Rotinas da Copa: #2 - A Copa mais bem organizada que as Olimpíadas de Londres

(Fonte da imagem: Exame)
Bom dia pessoal. Hoje abrirei o mês de julho no Minuto Produtivo para comentar sobre a segunda rotina que foi lançada nesta Copa do Mundo, que nos dias 04 (meu aniversário, achei que vocês gostariam saber) e 05 estará na fase das quartas-de-final (caso ainda queiram conferir a primeira rotina, cliquem aqui). Uma reportagem, publicada ontem na Exame, causou alvoroço e ejaculações precoces nos governistas, que já comemoram o "sucesso" do Mundial aqui no Brasil (mesmo quando, na verdade, foi apenas o não cumprimento das piores expectativas para o evento e tão somente isso). Nela, Dàvid Ranc, PhD pela Universidade de Cambridge e professor de uma escola de negócios francesa (ESSCA), resolveu dizer que a organização do torneio foi melhor que a das Olimpíadas de Londres, realizadas há dois anos. Segue abaixo os trechos da matéria e volto para comentar.

"Em um post publicado no blog do FREE – um grupo de acadêmicos europeus que estudam futebol e sua interação com a sociedade – Ranc afirma que há um abismo entre a percepção e a realidade quando se trata de competições organizados em países no norte ou sul do planeta.

Sempre que um evento é organizado em um país do Sul, o discurso e a memória são de potenciais fiascos, que normalmente não se materializaram. Sempre que um evento é organizado em um país do Norte, o discurso e a memória são de sucessos, mesmo quando houve fiascos de verdade”, escreveu.

O texto foi ao ar no dia 26 de junho. Há uma semana, portanto, mas já depois que o Brasil viveu alguns dos famosos desarranjos da Copa que poderiam influenciar a visão positiva do evento, tais como a invasão chilena e argentina no Maracanã e a falha na hora de tocar o hino da França no Beira-Rio, dentre outros.

Para ilustrar seu ponto de vista, o pesquisador relembra alguns dos problemas ocorridos em Londres:

- Muitas das arenas estavam praticamente vazias e foram preenchidas com homens do exército.

- As Forças Armadas tiveram que intervir depois que a empresa contratada para cuidar da segurança, G4S, não conseguiu dar conta do recado nem recrutar mão de obra suficiente.

- O caso em que o time de futebol feminino da Coreia do Norte foi mostrado com a bandeira da Coreia do Sul, o que atrasou o início do jogo, já que o time se recusou a entrar em campo.

- A pessoa invasora que participou do desfile da Índia na abertura.

Visão distorcida

O ponto, para Ranc, não é “criticar uma olimpíada relativamente bem organizada”, mas afirmar que há uma visão distorcida no discurso da mídia do norte/ocidente em relação ao sul/oriente.

Nesta Copa, é claro, inúmeros problemas já foram reportados, mas o que o professor – que já desenvolveu um estudo de caso sobre o Corinthians na Ditadura – questiona é se os cenários pintados previamente de desorganização total do Brasil estão equilibrados com a imagem de sucesso absoluto dos jogos londrinos.

Se uma é de fato mais organizada que a outra, aí é espaço completamente aberto à discussão. E, vale lembrar, provavelmente os ingleses ficarão relutantes com a opinião de um francês na discussão. 

A reputação da Inglaterra foi às alturas após 2012, a ponto de surgirem boatos de que o país poderia sediar os jogos de 2016 caso o atrasado Rio de Janeiro não desse conta de apressar o passo. Os rumores foram devidamente rechaçados por todos os envolvidos."

