um pouco aquilo que plantou ao longo dos últimos anos. Alguém que governa com mau humor permanente, com enorme arrogância, sem dialogar com a sociedade brasileira, de costas para a sociedade, achando que por ter a caneta na mão tudo pode”, disse o tucano em São João del Rei, nas Minas Gerais.

Pode ser, mas, em nome de um mínimo de civilidade, ele poderia ter criticado as ofensas, porque pimenta semelhante já doeu em seus olhos.

Afinal, ele também foi vítima de um coro cruel, em pleno Mineirão, quando Brasil e Argentina jogaram pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010 e Diego Maradona era o técnico dos hermanos:

“Ei Maradona, vai se f…, o Aécio cheira mais do que você”."

Vem cá, alguma crítica de Kfouri ao ocorrido na época? Onde? Como muito bem lembrado pelo Luciano Ayan, os jornalistas que estão indignados com o "Ei, Dilma, VTNC", fizeram o mesmo em relação a Aécio?

Bem, já dá para perceber o padrão no mínimo duplo de educação moral e cívica que essa galera defende, não é? Isso porque não incluí, por exemplo, Lula dizendo que Pelotas (RS) era um polo exportador de veados (imagine se a famigerada PL 122 fosse aprovada, só imagine). Ou ainda os xingamentos (alguns deles racistas) e até ameaças ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Joaquim Barbosa. Ah, a lista é grande...

Quanto à "elite branca paulistana" que xingou à Dilma, é necessário que se faça ponderações em dois pontos. O primeiro deles é que a presidente está ali para representar o país, não para representar um grupo A ou B. Da mesma forma que um CEO de uma empresa não está lá para representar os acionistas majoritários ou minoritários ou ainda um representante de turma (sim, estou puxando a sardinha para o meu lado) não serve para representar interesses das diferentes "panelinhas" que possam existir em uma sala de aula. Ou seja, tanto o pobre e negro que mora na periferia como a "elite branca paulistana" possuem o mesmo direito e o mesmo valor em suas opiniões. A propósito, esse e o princípio básico para surgir um debate: a divergência de ideias.

O segundo, e talvez mais importante ponto, é que, desde o advento do futebol moderno, seu maior evento, a Copa do Mundo, é um evento feito pela elite, com a elite do futebol, com estádios construídos por empresas que representam a elite e cujos ingressos, são, em princípio acessíveis a elite, apesar de que graças à melhoria da renda e, sobretudo, do crédito, as classes C e D possam realizar o sonho de assistir a alguns jogos do Mundial. Mas em sua grande maioria, as massas se contentam em assistir o jogo dos telões, dos barzinhos ou mesmo no conforto de suas casas, de preferência em uma TV de LED novinha em folha. Se o Lula reclama do fato de que quem xingou a Dilma não era pobre, que mexesse com os pauzinhos desde quando o Brasil foi escolhido para sediar a competição - portanto, com ele ainda sendo presidente - para que os pobres tivessem maior acesso aos estádios, ou pelo menos pudessem aproveitar melhor as vantagens que a Copa traria em seu entorno. Mas infelizmente tanto ele como a Dilma preferiram seguir quase que cegamente o "padrão FIFA" (que Kfouri tanto se orgulha), que entre outras coisas, canetou uma lei que praticamente transformou a organização em um "Estado paralelo" (a Lei Geral da Copa). A propósito, restringir ou mesmo proibir que empresas (inclusive as pequenas, em que os mais pobres tem maior participação como força de trabalho) utilizem os símbolos da Copa, bem como querer distância de ambulantes não são, digamos, medidas que aproximem os pobres do evento. Isso sem falar das remoções feitas "na marra" para as obras de infraestrutura do Mundial, algo que atropelou o direito elitista de propriedade privada. Mais uma vez, quais foram as medidas que Lula tomou para tornar a Copa mais simpática à população mais pobre?

Enfim, não que eu endosse ou aprove o que foi feito na Arena Corinthians, mas se os críticos ao ato se limitassem à questão da falta de educação e de civilidade, ainda que de forma bastante seletiva, até concordaria. O problema é quando tentam misturar uma lição maneta de cidadania com doses cavalares de fiscalismo de melanina e de padrão de vida alheio. Desnecessário e constrangedor.

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