Quem com porco se junta, farelo come

(Fonte da imagem: Tiapri)
"Quem com porco se junta, farelo come". Provavelmente você já deve ter ouvido esse dito popular (falado dessa forma ou em variantes) diversas vezes. E muito provavelmente alguns dos leitores deste blog devem ter achado um tanto familiar a imagem que abre este post. E sim, é sobre a famosa parábola do filho pródigo, que está na Bíblia. Nela, Jesus conta a história de um jovem que resolve pedir antecipação da herança a seu pai e resolve partir para um lugar distante. Lá, desperdiça todos seus recursos, é reduzido à situação de miséria e, para sobreviver, tem que cuidar de porcos em uma fazenda. Como se a decadência não fosse o bastante, esse jovem sente vontade de comer as alfarrobas (ou bolotas) que os porcos comiam, de tanta fome que ele passava. Percebendo a situação deplorável, ele decide voltar à casa de seu pai, inclusive abrindo mão da condição de filho para ser apenas um trabalhador. Mas o pai simplesmente ignora a situação, restaurando a condição original de seu filho e faz inclusive uma festa para comemorar o retorno deste ao lar.

Questões religiosas a parte (muito embora elas também são importantes no tema que irei falar), a cultura judaica considera o porco um animal imundo. Pela lei da época, tocar em um porco obrigaria a pessoa a se submeter a uma purificação e alimentar-se de sua carne era proibido. Portanto, apascentar porcos era, talvez, uma das maiores humilhações que um judeu poderia se submeter. E comer a mesma comida dos porcos era uma expressão clara do que hoje seria equivalente a alguém da alta sociedade ficar debaixo da ponte fumando crack. Enfim, Jesus foi um mestre no que se refere à didática ao usar um elemento que na época representava o que era de pior para aquele povo.


Pois bem, alguns devem estar se perguntando: por que esse cara resolveu dar um rodeio tão grande? E que cargas d'água ele resolveu falar disso?

Bem, quem desconfiou pela questão do porco na cultura judaica e pelo título da postagem de que eu irei falar sobre o constrangedor episódio da diplomacia brasileira com Israel, acertou. Mas antes de falar do incidente propriamente dito, vamos relembrar um pouco sobre o recente conflito em Gaza: o grupo terrorista (vale lembrar disso, diga-se de passagem) Hamas resolve atacar diversas cidades de Israel com seus foguetes (felizmente, boa parte deles são interceptados pelo Domo de Ferro) e como se isso não fosse o bastante, endossa o sequestro e o assassinato de três jovens israelenses. Em seguida, como resposta aos ataques, Israel lança uma ofensiva, bombardeando as instalações utilizadas pelos terroristas palestinos. Infelizmente, como em qualquer situação de conflito, diversos civis morreram (lembrando ainda que o Hamas usa instalações e pessoas civis como "escudo") e então ocorre um verdadeiro bombardeio internacional de críticas à ação militar das Forças de Defesa Israelenses (FDI).

Uma das críticas partiu do Brasil, que resolveu contestar o "uso desproporcional da força" na operação em Gaza e chamou o embaixador do Brasil em Tel Aviv para consultas em Brasília (confira aqui). No campo diplomático, isso seria apenas um passo antes do rompimento de relações. Após isso, o porta-voz das relações exteriores de Israel, Yigal Palmor, rebate as críticas brasileiras e chama o país de "anão diplomático" (aqui), e o chefe do Itamaraty, Luiz Alberto Figueiredo, rebate novamente, alegando que o Brasil é um dos onze países que tem relações diplomáticas com todos (aqui), e reitera que Israel utilizou de "força desproporcional". A reação diplomática israelense veio rápido e com tom de ironia, dizendo que "desproporcional foi o 7 a 1", em referência à goleada que o Brasil sofreu da Alemanha na Copa. Por fim, depois da dupla trolagem, o assessor de relações internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, minimizou as críticas, dizendo que o porta-voz israelense era "sub do sub do sub do sub" e que não merecia resposta (aqui). Se não merecia resposta, por que cargas d'água ficou de choro quando o Brasil foi chamado de "anão diplomático"?

Antes de chegar de fato ao que quero falar, é necessário abrir um parêntese: em primeiro lugar, não estou defendendo todas as ações do governo israelense muito menos endossando todo o conteúdo de sua política de relações com os palestinos e, de fato, é lamentável que tantas vidas inocentes se percam neste conflito. Entretanto, enxergar Israel como monstro moral ou mesmo achar que existe igualdade entre as ações das FDI e do Hamas e, para dizer o mínimo, uma visão muito distorcida dos fatos, uma vez que a ação israelense trata-se de um contra-ataque para neutralizar a ação de um grupo terrorista que, como já disse neste post, usa pessoas e instalações civis para fins militares (isso explica a "desproporção" entre o número de mortos do lado palestino e do lado israelense). E não, se Benjamin Netanyahu decidisse por desocupar a Cisjordânia (ainda ocupada por assentamentos judeus, prática que eu discordo veementemente) e "libertar" a Palestina (como dizem a galera cool prafrentex daqui), não mudaria em nada. Até porque o objetivo do Hamas é a destruição do Estado de Israel. Tão somente isso.