Meus comentários

De fato, considerando que as expectativas para o Mundial a um mês do começo eram quase apocalípticas - e com certa razão, uma vez que muitas obras estavam para terminar (sendo que algumas delas foram entregues com estruturas provisórias uma vez que as permanentes não estariam prontas a tempo) e o clima econômico e social do país estava bastante abalado por conta dos protestos que estouraram em junho do ano passado - até que saímos no "lucro" em relação à Copa por aqui. Mas para ficar (de novo) bem claro, os motivos que levam o campeonato a não apenas ser bom, como também ser, talvez, o melhor da história, não tem absolutamente nada a ver com os preparativos nem mesmo com a operação do evento. Dentro de campo, temos uma boa média de gols, jogos que agradam aos amantes do bom futebol (mesmo entre seleções tidas como "pequenas") e claro, as "zebras" (que agradam a alguns e causam pânico em outros). Fora dele, a hospitalidade e a capacidade de improvisação dos anfitriões acaba compensando o "não repare a bagunça" no aspecto da infraestrutura. Mas voltando a falar da organização e dos preparativos, resta saber se a comparação entre uma Copa (que diga-se de passagem é a mais cara da história) feita em estádios que em alguns lugares não estão prontos e com soluções de mobilidade urbana e transporte feitas de última hora com uma Olimpíada cujas obras ficaram prontas com um ano de antecedência e sem multiplicar assombrosamente o orçamento e com os distúrbios ocorridos em 2011 como a situação de tensão social mais "próxima" dos protestos ocorridos no Brasil foi apenas má vontade ou, com o perdão da franqueza, tolice.

Mas ainda não considerando essas duas possibilidades, vamos ao critério adotado (se é que ele existe) pelo Sr. Ranc para justificar a ideia de que a Copa teria sido melhor organizada em relação aos Jogos Olímpicos de Londres. Tentando explicá-lo em termos quantitativos, seria o seguinte: se A tira nota 5 em uma prova e B tira 8, mas A e B tem "potencial" para conseguirem notas 6 e 10, respectivamente, A foi melhor que B. Só que esse critério apresenta, pelo menos, dois problemas.

O primeiro problema do critério adotado por Ranc está em como medir esse "potencial", que diga-se de passagem é um critério completamente subjetivo, mesmo considerando como fato que países mais desenvolvidos tenham melhores condições financeiras e gerenciais de organizar um evento em relação a países emergentes. Até porque se levarmos isso "ao pé da letra" estaríamos admitindo que jamais seríamos capazes em organizar um evento melhor (nisso em termos "absolutos") que um país desenvolvido, por exemplo.

E o segundo e talvez, mais importante problema do critério de Ranc é que isso ignora completamente questões econômicas e sociais, como apresentei no início de meu comentário. Uma ilustração para exemplificar isso: você paga mais de R$ 2 mil/mês em uma escola particular esperando que seu filho tire 10 ao final do ano. Mas, devido aos hábitos de estudo do mesmo, você fica apavorado, pensando que seu filho vai tirar apenas um 4 (e, obviamente, reprovar). Contudo, algumas reviravoltas acontecem e seu filho se salva tirando apenas a média 6. Foi um bom investimento gastar mais de R$ 2 mil/mês para seu filho passar "na média"? Óbvio que não. O mesmo vale para a Copa: gastamos algo equivalente (ou até maior) em relação a eventos "nota dez", pelo andar da carruagem esperávamos um desastroso 4 e apenas pelo fato do evento ter conseguido pelo menos a "média", teríamos motivos para comemorar? Mais uma vez, não. Sem contar que isso não anula a discussão sobre o que ficará de legado após o Mundial. Manaus, Natal e Cuiabá, cidades sem expressão no futebol que possuem grandes estádios que sediaram apenas os jogos da primeira fase do evento, que o digam...

Não, não estou dizendo que eventos realizados em países desenvolvidos serão sempre a oitava maravilha do mundo e os realizados em países emergentes serão sempre um lixo. Cada caso é um caso e é arriscado fazer generalizações. Entretanto, é necessário critérios minimamente razoáveis (e universais) para que as coisas sejam comparadas.

Um aviso aos leitores: devido a novos compromissos profissionais do editor-chefe deste blog (a.k.a.: estágio em Engenharia de Produção), a atividade do blog, sobretudo pela manhã, será drasticamente reduzida. Caso haja postagens neste período, serão programadas. Grato pela compreensão.

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