Tigres racionais e humanos irracionais

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Boa noite pessoal. Na segunda-feira da semana passada (veja aqui), comentei uma reportagem exibida no Fantástico do dia 27/07 sobre a geração nem-nem, que cresce cada vez mais no Brasil e fiz uma crítica ao tom determinista de um trecho da matéria, que falava da gravidez na adolescência como uma questão "herdada", e não resultante de uma decisão, digamos, equivocada por parte dos pais da (futura) criança. Afinal, acredito na tese de que somos seres racionais e com capacidade de tomar decisões...Ou acreditava.

Na edição de ontem (03/08) do semanário dominical, foi entrevistado o pai do garoto de 11 anos atacado por um tigre em um zoológico de Cascavel (PR), e que acabou perdendo o braço. Vocês podem conferir o vídeo e a transcrição da reportagem aqui, mas diria que se você não tiver fortes convicções de sua racionalidade recomendo não assistir. Alguns trechos em especial me chamaram a atenção. Irei transcrevê-los nesta postagem.

"Um vídeo feito antes do ataque mostra Vrajamany agachado na área que é proibida aos visitantes. Fica entre a cerca e a grade da jaula. Quando o menino mexe no bolso, o leão reage. Ele tira um osso de galinha e oferece ao animal, que não mostra interesse.

Repórter: Da onde que surgiram esses ossos de galinha?

Marcos: A gente tinha almoçado no restaurante um pouco antes. E eles têm hábito de pegar para dar para os cachorros.

Repórter: Na rua?

Marcos: É. Almoça e leva os ossos para dar para os cachorros.

Repórter: E tinha osso, ele resolveu fazer a mesma coisa lá no zoológico?

Marcos: Ele guardou para dar para os cachorros."

Já no começo dá para perceber no tamanho da noção - ou melhor, da falta dela - que o pai tem em discernir entre o risco de alimentar um cachorro (que pesa no máximo 80 kg, se for de uma raça gigante) e o de alimentar um leão (que pode ultrapassar 250 kg). Mas vamos tentar relevar esse pequeno detalhe. Próximo.

"A área restrita conta com sinalização: ‘perigo, não ultrapasse’. Mesmo assim, Marcos acha que a situação estava sob controle. “O leão estava muito tranquilo, manso, as pessoas que estavam em volta se envolveram de uma certa forma como uma coisa bacana, curtindo a situação. Eu fiquei meio... Vacilei. Mas, logo que ele saiu, eu falei para ele que não fizesse mais, que não entrasse, que se precavesse dos animais”, diz.

Em outro vídeo, uma pessoa chama a atenção do menino.

Repórter: O senhor viu o momento em que ele pulou a cerca? A primeira cerca?

Marcos: Não. A primeira vez, não.

Repórter: Ele pulou a cerca sozinho.

Marcos: Sim.

Repórter: Não foi o senhor que o colocou lá dentro?

Marcos: Não, de maneira alguma. Agora, quando eu vi a situação, era uma situação que eu vi que estava sob controle. O leão estava muito tranquilo."

Como assim, sob controle? Se estivesse sob controle não seria necessário enjaular o leão, muito menos colocar uma cerca em volta da jaula de forma a restringir (no caso, proibir) o contato por parte de visitantes. Lembrando: não estamos falando de um cachorro ou um gatinho, e sim de um leão, um animal irracional e selvagem.

"Depois de tentar dar o osso ao leão, Vrajamany vai para a jaula do tigre. Quando menino se pendura na grade, o tigre tentar morder os pés dele.

Repórter: As imagens mostram ele escalando a grade. O senhor chegou a ver isso?

Marcos: Quando eu vi, foi que eu falei para ele não fazer isso.

Repórter: E ele?

Marcos: Ele estava empolgado.

Repórter: E aí, na empolgação.

Marcos: E um pouco de teimosia...

Repórter: O senhor chegou a ouvir outras pessoas dizendo 'cuidado, tira o menino dali'? Porque algumas pessoas estavam relatando que disseram que tentaram alertar o senhor, o menino."

Aí já dá para perceber a falta de autoridade que o pai tem em relação ao filho. Como assim, apenas falar para ele para não escalar a grade? Ele simplesmente deveria ter retirado o garoto dali. Assim como no caso do leão, ele entrou em área proibida. A "emenda" do pai, que consta na matéria da edição atual do Jornal Hoje (confira aqui), consegue ser ainda pior que o "soneto". Veja:

"Eu estava prestando atenção nele, cuidando dele, com o pequeno no colo, eu estava prestando atenção na situação e estava uma situação tranquila. Fiquei meio...Vacilei."

