Copa do Mundo: um gol contra na economia?

(Fonte da imagem: The Wall Street Journal)
Ainda não fez um mês que a Copa do Mundo terminou, mas diversas empresas já divulgaram os resultados do segundo trimestre, incluindo o impacto que o torneio trouxe ao desempenho de seus negócios. Uma matéria do Wall Street Journal publicada ontem falou das empresas que levaram a melhor - e a pior - durante os trinta e um dias da competição, inclusive os efeitos do evento para a economia brasileira. Segue abaixo a reportagem. Volto mais tarde.

"Os gritos de vitória e os choros de derrota durante os jogos da Copa do Mundo foram repetidos por muitos executivos de todo o mundo ao verificar seus resultados financeiros.

Mais de 100 empresas de capital aberto já se pronunciaram sobre o impacto do torneio sobre seus negócios no trimestre passado. Os planos de jogo foram muito importantes, assim como nos campos, e houve alguns golaços e oportunidades perdidas.

A Las Vegas Sands Corp. afirmou que a Copa prejudicou suas receitas com jogos de cassino, com o segmento VIP caindo 20% de maio para junho. Já a Starwood Hotels & Resorts Worldwide Inc. informou que sua receita por quarto disponível no Brasil cresceu 25%.

Enquanto os torcedores se reuniam em torno de aparelhos de rádio e TV, muitos deles recém comprados, o comércio em muitas partes do mundo desacelerou. A Whirlpool Corp. afirma que a demanda por eletrodomésticos na América Latina pode cair até 3% este ano porque as pessoas compraram produtos como gravadores de vídeo em vez de máquinas de lavar. A Stanley Black & Decker Inc. informa que vendeu menos furadeiras e serras circulares na região porque "a Copa do Mundo se tornou uma enorme distração no mercado".

A economia do Brasil como um todo não se beneficiou muito com a Copa do Mundo, diz Daniela Ordonez, economista da seguradora de crédito comercial Euler Hermes. Ela estima que o valor dos bens e serviços produzidos no Brasil este ano vai ter um aumento extra de apenas 0,2%. Pior: a taxa de inflação do país deverá crescer 0,5 pontos percentuais devido aos gastos extras.

"Toda a atividade do consumo e turismo foi mais ou menos compensada pela redução da produtividade em outras áreas, como construção e transporte", diz ela. "Do ponto de vista econômico, pode não ter valido a pena."

Jose Luis Laparte, presidente da PriceSmart Inc., que opera clubes de compras com descontos, diz que as vendas de televisores foram robustas nas duas primeiras semanas de junho, mas os clientes desapareceram nos dias de jogo em países como Colômbia, Honduras e Costa Rica. "O último jogo da Costa Rica foi num sábado, então as pessoas simplesmente não saíram para fazer compras", diz ele.

As vendas de televisores dispararam, mas isso pode acarretar vendas menores no Natal. A Corning Inc., fabricante de telas de TV, afirma que as vendas na América do Sul cresceram 25% em abril e 64% em maio. "Sabemos também que as pessoas que compraram uma TV para a Copa do Mundo provavelmente não vão comprar outra no Natal", diz o diretor financeiro, James B. Flaws. "Isso não vai alterar a demanda de longo prazo."

Enquanto isso, mais de 80 milhões de espectadores sintonizaram na cobertura televisiva da Univision Communications Inc., outro patrocinador oficial, que teve 65% mais espectadores do que na Copa do Mundo de 2010.

No Brasil, os fãs puderam comer a batatas fritas Yoki, da General Mills Inc., e um lançamento em quantidade limitada de lanches Yoki com sabores inspirados em países da Copa do Mundo, como amendoim com bacon, o lanche americano, e pipoca com sabor de shoyo e wasabi, homenagem ao Japão. Também foram consumidas bebidas esportivas Powerade, da Coca-Cola Co. , uma das patrocinadoras oficiais. As vendas de bebidas esportivas subiram 6%, puxadas em parte pelo hino da Coca-Cola para a Copa, que ficou entre as dez músicas mais tocadas em 40 países, segundo o diretor-presidente, Muhtar Kent.

A American Airlines Group Inc. informou que menos passageiros viajaram para a América Latina na classe executiva, enquanto mais pessoas da região preferiram tirar férias no Brasil, não nos Estados Unidos. A receita por assento por milha voada, uma métrica comum do setor, caiu 2% na América Latina no segundo trimestre. A Delta Air Lines Inc. estimou que as receitas do setor caíram 5% na região em junho.

Sabendo o quanto funcionários e moradores queriam ver os jogos, a mineradora britânica African Barrick Gold PLC instalou telões nos lugarejos em torno de suas minas em países como a Tanzânia. "Fizemos coisas inovadoras na comunidade. E a resposta que tivemos foi incrível", diz Bradley Gordon, o diretor-presidente.
"Na [mina] North Mara o número de invasores caiu a zero durante a Copa do Mundo", diz ele, e brinca: "Talvez conversemos com a Fifa sobre a possibilidade de prolongar a Copa no futuro.""

Meus comentários

Alguns pontos (os que eu destaquei em negrito) da matéria do WSJ são bastante interessantes para se tomar conhecimento de que setores da economia são de fato beneficiados pelos grandes eventos (como a Copa do Mundo), o que reforça a ideia de que diferente do que é divulgado pela mitologia governista apenas as empresas que orbitam em torno do evento (empreiteiras responsáveis pelos estádios, patrocinadores oficiais, turismo, etc.) conseguiram se dar bem no Mundial, enquanto as demais atividades amargavam com feriados e semiferiados em série (ver nota da postagem do dia 28/05 aqui). Mas me atenho ao ponto que diversas pessoas na mídia e eu já alertavam (e eram chamadas de "pessimistas"): o benefício da Copa à economia brasileira seria praticamente nulo, sem contar os efeitos potencializadores sobre a inflação (que, diga-se de passagem, alertei com mais de um ano de antecedência e que acabou se confirmando no mês passado, com a divulgação do estouro do teto da meta ocorrido em junho).

Nunca o pessimismo foi tão, digamos, real.

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