A função "enxuga-gelo" do Banco Central

(Fonte da imagem: Renato Diniz)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre as recentes ações da equipe econômica do governo federal (sobretudo do Banco Central) com o intuito de "estimular a economia". Mais precisamente, sobre a lógica - ou melhor, a falta dela - no contexto atual. Não custa nada lembrar, por exemplo, que apesar de todos os incentivos já dados - sejam fiscais, sejam creditícios - o PIB brasileiro segue andando de lado (já se fala em desempenho inferior a 0,8%).

Em primeiro lugar, vamos ao aspecto mais óbvio da medida, que como disse no parágrafo anterior, é a falta de lógica existente nela. Desde o ano passado até o primeiro semestre deste ano, o BC resolveu (tardiamente, diga-se de passagem) iniciar um ciclo de alta da taxa básica de juros (a Selic) com o intuito de esfriar os índices de inflação (que em março daquele ano já rondavam perigosamente o teto da meta, de 6,5%). Explicando bem rapidamente, com o aumento da taxa de juros o custo de se emprestar dinheiro é maior, portanto teremos menos demanda por esse dinheiro em um prazo posterior e, consequentemente, menos dinheiro será ofertado ao mercado, portanto, tendência a uma inflação menor no período. Mas nos últimos dias (na verdade ele já vem fazendo isso há algum tempo, mas agora a situação começa ganhar proporções cada vez mais surreais) o mesmo BC resolveu mudar as regras de depósitos compulsórios, medidas que significam uma injeção de R$ 25 bilhões para ampliar o crédito (empréstimos e financiamentos), sendo que no mês passado já haviam sido liberados R$ 45 bilhões (confira aqui). Ou seja, mais oferta de dinheiro a um prazo posterior, maior demanda por tais recursos, aumento dos preços dos produtos e serviços ofertados e...Mais inflação. Ou seja, o BC resolveu se resumir a enxugar gelo. Neste momento até penso em fazer coro com os libertários mais exaltados (aqueles fãs de Ron Paul) no sentido de defender o fim do BC. Mas aí acabo pensando que neste cenário a economia estaria sob o pleno comando de Guido Mantega e fico com os dois pés atrás...

Mas é óbvio que a medida é irresponsável não só por isso. Outro motivo é que ela só ajuda a inflar (ainda mais) as bolhas de crédito (imobiliária, automobilística e varejista) que se formaram em nossa economia, aumentando de forma cada vez mais preocupante o descompasso entre o mundo financeiro e o mundo real. Um exemplo disso é que essa liberação de R$ 25 bilhões para empréstimos e financiamentos é para evitar que o crédito bancário se expanda abaixo de 12% este ano (confira aqui). Não entendeu, leitor? DOZE POR CENTO, no mesmo período em que se projeta um crescimento do PIB de ZERO VÍRGULA OITO. Para ser ter uma ideia do nível de surrealismo da intenção da medida, mesmo se a economia brasileira crescesse a ritmo chinês (que hoje é em torno dos 7,5% mas já chegou a 10%) a expansão do crédito continuaria superior.

De forma a tornar mais didática a explicação, resolvi elaborar de forma bem rápida alguns gráficos usando o Excel para mostrar o quanto a ideia de expandir o crédito em uma velocidade muito superior a renda pode ser perigosa. Nos dois primeiros cenários, considero uma pessoa que receba R$ 100 por mês e utiliza R$ 30 para despesas envolvendo crédito. No primeiro, o salário da pessoa é reajustado de acordo com os índices de inflação (no caso, tomei como referência 6,5%, teto da meta), e os gastos com crédito expandem 12%.

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)
No segundo, o salário é reajustado conforme a média de crescimento do PIB do governo Dilma, de 2,1% e os gastos com crédito sobem 12%.

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)
Nos dois últimos cenários, considerei que a pessoa gasta 50% do salário para despesas comuns (água, luz, telefone, alimentação, etc.), sendo o resto para crédito (que continua partindo de R$ 30) e outras despesas de caráter mais eventual. Respectivamente, as elevações da renda e crédito no terceiro e quarto cenários são as mesmas do primeiro e segundo. Segue abaixo:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)
Ou seja, levando em conta apenas estes cenários, quanto mais renda já estiver sido contingenciada para outras despesas (que não sejam as de crédito), situação um tanto familiar as classes C, D e E, mais cedo essas pessoas poderão se endividar acima de sua capacidade de pagamento. Isso porque claro, não considerei a possibilidade de que mesmo que sua renda acompanhasse o crédito esta pessoa não pensaria duas vezes antes de comprometer parcelas ainda maiores de seu salário em nome de um carro, uma casa ou mesmo uma TV de LED. Mesmo que isso resulte em surpresas desagradáveis mais a frente.

Diferente do que pensa o diretor de Assuntos Internacionais, Riscos e Regulação do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, o que menos precisamos para este momento é de "espírito animal". Nossa equipe econômica já o tem de sobra, tamanha a irracionalidade. E pela reação dos bancos à medida (ou falta dela) já sabemos quem pagará a conta caso tudo estoure.

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