E o último pilar econômico petista enfraquece: a geração de empregos

(Fonte da imagem: El País)
Bom dia pessoal. Em discussões sobre a economia brasileira, que como muitos sabem já anda "de lado" há algum tempo, petistas, governistas e outros esquerdistas resolvem recorrer ao argumento de que estamos no "pleno emprego" (qualquer pesquisa breve no Google sobre os "nem-nem" mostra que não é tão "pleno" assim) e de que a Europa está em uma situação muito pior (só esqueceram de dizer que o Velho Continente está passando pela pior crise desde a Segunda Guerra Mundial) e nós fomos afetados apenas por uma "marolinha" (não é mesmo, Lula?). Mas parece que este último refúgio está cada vez menos sólido. Uma matéria da edição brasileira do El País de ontem falou da criação de empregos no mês de maio, que foi a pior desde 1992, período de instabilidade política e econômica com Collor. Segue abaixo a matéria. Volto a comentar.

"Um dos grandes trunfos dos Governos petistas foi a generosa geração de empregos. Foram mais de 20 milhões de vagas com carteira assinada, criadas sob as duas administrações de Lula e na atual, de Dilma Rousseff. Esse diferencial competitivo, porém, entrou em marcha lenta, com uma redução significativa no número de vagas criadas no mês de maio. Foram gerados 58.836 postos de trabalho, quase metade do total gerado no mês anterior, e 18,3% a menos do que no mesmo mês do ano passado, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho. Trata-se do pior desempenho mensal desde 1992, quando o país vivia um processo de instabilidade política, que culminou no impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

A notícia era esperada, uma vez que todos os indicadores já vinham demonstrando um desempenho pífio, a começar pelo baixo crescimento do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre, quando fechou em 0,2%, em relação ao trimestre anterior. “A balança comercial, a produção industrial e a intenção de consumo das famílias, por exemplo, apontam para a mesma tendência de queda”, diz Guilherme Dietze, economista da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. “Diante desse cenário, as empresas assumem uma postura mais defensiva”, explica.


A alta da inflação no primeiro semestre e o crédito mais caro, em função da alta de juros, também inibiram os brasileiros a irem às compras. Com menos movimento nas lojas, os empresários investem menos, o que cria um círculo vicioso. A indústria, por exemplo, já incluiu a palavra demissão no seu dicionário. Em São Paulo, por exemplo, o setor cortou 12.500 vagas em maio, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Trata-se de um quadro complicado para a presidenta Rousseff, em ano eleitoral. Quando ela foi eleita, em 2010, o Brasil crescia 7,5%, e a geração de empregos chegou a 2,5 milhões naquele ano. Agora, com o o crescimento baixo – a previsão do mercado financeiro é de alta de 1,16% – e com uma criação menor de postos de trabalho os adversários políticos de Rousseff têm munição de sobra.

O balanço divulgado nesta terça, porém, ainda não inclui os dados de empresas que entregam informações ao Ministério do Trabalho fora do prazo. No acumulado desde o início do ano, o país tem um saldo positivo de mais de meio milhão de vagas, o que servirá de informação de contra-ataque para a campanha petista.

A Copa do Mundo pode servir, também, como um refresco temporário para o pessimismo econômico, embora não tenha um efeito prolongado. “Pode haver uma anestesia popular caso o Brasil ganhe, mas por um período curto”, diz Dietze. Mas é inegável que o clima de festa e os feriados para ver os jogos terminam por reverter o pessimismo, e melhoram o humor dos brasileiros na hora de ir às compras. “Sem dúvida levanta a autoestima, até porque tudo de ruim que tinha de acontecer [na economia] já aconteceu antes da Copa começar”, avalia Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio. Ele observa que a inflação dos alimentos, por exemplo, que afeta principalmente as famílias mais pobres, já cedeu, o que pode ajudar a reverter o mau humor.

O problema é que para fazer essa febre inflacionária baixar o remédio amargo dos juros altos atinge não só o custo do crédito para o consumidor que quer comprar, como para o empresário que pretende investir."

Meus comentários

Todos nós, em algum momento, já ouvimos falar de que não é possível enganar a todo mundo ao mesmo tempo por todo o tempo. Se a economia já cresce pouco há algum tempo, a equipe econômica mostra-se leniente no sentido de não fazer a inflação convergir para o centro da meta e as perspectivas para este (e o próximo ano) não são as melhores, o resultado é um tanto óbvio: menos pessoas dispostas a consumir (principalmente via crédito, o que leva a endividamento) e menos pessoas dispostas a investir no setor produtivo, o que leva a menor necessidade de geração de empregos. Em alguns setores com demanda superaquecida nos últimos anos e que estão passando por um rápido arrefecimento, o efeito pode ser ainda mais severo: menor necessidade de empregos, ou seja, demissões. Sim, a economia importa. E sim, até mesmo para que se sustente um quadro de "pleno emprego" a longo prazo é necessário que haja todas as componentes de uma economia saudável: ambiente de negócios previsível (inclusive a legislação), sistema tributário simplificado (e com carga menor em relação aos patamares atuais), condução responsável da política fiscal, preocupação em manter a inflação no centro da meta (ou mesmo ligeiramente abaixo de tal patamar)...Ou pelo menos que essas componentes estejam em melhor estado em relação a nossos pares (seja na América Latina ou em outros países emergentes). No nosso caso não estamos nem em um nem em outro.

Sobre a frase "tudo de ruim ter acontecido na economia antes da Copa começar", dita por Freitas na matéria acima, é uma análise temerária. Cabe lembrar que após as eleições, independente de quem ganhe, haverá a necessidade de se discutir a política econômica, inclusive sobre a necessidade de ajustes nos próximos anos. E, dependendo das medidas que forem tomadas, pode ser que venha mais turbulência por aí (confira alguns comentários sobre o assunto no início deste ano - aqui e aqui). Cabe lembrar ainda que o risco de racionamento de energia não está descartado e que os reservatórios das hidrelétricas seguem em níveis preocupantemente baixos.

(Fonte da imagem: ONS)
Enfim, fica evidente que ninguém cria emprego apenas pela caridade de ocupar a mente de alguém, antes, espera também algum retorno pelo serviço prestado. Portanto, antes de sair berrando aos quatro cantos que "o que importa é o social", saiba que só é possível repartir algo quando existe condições para ter algo. Ainda não inventaram varinha de condão.

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