Ainda sobre tigres racionais e humanos irracionais: a culpa de todos que acaba sendo culpa de ninguém

(Fonte da imagem: G1)
Boa noite pessoal. Ontem, resolvi comentar no blog sobre a entrevista em que o pai do menino atacado por um tigre em um zoológico de Cascavel (PR), sobretudo os pontos em que ele demonstra completa falta de noção do perigo que o garoto estava correndo ao entrar em uma área proibida para brincar (!) com o animal (você pode conferir a postagem aqui). Hoje, a colunista Rosely Sayão, da Folha de S. Paulo, fez uma coluna comentando sobre o caso. Em alguns pontos ela até consegue fazer acertos, mas ao final ela coloca tudo a perder ao tentar "socializar" a culpa pelo ocorrido. Segue abaixo os trechos da coluna, com intervenções ao longo deste post.

"Cinco fotos de situações ocorridas nos últimos dias dão para fazer uma página de um álbum que pode ter o título "Retratos da Vida".

Foto 1: Uma mulher joga o filho de dois anos contra a parede, por ficar irritada com o fato de ele mexer em seu aparelho celular sem permissão. O garoto morreu. Foto 2: Um homem é o principal suspeito de matar o filho de dois anos com golpes de jiu-jitsu durante o banho do garoto. Foto 3: Crianças entre dois e três anos são encontradas na creche presas às cadeiras por lençóis e fraldas, porque a responsável saíra para comprar créditos para seu celular. Foto 4: Um vídeo na internet mostra uma criança entre dois e três anos passeando pelo parapeito da janela de um apartamento situado mais ou menos no décimo andar do prédio. Foto 5: Um garoto de 11 anos perde um braço por ter se aproximado demais da jaula de um tigre para provocá-lo durante um passeio ao zoológico.

Todos os comentários sobre as cinco notícias postados na rede têm algo em comum: culpam os pais dessas crianças. Mas será mesmo que esses pais são os únicos responsáveis pelos fatos ocorridos, seja por problemas com drogas, mentais ou de descaso com os filhos? Convido você, caro leitor, a refletir também sobre o contexto social e cultural de nosso entorno na atualidade, e a entender por que cada um de nós está implicado nessas fotos."

Vou ser franco e direto: não, os pais não são os únicos responsáveis pelos fatos ocorridos com os filhos. Mas sim, são os principais responsáveis. Um pai que não é capaz de cuidar e educar seus filhos, por razões óbvias, não deveria sequer ter filhos. Ou como diz o ditado: "Quem pariu Mateus, que embale".

"Quando uma criança dá trabalho, consideramos que ela tem algum problema. Levamos a criança a médicos das mais variadas especialidades, a psicólogos, a psicopedagogos, etc. Enfim, a qualquer tipo de profissional que possa dar um jeito nela.

Cuidamos da criança mais ou menos como cuidamos de um carro: quando ele quebra, levamos à oficina mecânica. Vivemos tão intensamente nossa própria vida, que as crianças não podem nos dar trabalho algum. Queremos apenas desfrutar das crianças, não nos ocuparmos com elas!

Nossa sociedade adulta, infantilizada, adora brincar de faz-de-conta: fazemos de conta que cuidamos muito bem de nossas crianças. Criamos leis contra a publicidade infantil e contra a palmada, equipamos nossos carros com travas de porta e cadeirinhas especiais para o transporte, as janelas de casa são protegidas por redes, etc."

Neste ponto irei concordar. De fato, a geração atual de pais não faz questão de ocupar seu tempo para cuidar dos filhos. Diria até que as crianças hoje são tão bem tratadas pelos seus pais quanto as bonecas são tratadas pelas meninas. Ou nem isso. E como consequência, acaba-se delegando a médicos, psicólogos, psicopedagogos, professores, babás e empregadas um papel que em alguns casos, é dos pais e somente deles. E o intervencionismo do Estado, em não raros casos (se não a maioria), acaba mais atrapalhando do que ajudando no sentido de amenizar esse quadro.

"Entretanto, cresce o número de crianças esquecidas em carros, nas escolas, deixadas em casa sozinhas. Aumenta o índice de crianças obesas. Crianças maiores têm sofrido mais acidentes, porque não sabem fazer avaliação de risco das situações que exploram. Esses são alguns exemplos dos efeitos que o brincar de "faz-de-conta que cuidamos de nossas crianças" produz.

Achamos melhor pensar que os pais dessas crianças, e apenas eles, são responsáveis e/ou culpados por tudo o que acontece com elas, não é? Criança apresenta algum problema na escola? Melhor chamar os pais. Criança entra em uma situação perigosa, de risco? Melhor avisar os pais.

As cenas registradas em vídeos por pessoas que transitavam pelo zoológico enquanto o garoto de 11 anos desafiava a morte sem saber são exemplares para nos mostrar como as crianças não nos afetam. Por que ninguém tirou o garoto de lá? Por que apenas avisar o pai ou dizer "cuidado aí, garoto" deu a sensação de dever cumprido?

Todas as crianças são responsabilidade de cada um de nós. Elas são o nosso futuro. E serão o futuro, mas antes precisam sobreviver a nós."

Pronto, é aí que a colunista coloca tudo a perder. Alguém entre os visitantes do zoológico poderia tirar a criança do local? Até poderia. O pai dela gostaria disso? Provavelmente não (e aí cairíamos no pior dos mundos: os pais não educam seus filhos e pior, não aceitam que outros tentem fazer esse papel). E se o pai tirasse a criança de lá à força e desse umas palmadas? Provavelmente teríamos algum "ninja" (não, não estou me referindo à Mídia Ninja, muito embora o método "isento" de lidar com os fatos é o mesmo) filmando e mostrando aos quatro cantos das redes sociais que o pai foi cruel e que a criança ficou traumatizada pelos tapas (acredite, vídeos com esse nível de cobertura você vê aos montes na Internet). De qualquer forma, era para o pai da criança ter o mínimo de senso ao saber que um zoológico abriga animais irracionais (hur dur), selvagens e que muito provavelmente prefeririam estar na floresta, savana, pântano ou qualquer outro lugar mais sossegado e que a área proibida entre a cerca e a jaula existe justo para garantir a segurança na observação dos bichos (ah sim, em geral você apenas observa os animais, não os toca, por razões um tanto óbvias). Antes que eu me esqueça, temos uma lição bem clara neste ponto: nem sempre terão pessoas dispostas a corrigirem as cagadas dos outros.

A sociedade precisa cuidar melhor das crianças? Concordo. Mas os pais têm a principal tarefa neste cuidado. Afinal eles são o centro da família, e esta é uma das primeiras sociedades organizadas do mundo, base para todas as demais sociedades. Tal responsabilidade é intransferível, até porque quando todos são culpados, ninguém é culpado.

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