(Duro) choque de realidade

(Fonte da imagem: Terra)
Boa noite pessoal. Conforme falei no post anterior, não estou podendo atualizar o Minuto Produtivo com a mesma frequência de antes por conta do estágio que estou fazendo pela parte da manhã, por isso o tempo que fiquei sem passar por aqui. Também pensei em escrever esta postagem antes do vexame jogo contra a Alemanha, mas o cansaço devido à adaptação a minha nova jornada me levou a uma soneca, portanto começo a escrever somente agora, meia hora depois do maior massacre que a Seleção levou em Copas do Mundo (o fato de ter sido em casa apenas tornou o resultado ainda mais dramático). Óbvio, isso muda um pouco o espírito de minha postagem, ainda que o resultado final acabe sendo o mesmo.

Faltam apenas cinco dias para que a Copa do Mundo, tida por muitos como a melhor da história (não sei se concordaria quanto a isso, e mesmo se concordasse digo que é apesar dos preparativos e da organização e não por causa dela), chegue ao seu final. E com ela, vem um choque de realidade, que ocorreria independente do resultado do jogo de hoje no Mineirão, se bem que com essa goleada tal choque pode ser antecipado ou mesmo ampliado. É esperar para ver.

Vejo a derrota de hoje para a Alemanha como um simbolismo do esgotamento de nosso modelo de futebol, que a propósito diria até que é inexistente (e desde 2002, diga-se de passagem). Desde então, parece que nos acomodamos com o mantra de que temos o melhor futebol do mundo e nos resumimos a requentar as receitas de sempre achando que isso seria suficiente para que vencêssemos eternamente. Um exemplo disso é que ainda há quem diga que o Brasileirão, que voltará já no dia 16 para nos dar aquela sensação de ressaca dos grandes jogadores e do bom futebol jogado no Mundial, é um dos melhores e mais competitivos campeonatos do mundo. É, e deve ser por isso que nunca tivemos uma Seleção brasileira tão europeizada como agora...Senta lá Cláudia.

Assim como essa derrota simboliza o esgotamento de nosso modelo de futebol, tal situação pode muito bem simbolizar o esgotamento de um estado de coisas que há mais de uma década domina a política e a economia de nosso país. Desde que o Brasil passou a despontar no cenário internacional, devido ao boom das commodities e da China, que na época crescia em torno dos 10% a.a., havia a sensação de que isso e somente isso seria suficiente para alavancar o nosso país ao posto de potência mundial. Reformas tributária, trabalhista e política (não, não apoio o arremedo do "plebiscito popular" pela Constituinte exclusiva, para ficar bem claro) poderiam ser perfeitamente empurradas com a barriga. Além disso, receitas requentadas de política econômica (leia isso como coisas que fracassaram antes do Plano Real), ainda que em doses mais leves, acabaram sendo retomadas. Claro, em nome dos "interesses nacionais". Isso sem falar na ideia de mais gastos públicos e estímulos para "turbinar" a economia e a agora recorrente contabilidade criativa...

(Fonte da imagem: Valor Econômico)

A propósito, no campo político, o mesmo partido que foi eleito como a esperança "contra tudo isso que está por aí" se juntou ao último em nome da "governabilidade" (e ainda quer ter moral para reclamar). Reclama da influência do "poder econômico" (como se isso não existisse em outros países no mundo, inclusive os mais "sérios", e diga-se de passagem, é necessário sim um poder econômico forte que faça um contrapeso ao poder político), mas nunca se valeu tanto do mesmo para poder bancar campanhas eleitorais cada vez mais faraônicas. Isso sem falar nas propostas para o futuro de nosso país, com paralelo nos democráticos - só que não - vizinhos bolivarianos.

O resultado disso? Estamos caminhando para o quarto ano seguido em que nosso país simplesmente patina. Na economia, crescimento fraco, alta inflação (enquanto escrevo esta notícia descubro que, para variar, o IPCA estourou o teto da meta) com preços controlados pelo governo (sim, acredite, aqui ainda se acredita que controle de preços segura inflação), outros indicadores econômicos andando de lado (quando não para trás). Na política, um clima de whatever que gera uma indignação - justificada - por parte da população (os protestos que se iniciaram no ano passado não me deixa mentir), mas ao mesmo tempo essa indignação abre a porta para propostas que, se levadas a cabo, implodirão a nossa tenra e - como nunca antes na história deste país - frágil democracia.

Enfim, caso venha, o choque de realidade quando o último dos fogos de artifício estourar no Maracanã será dolorido (e com a pior derrota da história das Copas, a dor será um tanto maior), seja no futebol, seja no resto (quanto ao último, espero que seja o mais dolorido possível). E tanto no futebol quanto no resto, é momento para menos malabarismos e empurrões com a barriga e mais apostas naquilo que é (ou deveria ser) um tanto óbvio mas que no final das contas acaba dando certo em longo prazo. A propósito, voltar a vencer os alemães no futebol é e sempre será mais fácil do que conseguir alcançá-los nas práticas político-econômicas que fazem da terra das cervejas, chucrutes e salsichões um oásis de tranquilidade em uma Europa que se recupera da pior crise desde a Segunda Guerra Mundial. E ia quase me esquecendo: o que será da Arena Amazônia, Arena Pantanal, Arena das Dunas e o Mané Garrincha quando a Copa acabar?

Comentários

  1. Texto absolutamente perfeito. Onde assino?

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    Respostas
    1. Aqui: _________________________

      Muito obrigado e desculpa pela demora em responder.

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