Em segundo lugar, a própria ideia de "uso desproporcional da força", é, até certo ponto, discutível. Em uma situação de conflito, a ideia é que se use uma força maior que a de seu adversário de forma a não só anular sua ação como também impedir que ele a repita tão cedo. Portanto, a "desproporção" no uso da força é uma condição necessária (para não dizer obrigatória) para se vencer um conflito. A propósito, para aqueles que ainda falam que "Israel deveria usar de força proporcional", já pensaram em defender, por exemplo, que a polícia reprimisse a ação de black blocs com munição letal? Afinal, há uma "desproporção" entre coquetéis molotov/pedras/explosivos e balas de borracha/bombas de gás lacrimogêneo, não é (e sim, defendo que a polícia tenha poder tal para fazer isso, uma vez que anularia os vândalos de forma rápida e eficaz e pela razão óbvia de que esta detém o uso legítimo da força)?

Finalizado o parêntese - ufa! - vamos ao foco da postagem. Por mais que você não concorde com o que Israel faz e como ele lida com os palestinos, venhamos e convenhamos: o Brasil não é o melhor país para fazer crítica às ações israelenses. E por uma razão de simples coerência. Nossa diplomacia, que já foi bastante marcada pela moderação e pelo pragmatismo, resolveu nos últimos anos se aliar ao que há de pior na geopolítica internacional. Ou, como dito no título desta postagem, resolveu se juntar aos "porcos". Em alguns casos, se tomássemos como verdade que Israel de fato agiu desproporcionalmente e que pratica uma verdadeira "limpeza" em Gaza, a trupe de Netanyahu perto da turminha com quem o Brasil brinca no recreio é feita de "nerds certinhos".

De um lado, temos a Rússia, que insufla um movimento separatista na vizinha Ucrânia (que diga-se de passagem derrubou um avião com 298 pessoas a bordo) e que trata com mão de ferro de opositores que incomodem a política putinista (alguns deles presos, outros misteriosamente assassinados) a separatistas em seu país (os chechenos que o digam...A propósito, alguém acha "proporcional" o bombardeio de Grozni, por exemplo?). Isso sem falar na guerra contra a Geórgia em 2008...Críticas de nossa diplomacia a isso? Nenhuma.

Do outro, temos a China, aquele país em que diversos movimentos que possam representar uma ameaça ao regime ditatorial (sim, a China é uma ditadura, ok?) são proibidos ou fortemente controlados e que discordar do mainstream do politburo de Pequim poderia simplesmente render uma temporada nos campos de reeducação pelo trabalho. Sem falar nos tibetanos, que querem formar um novo país e são duramente reprimidos. Críticas de nossa diplomacia a isso? Nenhuma.

Do outro, temos o Irã, aquele país super-humano que também persegue dissidentes políticos, sem falar em punições, não raro severas, para aqueles que cometem crimes baseados em padrões religiosos (sim, vale lembrar que o Irã possui um regime teocrático). Críticas de nossa diplomacia a isso? Nenhuma. Inclusive você pode ver um desses momentos constrangedores de nossa política externa em vídeo (a partir de 3:20, aproximadamente).


Do outro, ainda, temos Cuba: um presídio em forma de ilha administrado pelos irmãos Castro em que discordar do regime rende cadeia e qualquer pessoa que queira sair de lá precisa fugir (não, eles não podem sair a hora que quiserem) e encarar um mar cheio de tubarões para chegar à Flórida para ser oprimida pelo capitalismo selvagem norte-americano (ou estadunidense, como as esquerdas preferem chamar). Críticas de nossa diplomacia a isso? Nenhuma. Pelo contrário, até agem de forma favorável ao governo de lá, com direito a financiamento de porto que servia de contrabando de armas para a Coreia do Norte, mas não espalhem, gente...

Temos ainda a Venezuela, aquela "democracia até demais" segundo Lula, que atira a esmo (e com balas de verdade) em manifestantes opositores ao governo, sem falar que além de usar a Guarda Nacional para isso, usa milícias para tocar o terror em quem queira discordar do chavismo, agora madurismo. Críticas de nossa diplomacia a isso? Nenhuma. Pelo contrário, houve muito apoio inclusive.

E a lista de "porcos" não para por aí. Nem a de demonstrações de humanidade e proporção do uso da força que Israel, coitado, não é capaz de fazer...Ironias a parte, o Itamaraty ainda acha que tem moral para criticar a ação de defesa do governo israelense enquanto não só se silencia a ações iguais ou mesmo piores praticadas por outros países como também resolve dar as mãos e chamá-los para tomar um cafezinho? Chamar a crítica do governo brasileiro a Israel de nanismo diplomático, pensando bem, saiu até barato.

O quiproquó que virou nossa política externa e que foi colocado à tona (ainda que de forma indireta) pelo Sr. Palmor mostra que o dito popular que dá o título a nossa postagem é mais que verdadeiro. O problema é que no nosso caso poderemos ficar sem o farelo...

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