Leonardo e o choque de capitalismo no futebol brasileiro

(Fonte da imagem: O Globo)
Boa noite pessoal. Amanhã, dia 08/08, completa um mês do fatídico vexame que a Seleção Brasileira passou no Mineirão, ao ser massacrada por 7 a 1 pela Alemanha (quem quiser conferir os "melhores momentos" pode ver aqui), e esta, merecidamente por sinal, faturou o tetracampeonato. Desde então, diversas ideias foram ventiladas de forma a renovar nosso futebol, algumas delas um tanto tenebrosas, como a estatização do esporte e intervenção na CBF (não que eu morra de amores pela confederação até porque ela tem sua parcela na décadence avec sans élégance que o esporte bretão está passando em solo brasileiro, mas não custa lembrar que a entidade é privada), ideias essas razoavelmente abordadas e criticadas por mim no terceiro post da tetralogia "(Duro) choque de realidade" (confira aqui). Além disso, alguns fatos importantes aconteceram neste meio-tempo: Dunga foi chamado para retornar ao comando da canarinho (depois de pensarem em técnicos com maior expertise internacional, como Tite e Muricy e até mesmo cogitar a hipótese de um técnico estrangeiro, como Mourinho ou Guardiola), Luxemburgo (o mesmo que empurrou o Fluminense para a boca do abismo no ano passado) assumiu o comando do Flamengo e a Globo deu um ultimato aos clubes que se não houver espetáculo tal que dê mais ibope, o futebol na TV aberta vai morrer (confira aqui). Só por aí já é possível se ter uma noção do quanto o futuro do esporte no qual o nosso país é tetracampeão mundial pode ser (ainda mais) sombrio.

Hoje, uma entrevista feita com Leonardo, ex-jogador e atual dirigente do Milan, publicada em O Globo, vai ao encontro do terceiro post da série que fiz no mês passado. Alguns trechos, em particular, chamam a atenção. Segue abaixo:

"— Bom Senso, Romário, clubes, CBF, todos precisam se unir e caminhar juntos para uma grande reformulação. A gente tem que mudar a visão do todo. O Brasil é a sétima economia mundial, o futebol é a nossa grande paixão, mas, apesar de todo esse potencial, o mundo corporativo, e o próprio futebol, ainda vê o esporte como organização social, sem fins lucrativos. Isso limita demais a entrada de qualquer investimento. A visão tem que ser comercial, com fins lucrativos. O sistema do futebol tem que ser outro."

"Na Alemanha, foram criados centros federais, trabalho a longo prazo. Existe uma parte do projeto que é comum a todos. Aqui, todos defendem somente seus interesses. É preciso um movimento comum, no qual as pessoas convirjam para alguma coisa, que beneficie a todos. A CBF (antes, CBD) tem 100 anos. Como pode ser atual, se funciona da mesma maneira há um século? O que falta nessa engrenagem? Um grupo de executivos que conheça gerenciamento e futebol, e acorde e vá dormir pensando no desenvolvimento dele. A CBF é muito mais organizadora e controladora do que promotora do campeonato. Não acredito que o Marin e o Del Nero não queiram uma coisa que seja melhor pra eles, para os clubes e para o futebol brasileiro. A Premier League é o maior exemplo de sucesso profissional. Claro que, pelas nossas particularidades, não dá para pura e simplesmente implanta-la aqui. Mas muita coisa pode servir de exemplo. Temos que gerar ideias e riquezas. Nossa estrutura é muito engessada. A hora de mudar é essa."

"Precisamos criar uma nova estrutura para entrar no mercado. Estamos fora dele. Trabalhando direito, temos condições de fazer um NBA. Quanto custa o Neymar pra ficar aqui? Para o tamanho do negócio que se pode gerar, não é nada. Se, ao menos, fizéssemos um campeonato local forte, não precisaríamos nem competir com a Europa. A NBA não compete com ninguém e é um sucesso no mundo todo. Porque é um produto de altíssima qualidade. O Campeonato Brasileiro não passa em lugar nenhum do mundo. Não dá pra ver nem pela internet. Porque é um produto que não é reconhecido no mercado. Os jogos são desinteressantes, jogam em 70 metros, a TV não consegue nem enquadrar. Parece que há um desânimo, um conformismo. É assim mesmo, é assim que eu vou fazer e viver! E ainda se chama Brasileirão. Esse nome não pode ser internacional, nenhum estrangeiro entende, nem consegue pronunciar direito. Não vende lá fora..."

"Os clubes têm que tomar a iniciativa! Porque sem eles não tem campeonato, não tem seleção, não tem nada. Campeonato sem CBF tem, sem Federação tem, sem clube, não. Os grandes atores são os clubes. E eles não podem estar tão enfraquecidos. E não adianta só sanear a dívida. Se não mudar o sistema e gerar riqueza, não resolve. Vai dever de novo. Para o campeonato ser forte, os clubes têm que ser fortes. Sem isso, é impossível. Precisamos abrir as portas dos clubes para as riquezas existentes no Brasil ou mesmo para as estrangeiras: o Chelsea é de um russo, o Paris Saint Germain, do Qatar, o (Manchester) United, dos americanos, a Roma também. As riquezas italianas estão no Milan, na Inter, Juventus a Fiat. O Bayern tem por trás a Mercedes. E nós estamos fora do mercado! Tem que profissionalizar a visão! Se um louco milionário resolve botar toda a riqueza dele no Flamengo, não pode. E o futebol está nas mãos dos empresários... Ora, já estamos penhorados. O cara entra numa falha do sistema. Quando disse, numa entrevista, há algum tempo, que deveriam vender o Flamengo, era a esse tipo de investimento a que me referia. A gente precisa criar uma estrutura para alguém colocar dinheiro. Só que quem botar 200 milhões de euros vai querer o comando e lucro. E terá um grupo de gestores que vai cuidar do investimento. Assim funciona. Mas hoje em dia, nenhuma assembleia de clube aceitaria um investimento como esse. Por política, medo, insegurança. Ora, o Flamengo já está vendido (para os credores de sua divida). E todos os clubes estão mais ou menos na mesma situação. Se alguém fosse dono ia lutar mais pra não perder o próprio patrimônio. Tem que descobrir onde está esse dinheiro e botar no futebol. Faturamento de 300 milhões ainda é pouco para resolver os nossos problemas."

Algo parecido com o que disse há quase um mês? Clubes-empresa, liga(s) independente(s) para a organização e gestão dos campeonatos regionais e nacionais e regulamentação mais flexível de forma a viabilizar investimentos nacionais e estrangeiros nos clubes estão no elenco das principais medidas que levaram o futebol dos principais países europeus a um posto privilegiado hoje. Talvez a única coisa que esqueci de abordar e que Leonardo tocou muito bem é que temos que abandonar uma visão nacionalista tacanha de que não precisamos de gente "de fora" para assumir postos de comando no esporte bretão, tanto dentro como fora das quatro linhas.

Enfim, não é necessário estatização ou qualquer interferência governamental no futebol brasileiro. Muito pelo contrário. Um choque de capitalismo, medida que Leonardo parece defender, é a melhor medida para que a bola seja melhor tratada em nossos gramados.

Confira no Estadofobia: "Bom Senso F. C.? O que falta é exatamente bom senso…"

Confira também no Infomoney: "Brasil: congelamento de ativos impede Botafogo de pagar salários de jogadores"

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