(Duro) choque de realidade 3: vexame, ideias furadas e propostas

(Fonte da imagem: Globo Esporte)
Confira os dois primeiros posts: AQUI e AQUI.

Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para dar continuidade a série de postagens que comecei a fazer após a histórica goleada de 7 a 1 que tomamos da Alemanha nas semifinais, desta vez comentando um pouco sobre as propostas ventiladas para mudar o nosso futebol. Por falar de vexame sofremos outro: no último jogo que valia o terceiro lugar, contra uma Holanda que nem estava jogando no máximo, perdemos de 3 a 0. A propósito, considerando apenas os dois últimos jogos, se você não soubesse que estamos em Copa no Mundo e descobrisse que seu time sofreu duas derrotas achapantes, tomou dez gols e fez apenas um (um saldo de gols de -9), provavelmente ia pensar em algum time na zona de rebaixamento. E até que faz algum sentido, se pensarmos que o Felipão, na experiência anterior à assumir novamente a Seleção, colocou o Palmeiras na boca do abismo e Parreira, auxiliar, entregou o Fluminense no fundo do poço. Nunca se viu um prêmio tão grande para tamanha incompetência. E antes que alguém venha aparecer falando "ah, o Parreira foi tetra em 1994 e o Felipão foi penta em 2002", respondo com a seguinte pergunta: você contrataria alguém hoje que diga que fez um curso de MS-DOS avançado? Ou ainda escolheria alguém com experiência em datilografia? Portanto, que sentido existe ter alguém que ensine futebol de 1994 e 2002 em pleno 2014?

Retomando o assunto, esse estado catastrófico que a Seleção viveu nos últimos dias levantou ideias sobre como melhorar a qualidade de nosso futebol, que há alguns anos está, na melhor das hipóteses, estagnada (e na pior, se deteriorando). Uma delas, para honrar a tradição cada vez mais estatista do governo federal, é que o governo, ainda que parcialmente, assuma o futebol. Até gostaria de fazer um post explicando com calma porque acho a ideia uma furada (se bem que o Luciano Ayan, em seu site, já falou algo por mim), mas adianto dois simples motivos para me opor veementemente a tal ideia: uma é que o governo (e não falo somente do federal, cito os estaduais e municipais) já gerencia mal e porcamente serviços essenciais, como saúde, educação e segurança, por exemplo. E a outra é que já existe uma forte simbiose entre governos (deixando claro o plural), federações e clubes. Ou você acha que sem a influência de um ex-presidente a Arena Corinthians teria saído tão facilmente do papel? Ou a Caixa Econômica Federal estaria patrocinando uma renca de times de futebol? Ou ainda teríamos estádios superdimensionados para locais sem nenhuma tradição no futebol de ponta?

(Fonte da imagem: Meu Timão)
Nesta altura alguém deve estar se perguntando: "Ora, o que você propõe para melhorar a qualidade de nosso futebol?". Obviamente, a minha ideia, como já disse, é radicalmente oposta a do ministro-ostra Aldo Rebelo, e é justamente reduzir ao máximo essas simbioses ditas no parágrafo anterior. Abaixo, seguem algumas propostas:
  1. Liga independente para os torneios nacionais (Brasileirão e Copa do Brasil): seria criada uma holding pelos clubes associados (como ocorre na Premier League, Bundesliga e La Liga), que teriam as atribuições de gestão, definição da fórmula de disputa e negociações comerciais (entre elas, a de direitos de transmissão para as emissoras de TV). Caberia à CBF apenas gerenciar a Seleção e a arbitragem.
  2. Clubes-empresa: todos os clubes passariam a funcionar como empresas. Assim, ficaria mais fácil viabilizar investimentos nacionais ou mesmo estrangeiros, que, interessados nos resultados financeiros, fariam uma melhor gestão dos recursos. Além disso, os sócios passariam a ser acionistas, inclusive podendo adquirir tais fatias da empresa na Bolsa de Valores (eu gostaria muito de ter ações do Fluminense).
  3. Calendário mais compacto, extinção dos campeonatos estaduais e retorno dos regionais: o calendário futebolístico em nosso país é extremamente extenso, com uma temporada que começa na segunda quinzena de janeiro e invade a primeira de dezembro (ou seja, praticamente onze meses de bola rolando) e o resto se divide entre férias e pré-temporada. Além de desgastar os jogadores, dificulta os times de poder efetuar testes jogando contra outros times de melhor desempenho. Para contornar isso, defendo algumas mudanças que passariam por: fim dos campeonatos estaduais, retorno dos campeonatos regionais (com ligas independentes que teriam as mesmas atribuições da liga nacional) e torneios nacionais (Brasileirão e Copa do Brasil) mais compactos.
  4. Proibição de patrocínio de empresas estatais a clubes: para evitar qualquer submissão dos clubes a interesses indiretos dos governos e vice-versa.
Sobre o terceiro item, uma sugestão que daria seria a seguinte: os torneios regionais (divididos em três ou quatro divisões, dependendo da região) seriam disputados por 32 times e a fórmula de disputa seria análoga a da Copa do Mundo. Os 32 melhores de todos os torneios regionais (da primeira divisão, proporcionalmente rateados) disputariam a Copa do Brasil, cuja fórmula também seria igual a da Copa do Mundo. Por fim, o Brasileirão "perfeito" seria disputado em cinco divisões (16 times por cada divisão) e seria adotado um sistema misto (pontos corridos na primeira fase e mata-mata nas fases seguintes), que funcionaria da seguinte forma (na primeira divisão):
  • Primeira fase: quinze rodadas, em turno único. Os oito primeiros iriam para as fases finais e os quatro últimos, rebaixados;
  • Quartas-de-final, semifinal e final: em jogos únicos. O chaveamento seria feito por sorteio (como ocorre na Champions League). E o estádio da final seria predeterminado ainda no final da temporada anterior.
Sendo assim, o calendário do futebol brasileiro seria organizado da seguinte forma:
  • Janeiro: férias (primeira quinzena) e pré-temporada (segunda quinzena);
  • Fevereiro/Março: Copas Regionais;
  • Abril: treinamentos intermediários/amistosos;
  • Maio/Junho: Copa do Brasil;
  • Julho: treinamentos intermediários/amistosos;
  • Agosto/Setembro/Outubro: Brasileirão
  • Novembro: Copa dos Campeões (o campeão da Copa do Brasil disputaria com o campeão do Brasileirão em dois jogos, ou seja, ida e volta). Quem ganhasse já teria vaga garantida na Copa do Brasil do ano seguinte.
É claro que tenho outras propostas, e mesmo o detalhamento destas tornaria esta postagem bem extensa. Mas creio eu que desta forma o futebol brasileiro seria mais profissional, mais sério e menos dependente de feitiçaria. Enquanto isso, convivamos com o risco de sermos zoados pelos argentinos...Haja coração (e paciência)!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva