Recessão técnica: uma tragédia anunciada

A pipa do vovô O PIB não sobe mais...♪♫ (Fonte da imagem: Radar Nacional)
Boa noite pessoal. Como é de conhecimento de muitos dos leitores deste blog, o PIB brasileiro caiu 0,6% no segundo trimestre deste ano em relação ao anterior, e como o resultado do primeiro trimestre também foi revisado e passou de uma alta de 0,2% para uma baixa no mesmo nível, o país acabou entrando em "recessão técnica", cenário que ocorreu pela última vez no estouro da crise econômica nos EUA em 2008.

Como de praxe, nosso ministro da fazenda e astrólogo Guido Mantega resolveu lançar mais uma de suas tergiversações quando tudo dá errado: culpou o clima (no nosso caso a seca), a Copa, os feriados e o cenário internacional (ver aqui e aqui) por mais uma "façanha" que pode ser colocada em seu currículo: a de conseguir este resultado justo quando a inflação ameaça estourar o teto da meta, de 6,5%. Vale lembrar que enquanto isso os EUA, mesmo enfrentando um inverno rigoroso, não entraram na mesma situação, muito pelo contrário. Vale lembrar que o governo - com coro dos governistas - falava que a Copa iria estimular a economia. Vale lembrar que outros países, inclusive desenvolvidos, tem mais feriados que o nosso e nem por isso a economia andou para trás. E, por fim, vale lembrar que com o mesmo cenário internacional diversas economias cresceram, inclusive alguns países europeus que governistas em geral adoram utilizar para um momento tu quoque.

(Fonte da imagem: Veja)
Apesar de lamentável, o resultado não veio por acidente, muito longe disso. Pelo menos neste blog, venho alertando que as medidas para reaquecer a economia estavam dando errado (muito, por sinal). Por exemplo, alertei que os incentivos fiscais e creditícios não só não resolviam o problema (ver aqui), como também acabaria criando outros (como expliquei com mais calma aqui). Também disse que mesmo os setores protegidos do governo, como o automotivo e o varejo, não estavam mais em seus melhores dias (ver aqui e aqui). A propósito, para um país em que boa parte da economia anda por rodovias, montadoras de caminhões já adotam o lay-off (ver aqui) (suspensão de contratos de trabalho) em função da baixa demanda. Como ninguém compra caminhão para ostentar, qualquer pessoa que saiba relacionar lé com cré sabe que isso não é (nem de longe) um bom sinal. Não custa lembrar que, como bem alertado na videocoluna do Rodrigo Constantino (ver aqui), a hecatombe só não é maior porque pasmem, o consumo das famílias e os gastos do governo cresceram. Não custa lembrar que mais da metade de nossa população economicamente ativa já está endividada (ver aqui) e as contas do governo no mês passado tem o seu pior resultado em 17 anos (ver aqui). Preciso dizer (novamente) que essa tentativa de sustentar o crescimento econômico por tais meios é uma ideia suicida?

Ao final do ano a economia pode crescer? Pode. Até porque mesmo as atuais expectativas do Banco Central para o PIB deste ano apontam para 0,7% (o que não deixa de ser bem aquém do esperado para um país emergente como o nosso). A questão é se nesta altura do campeonato seria possível acreditar nisso. Provavelmente no terceiro trimestre a economia estará em compasso de espera por conta das eleições e por fim no quarto trimestre (claro, não levando em conta quem for eleito em outubro) teríamos que torcer por um ótimo Natal (repito: ótimo) para conseguir fechar nessa última expectativa (ah sim, para a economia teria que crescer mais de 1% no segundo semestre - ou pior, apenas no quarto trimestre -  para fechar o ano desta forma). Creio eu que ainda teremos mais revisões para baixo de tais números, e, caso queiram anotar para me cobrar no futuro, deveríamos glorificar de pé caso o Brasil consiga crescer 0,5% em 2014 (com 0,2 p.p. para mais ou menos).

Para finalizar, e antes que eu me esqueça, o primeiro post deste blog neste ano, feito pelo meu então colega de bancada Alex Zanetti, já falava no cenário sombrio que estava por vir. Enfim, falta de aviso, seja por ele, por mim e por muitos outros, não teve. E estamos só no começo...

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