Sobre guerras e dilemas morais

(Fonte da imagem: BBC Brasil)
Boa noite pessoal. No último domingo (27/07) escrevi um post comentando sobre o nanismo diplomático (e moral) que o governo brasileiro fez ao condenar enfaticamente a ação de Israel em Gaza (confira aqui), enquanto faz quase um ménage à trois com países que agem de forma bem mais traiçoeira que Netanyahu e sua trupe (claro, sempre supondo que as ações israelenses sejam, de fato, truculência pura e simples). Hoje irei falar um pouco - e brevemente - de alguns dilemas morais que surgem em situações de guerra e que muitas vezes acabam levando a conclusões precipitadas e críticas quase sempre voltadas para o lado israelense.

Em primeiro lugar, voltemos àquele discurso de sempre: o de que Israel esteja agindo de forma desproporcional, e isso se explicaria pelo número de mortos, que ultrapassa 1,6 mil do lado palestino (a maioria civis) enquanto que do lado israelense esse número sequer chega a 70 (e a maioria militares). Transcrevo o trecho do post anterior (vide link no início) sobre o assunto, em que falo de forma bem sucinta (grifos meus):

"Antes de chegar de fato ao que quero falar, é necessário abrir um parêntese: em primeiro lugar, não estou defendendo todas as ações do governo israelense muito menos endossando todo o conteúdo de sua política de relações com os palestinos e, de fato, é lamentável que tantas vidas inocentes se percam neste conflito. Entretanto, enxergar Israel como monstro moral ou mesmo achar que existe igualdade entre as ações das FDI e do Hamas e, para dizer o mínimo, uma visão muito distorcida dos fatos, uma vez que a ação israelense trata-se de um contra-ataque para neutralizar a ação de um grupo terrorista que, como já disse neste post, usa pessoas e instalações civis para fins militares (isso explica a "desproporção" entre o número de mortos do lado palestino e do lado israelense). E não, se Benjamin Netanyahu decidisse por desocupar a Cisjordânia (ainda ocupada por assentamentos judeus, prática que eu discordo veementemente) e "libertar" a Palestina (como dizem a galera cool prafrentex daqui), não mudaria em nada. Até porque o objetivo do Hamas é a destruição do Estado de Israel. Tão somente isso.

Em segundo lugar, a própria ideia de "uso desproporcional da força", é, até certo ponto, discutível. Em uma situação de conflito, a ideia é que se use uma força maior que a de seu adversário de forma a não só anular sua ação como também impedir que ele a repita tão cedo. Portanto, a "desproporção" no uso da força é uma condição necessária (para não dizer obrigatória) para se vencer um conflito. A propósito, para aqueles que ainda falam que "Israel deveria usar de força proporcional", já pensaram em defender, por exemplo, que a polícia reprimisse a ação de black blocs com munição letal? Afinal, há uma "desproporção" entre coquetéis molotov/pedras/explosivos e balas de borracha/bombas de gás lacrimogêneo, não é (e sim, defendo que a polícia tenha poder tal para fazer isso, uma vez que anularia os vândalos de forma rápida e eficaz e pela razão óbvia de que esta detém o uso legítimo da força)?"

Entretanto, pode ser que alguém ainda questione: "ah, mas Israel tem um poderio militar e uma tecnologia muito melhor que os palestinos, portanto poderia fazer ações que eliminassem apenas os terroristas, poupando muitas vidas inocentes, mas eles não se esforçam para isso", usando isso como argumento para uma possível equivalência moral entre as ações das Forças de Defesa Israelenses e o Hamas. Tal ponto de vista seria até razoável se não fosse inocente. Muito inocente, por sinal.

Talvez até pelo fato de que moramos em um país com uma política externa "pacifista" e sem histórico recente de conflitos ou mesmo tensões com países vizinhos (ou mesmo iminência de uma guerra civil), visões um tanto idealizadas e, por que não, ingênuas sobre como lidar em confrontos, seja entre polícia e black blocs (sim, sei a diferença entre uma ação policial e uma guerra, apenas comparei as situações no quesito de oposição entre dois lados), seja entre israelenses e palestinos, proliferam aos montes nas mídias sociais. Apesar disso, uma leitura com mais calma sobre as histórias que rondam o sem número de conflitos que aconteceram - e acontecem - pelo mundo nos permitem chegar a conclusões que fazem a ação militar israelense ser, pelo menos, compreensível.