Tipo, depois do sujeito pular a cerca, escalar a jaula, quase ser mordido pelo tigre no pé, ele ainda corre de um lado para outro da jaula, com o tigre acompanhando e não satisfeito ainda resolve passar a mão no felino...Situação tranquila? Sob controle? Dica: aproxime-se da casa de um estranho que tenha um cachorro bem bravo, sente subir o portão, corra de um lado para outro e depois tente ainda alisar o bichinho...Ou melhor, nem tente fazer isso. Não custa lembrar, não estamos falando de um cachorro nem de um gatinho, e sim de um tigre, um animal irracional, selvagem, que muito provavelmente preferiria estar neste momento na selva (mesmo que pela lei dela fosse fadado a morrer), e não em uma jaula, onde por mais bem tratado que esteja, pode ter momentos intensos de stress devido ao confinamento. Ah, algo que quase esqueci: o "vacilei" foi meio que a cereja do bolo na declaração do pai. Imagine, por exemplo, em uma indústria, você comete um erro em um equipamento e seu colega de trabalho acaba perdendo o braço. Aí, depois de passar todo o quiproquó, você diz: "é, vacilei...". Um vacilo que vai limitar a vida de alguém pelo resto de seus dias...

Tem mais ainda, e é agora que você consegue ficar na dúvida em quem é mais racional, se é o tigre ou se é o ser humano. Segue abaixo:

"A Polícia Civil investiga se houve negligência por parte do pai do menino ou por parte do zoológico. O delegado responsável pelas investigações ouviu o depoimento de Marcos do Carmo Rocha no dia em que o filho dele foi atacado pelo tigre.

As testemunhas e os funcionários do zoológico vão prestar depoimento nesta semana.

O advogado afirma que a responsabilidade é do zoológico: “Eles são prestadores de um serviço, um serviço que tem um perigo inerente e eles têm a obrigação de proteger os consumidores de eventuais acidentes”, defende Yvan Gomes Miguel.

O Zoológico de Cascavel tem nove vigias. O responsável pela área dos felinos cuida também de outras duas áreas. Segundo o veterinário responsável pelo zoológico, o local cumpre com todas as medidas obrigatórias de segurança. “Para uma atitude impensada, imprudente, não há normas técnicas que resistam”, avalia Valmor Passos."

Na matéria do jornal Gazeta do Povo sobre o assunto (veja aqui), o nonsense fica mais evidente:

"Em sua defesa, a prefeitura diz que o zoológico está regulamentado administrativamente e dentro das normais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). No entanto, para o advogado, isso não isenta o parque das responsabilidades civis. “É como se uma pessoa bêbada subisse na calçada e atropelasse dez pessoas e aí ela diz: ‘meu carro está licenciado’. Ela se adequa às normas do Detran, mas vai responder judicialmente”, afirma.

O ponto decisivo para o acidente, segundo o advogado, foi a falta de segurança do zoológico. Para ele, por mais que o parque tenha uma portaria dentro de todas as normas, deverá responder pelo incidente. “Uma portaria que abre porta para um acidente não o isenta de responsabilidade”, diz. Yvan Gomes Miguel afirmou ainda que não são apenas pessoas “cautelosas” que visitam um zoológico. “Quem presta um serviço de risco e mantém animal feroz tem que ter esse tipo de previsão”, afirma."

Não sou nenhum expert em direito, mas sempre que possível gosto de apelar para o mínimo de lógica elementar para responder a certas questões. Se um órgão público ou mesmo uma concessionária de uma rodovia faz todos os serviços necessários para adequar a via, sinaliza com as devidas regulamentações e advertências e mesmo assim um motorista resolve dirigir de forma "não cautelosa" e ocorre um acidente, de quem é a culpa? De quem cuida da rodovia? E se mesmo com todas as advertências e instruções alguém opera uma máquina industrial de forma errada e acaba perdendo um membro, a culpa é do fabricante do equipamento? Isso sem falar que seguindo o raciocínio do advogado do pai do garoto "ao pé da letra", daria para culpar um fabricante de cigarros pelo câncer de pulmão que um fumante contraiu, ou um fabricante de carro esportivo por um acidente causado por excesso de velocidade, ou pior ainda, culpar uma mulher que usa roupa curta por ter sido estuprada (não feministas, não se empolguem, ok?), ou ainda um dono de iPhone por ostentação antes de ser assalta..Não, pera. Sakamoto já defende isso.

Não, ainda acredito que estamos lidando com seres racionais e capazes de tomar decisões, e igualmente capazes de medir consequências e riscos, ainda mais quando se existem alertas para não tomar ações que comprometam à sua própria segurança, bem como a de outros. E como o garoto ainda é menor de idade (apesar de que com onze anos, ele já tem - ou deveria ter - alguma noção do risco de se mexer com animais selvagens), caberia ao pai educar seu filho a obedecer regras. No caso, as regras de segurança do zoológico.

De início, dá até vontade de falar um "bem feito" tanto para o pai como para o garoto, mas depois pensei melhor e agora sinto pena. Mais pela criança, que quando crescer e for perguntada sobre o motivo de ter perdido o braço (e sim, um dia isso vai acontecer), será terrivelmente "zoada" quando for explicar a história. E na disputa de quem foi o mais irracional, quem teve mais racionalidade foi o...Tigre.

Confira no Blog do Tite Geraldo: "O tigre, o menino e o trânsito"

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