O "efeito Cinderela" da Copa

(Fonte da imagem: Exame)
Boa tarde pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para falar, mais uma vez, de algo impossível de escapar neste momento: Copa do Mundo. Mais precisamente, sobre a imagem que o evento ganhou dentro e fora do país. Há mais de um mês, quando publiquei uma postagem de contagem regressiva para o evento, falei um pouco sobre o clima de apreensão e medo em relação ao Mundial, sendo isso repercutido pela mídia nacional e internacional. A Copa começou, e, apesar da cerimônia de abertura ter sido de qualidade duvidosa (no mínimo), as expectativas negativas em torno do evento parecem ter desaparecido.

Obviamente, os governistas resolveram aproveitar essa "trégua" da imprensa como um "tapa na cara dos pessimistas", inclusive se valendo de alguns artigos dessa mesma imprensa que falam da nossa Copa como uma das melhores da história, se não a melhor. Se o pior não aconteceu, temos motivos para comemorar, certo?

A resposta, mais uma vez, é não.

Antes de explicar o porquê de minha negativa, é preciso dizer que de fato, o Mundial aqui no Brasil tem sido surpreendente tanto dentro como fora das quatro linhas. Dentro das quatro linhas, uma excelente média de gols, jogos de bom nível (mesmo entre seleções tidas como "fracas"), e simpáticas "zebras" na competição (quem imaginaria a seleção da Costa Rica sendo a primeira a classificar-se em um grupo com Inglaterra, Itália e Uruguai? Ou quem imaginaria a Espanha, a grande favorita da Copa, eliminada na primeira fase?). Eu diria que, no que se refere a futebol, nunca tivemos um Mundial tão bom desde 1998, na França.

Fora das quatro linhas, as piores expectativas quanto ao torneio (caos nos aeroportos, convulsão social, mobilidade urbana colapsada, etc.) ainda não se cumpriram (destaquei o "ainda" porque o cenário pode mudar dependendo do próprio desenrolar do evento, bem como do avanço de nossa Seleção para as próximas fases), e a impressão que os turistas tem do Brasil é, em geral, positiva. Claro, a hospitalidade e a receptividade do brasileiro pesaram bastante a favor nesta avaliação.

A questão que justifica o fato de eu não me juntar aos otimistas em relação à Copa não é se o evento está ou não está dando certo, mas sim por que está ou não está dando certo. Primeiro é que boa parte dos artigos que falam sobre o sucesso do Mundial em nosso país citam como motivos situações completamente alheias (ou seja, fora de controle) à organização do evento e/ou dos governos. Alguns já foram citados ao longo da postagem: média de gols por partida, nível técnico das partidas e, quanto aos turistas, a hospitalidade, receptividade e capacidade de improvisação dos brasileiros que, apesar dos gastos públicos e das falhas que levaram estádios e aeroportos a terem estruturas provisórias (os famosos "puxadinhos"), já que com uma janela de sete anos não deu para terminar tudo (isso porque não falei das obras de mobilidade urbana), não iria adiantar em nada espantar os turistas e sair por aí quebrando tudo gritando "Não Vai Ter Copa!", logo o jeito é torcer que o campeonato dê muito certo e sirva como oportunidade para faturar alguns trocados. A propósito, os protestos, que pareceriam ganhar um aspecto de distúrbios generalizados ao longo dos jogos, são pontuais e quase sempre limitados os dias de jogos da seleção brasileira.

E segundo, isso não muda o fato de que os gastos com as obras necessárias para o Mundial foram muito superiores ao imaginado (e, muito provavelmente, necessário). Muito menos que, depois da Copa, quatro estádios (Arena Amazônia em Manaus, Arena das Dunas em Natal, Arena Pantanal em Cuiabá e Mané Garrincha em Brasília) terão destino, na melhor das hipóteses, incerto (uma forma pomposa de dizer que estão condenados a virarem elefantes brancos). E isso também não muda o fato de que o legado que ficará quando bater meia-noite do dia 14 de julho pode ser muito inferior ao esperado.

Enfim, a Copa vai bem, obrigado. Não, nem governo e nem governistas têm motivos para capitalizar o sucesso do evento para si. E como Cinderela, aproveitemos a magia do evento. Até porque tal como no contos de fadas, têm data e hora para acabar. E quem dera se depois disso ficássemos felizes para sempre.

Confira também:

No El País: Não era para tanto

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