Antes de iniciar as conclusões em si, vamos à lógica zero de uma guerra (qualquer uma, sem exceção): não existe purismo nem bom-mocismo em um conflito. Ambos os lados, mesmo o "melhor" (quando este existe), recorrem a métodos não raras vezes questionáveis para vencer seu oponente, inclusive no trato com os civis, que sempre são as principais vítimas. Se aplicássemos o mesmo método que a comunidade internacional usa para condenar Israel pela guerra em Gaza, os nazistas seriam vistos como vítimas em alguns momentos (ou alguém enxerga o bombardeio de Dresden, por exemplo, como uma ação bela e moral?). Ou Slobodan Milosevic, o carniceiro dos Balcãs, poderia ser visto como vítima das ações da OTAN na ex-Iugoslávia como alguém incompreendido. É aí que chegamos à uma lógica, complementar à zero: é exceção, e não regra, a existência de uma equivalência moral entre os dois lados de um conflito. Isso que nos permite dizer que os nazistas eram muito mais cruéis que os aliados ou que os sérvios liderados por Milosevic eram muito mais traiçoeiros que aqueles que queriam se libertar da Iugoslávia e seguir como países independentes. O mesmo vale para o atual conflito entre israelenses e palestinos. Existe uma diferença gritante entre chamar os civis para se protegerem em abrigos e usar um escudo para se proteger dos mísseis aleatoriamente disparados por um grupo terrorista e este fazer tais disparos e utilizar inocentes, bem como instalações civis (mesquitas, hospitais e até instalações da ONU) como abrigo para armas. Enxergar equivalência entre essas situações chega a ser má-fé. Ou burrice. Ou mesmo ambas.

"Mas Israel poderia fazer uma ação cirúrgica e eliminar só os terroristas", insiste o pacifista ingênuo. É aí que chegamos de fato à lógica principal de um conflito. No que se refere à proteção de vidas, a prioridade funciona da seguinte forma:
  1. Os civis e militares do lado A;
  2. Os civis do lado B;
  3. Se der, se a comunidade internacional insistir, os militares do lado B (neste caso, coloco terroristas no mesmo balaio, apenas por simplificação).
Troque "lado A" por "Israel" e "lado B" por "Gaza" e compare com a lista de priorização feita. Parecido, não? Tal sequência chega a ser um tanto óbvia, uma vez que Netanyahu, primeiro-ministro israelense, foi designado para tomar ações que, em última instância, protejam os interesses dos...Israelenses. Não dos palestinos (quem deveria se preocupar com isso é Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina). Independente se do lado palestino morrem centenas de civis, qualquer morte do lado israelense, ainda que seja apenas uma, representa maior pressão por resposta para "Bibi".

Sobre a possibilidade de uma ação "cirúrgica" para combater apenas os terroristas, deve-se considerar alguns fatores: o primeiro é que se trata de uma ação mais cara que uma guerra convencional, uma vez que requer tecnologia e tempo maior para desenvolvê-la. A propósito, outro porém para uma ação mais precisa: levaria mais tempo que uma convencional, uma vez que requereria uma investigação prévia maior, sem falar que os terroristas estão dispersos entre os civis (e são vários). Já que o assunto é cirurgia, seria algo parecido com tirar diversas metástases de um câncer em fase avançada. Enfim, por limitações de custo (afinal, diferente do que dizem por aí, guerras não movimentam a economia de nenhum país a longo prazo) e de tempo, uma ação que vise eliminar "somente os terroristas" torna-se praticamente inviável. Isso sem falar que não anula completamente o risco de baixas civis. Os drones de Obama no Paquistão não nos deixam mentir...

Para finalizar, não estou querendo dizer que todas as ações militares de Israel são justificáveis. A questão é que numa análise mais fria e pragmática a lógica de Netanyahu é apenas a mesma que seria utilizada em qualquer situação de conflito. E por razões logísticas que deveriam parecer óbvias para quem acompanha as notícias da guerra, é demonstração de pouco senso de realidade pensar que uma ação "cirúrgica" seria a solução.

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