O determinismo do Fantástico e os "nem-nem"

(Fonte da imagem: Globo/Acervo do editor)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar uma matéria exibida na edição de ontem do Fantástico sobre a geração nem-nem, que corresponde a dois em cada dez jovens brasileiros. O mais preocupante disso é que esse problema atinge principalmente pobres, sobretudo meninas, que engravidam cedo e precisam abandonar por longo tempo seus projetos de vida. E de fato, levando em conta a questão econômica, o fato dos nem-nem crescer entre os mais pobres, uma vez que estes, sem estudo ou trabalho (portanto, sem perspectivas na vida), podem se tornar presa fácil de aliciamento por criminosos, por exemplo.

De certa forma a matéria toca em muitos pontos que já são de conhecimento daqueles que fazem alguma questão de acompanhar as nuances do cenário social, político e econômico de nosso país (que, por mais que nosso governo não queira que as pessoas saibam, inclusive com patrulha de opinião, está piorando), mas um em particular me chamou a atenção. Segue trecho abaixo:

"O grupo “nem-nem” é maior entre os pobres. E a presença desse índice de exclusão social nas estatísticas ao longo do tempo mostra que uma herança de desigualdade vem passando de geração para geração no país.

Uma prova disso é que Pâmela herdou a mesma condição da mãe e da avó, que ficaram grávidas na adolescência. “Eu parei com os estudos, eu parei com tudo também. Aí eu tive muita dificuldade de arranjar emprego, a não ser em casa de família”, diz Rosemar Pereira, mãe de Pâmela."

Como assim "herdou" a condição de ficar grávida na adolescência? Até onde sei, a gravidez é uma condição, como que eu posso dizer, adquirida. Para ser mais detalhista, salvo caso fortuito da Virgem Maria, a gravidez é precedida por relação sexual. Portanto, não se trata de herança nenhuma.

Antes que venha alguém querendo tacar pedras em mim dizendo que sou "moralista" e coisas do tipo, já quero deixar claro: não, não irei dedicar esta postagem para defender castidade, eu escolhi esperar ou fiscalismo do que um casal, de papel passado ou não, deve ou não fazer, muito embora acho louvável práticas que lidem com a sexualidade de forma mais responsável, como a monogamia e a relação após o casamento (embora deixo também claro que isso não anula a necessidade dos métodos de proteção convencionais, como a pílula anticoncepcional, a camisinha, entre outros). Mas a gravidez é uma questão séria. Muito séria. Ter um filho significa que você deve dedicar sua vida de forma total ou parcial por, pelo menos, 18 anos (tendo como referência a maioridade). Em boa parte dos casos oscila entre 21 e 25 anos (aí é a condição financeira que decide o quanto um filho ou filha pode depender de seus país). Em termos percentuais, os pais dedicam de 20% a 30% de sua vida para seus filhos.

Enfim, estamos falando de uma questão um tanto impactante para sair por aí e dizer que se trata de algo que simplesmente "aconteceu". Ou como diz a reportagem no Fantástico, uma questão de mera "herança".

"Ah, se não é herança é o que então?". Não dá para explicar apenas por uma razão. Porém, algumas razões podem levar a esse quadro desalentador. Uma delas, costumeiramente veiculada, é a questão da "falta de informação". Nesta situação, as pessoas, geralmente pobres, não tem acesso à informação e por isso não podem se orientar de forma adequada quanto a um possível planejamento familiar. Então, acabam engravidando indesejadamente e muitas vezes antes de chegar à idade adulta. Muitas vezes acabam sendo mães solteiras, o que agrava ainda mais o quadro.

Arrisco dizer, porém, que esse argumento de "falta de informação", hoje, é cada vez mais fraco, uma vez que o acesso aos meios de comunicação já está massificado, mesmo entre as classes menos favorecidas (leia-se: D e E). Mesmo computadores e o acesso à Internet estão cada vez mais democráticos no Brasil. Dito isso, parto para outra linha de raciocínio (que não necessariamente exclui a primeira), que tem a ver com a capacidade individual de tomar decisões e de se responsabilizar por elas: o fato de que a liberdade em decidir por certas coisas, inclusive por aquelas que dão prazer, têm consequências.

Digo isso uma vez que, muitas vezes as pessoas pensam apenas no aspecto de ter a liberdade de fazer o que bem entender, o que se estende à questão da sexualidade, por exemplo. Entretanto, essa liberdade de agir da forma que for mais conveniente tem consequências. No caso do trecho relatado no Fantástico, tais consequências podem durar a vida toda, ou ao menos boa parte dela. Infelizmente, muitos grupos, inclusive na mídia, preferem omitir a questão da responsabilidade, se preocupando apenas com o aspecto de "liberar por liberar". E é evidente que o saldo disso pode ficar negativo. E isso vale para qualquer aspecto da vida.

Resumo da ópera: não estamos falando de uma "herança". Estamos falando de um quadro evitável. E, nos dias de hoje, perfeitamente evitável.

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