(Duro) choque de realidade 2: o ideal e o real

(Fonte da imagem: Terra)
Confira o primeiro post AQUI.

Domingo, 13 de julho de 2014, alguns minutos após as 18h. O Brasil encerra a Copa (que para alguns está sendo a melhor da história) se sagrando hexacampeão, em um lindo jogo contra a Argentina no Maracanã. A presidente Dilma, que na tribuna de honra estava ao lado da presidente "hermana" Cristina Kirchner e do presidente Vladimir Putin, da Rússia, país-sede da próxima Copa, e com um sorriso amarelo de uma orelha a outra, entrega a taça ao capitão David Luiz, que chora de alegria e ergue a taça de forma entusiasmada. Confetes voam pelo tablado e fogos de artifício iluminam o céu do Rio de Janeiro. No dia seguinte, a "família Scolari" é homenageada em Brasília, com direito a mais fogos, um espetáculo da Esquadrilha da Fumaça e um desfile no caminhão do Corpo de Bombeiros. Mais uma vez, a Dilma, junto com Aldo Rebelo, ministro do Esporte, José Maria Marín, presidente da CBF e uma trupe de ministros, cartolas e alguns militantes governistas para a consagração do "sucesso" absoluto da "Copa das Copas". E, com o humor melhor do brasileiro, Dilma sobe mais alguns pontos na pesquisa eleitoral e já volta a pensar na possibilidade de ser reeleita no primeiro turno...Seria a apoteose dos sonhos.

Pois é, seria.

Como todos nós sabemos, isso não vai acontecer. Depois da goleada histórica sofrida contra a Alemanha em pleno Mineirão (que convenhamos, faz o Maracanazo parecer lanchinho da tarde), o Brasil terá que lutar pelo prêmio de consolação (3° lugar) contra a Holanda, que depois de um equilibrado jogo contra a Argentina capitulou na disputa de pênaltis e viu mais um sonho de título inédito ser adiado. A propósito, mesmo levando em conta o desânimo do técnico holandês Louis Van Gaal, o estado de coisas da seleção brasileira depois do vexame de ontem pode muito bem pesar contra nós novamente. Diria até que não seria surpresa nenhuma uma nova goleada em pleno Mané Garrincha, com a "vantagem" de que o placar seria um pouco menos elástico. Algo, digamos, digno do ocaso de um estádio que eventualmente servirá para abrigar o clássico das centenas entre Gama e Brasiliense quando o Mundial terminar. Junto com as igualmente inúteis Arena Pantanal e Arena das Dunas e a ainda mais inútil Arena da Amazônia, fará parte dos grandes monumentos ao desperdício de dinheiro do contribuinte, que dedica cinco meses de seu trabalho para alimentar um Estado (neste caso falo de governo federal, estados e municípios) a beira ou para lá da obesidade mórbida.

E por falar da Argentina...Bem, como dizia uma das leis de Murphy, nada é tão ruim que não possa piorar. E, não querendo deixar a rivalidade com nossos "hermanos" falar mais alto mas já deixando falar, uma combinação de uma vitória holandesa em Brasília com uma consagração argentina em pleno Maracanã contra a mesma Alemanha que humilhou o Brasil seria um cenário um tanto inconcebível até mesmo nos piores pesadelos.

Deixando um pouco o futebol de lado, vamos retomar o "lado político" desta Copa, que os governistas resolveram abrir mão uma vez que não será mais possível realizar a apoteose descrita no início deste post, muito menos capitalizar isso como mais um feito do "petê" (lembrando que até antes da semifinal contra a Alemanha, quando se celebrava o "sucesso" do Mundial apenas porque as piores previsões em torno do evento não se confirmaram, Dilma conseguiu ter uma sensível recuperação na pesquisa eleitoral), que junto com isso conseguiu realizar a mais perfeita, a mais estupenda...A melhor Copa do Mundo...Da história. E peço que leiam isso com a voz do locutor da Hyundai. E antes que apareça alguém dizendo que "política e futebol não se misturam", saiba muito bem que para você, eu e outras pessoas que conseguem fazer esse discernimento, de fato elas não se misturam nem deveriam se misturar. No entanto, para a grande massa, ainda mais nesses cantos de nossa América Latina, política e futebol podem muito bem andar lado a lado, junto e misturado (ou você acha que sem a forcinha do ex-presidente Lula, um corintiano roxo, o Impressorão Itaquerão a Arena Corinthians iria sair do papel?). A propósito, a conquista do tri do Brasil em 1970 e do primeiro título da Argentina em 1978 foram transformadas em demonstrações de força nas ditaduras militares de seus respectivos países. E diria até que o comportamento de alguns governistas e até mesmo outros esquerdistas quanto à defesa da Copa fariam os mais ufanistas dos milicos da época sentirem um tanto de inveja. Por mais, claro, que essa visão nacionalista atual seja tão verdadeira quanto uma nota de R$ 3. A propósito, o nacionalismo ou mesmo patriotismo de muitos é tão verdadeiro quanto uma nota de R$ 3.

Até nosso patriotismo de Copa do Mundo é profundo...Como um pires. (Fonte da imagem: Veja São Paulo)
Agora que a "Copa das Copas" não terá o final dos sonhos para os brasileiros, até mesmo o clima de harmonia presente no evento e que foi um dos "trunfos" utilizados pelos governistas ficou por um fio. Tanto que se passou a ter uma preocupação especial quanto à segurança para os dois últimos jogos, que serão realizados em Brasília e no Rio de Janeiro. E um novo tombo da Seleção pode muito bem servir como "faísca" para uma nova onda de protestos contra os gastos feitos para a Copa, ainda que isso seja um tanto incoerente. E incoerente ou não, é que o governo federal, a Dilma e o PT menos queriam neste momento.

É claro que faltam ainda quatro dias e há muita água para rolar embaixo da ponte, sem contar que é preciso esperar os números da economia (afinal, não diriam que a Copa seria uma alavanca para o nosso país nesse sentido?), apesar de que tudo indica que estes não serão bons. Mas a até então Copa das Copas pode se transformar em plena reta final no pesadelo dos pesadelos.

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