Ainda sobre macacos, aranhas e zumbis - o espetáculo que ofusca as reflexões

(Fonte da imagem: TV Globo)
Boa noite pessoal. Como dedico minha manhã ao estágio e não tem televisão no escritório onde trabalho (diria até que felizmente) eu não posso acompanhar o que passa na telinha nesse período do dia, mas hoje, ao descer rapidamente do escritório para comprar um pedaço de bolo para comer estava passando o programa de auditório Encontro, apresentado por Fátima Bernardes (aquele programa que junto com o Mais Você e o Bem Estar poderia muito bem ser substituído por uma maratona de TV Globinho que não faria a menor falta na maioria dos casos). No momento, estava sendo entrevistada Patrícia Moreira, a torcedora gremista que xingou o goleiro santista Aranha de "macaco" (inclusive fiz um artigo de opinião sobre o tema no blog, basta conferir aqui). De início achei a situação um tanto ridícula, uma vez que a imprensa transformou o caso em um "espetáculo", tratando a jovem quase como "inimiga n° 1" da tolerância e da boa convivência em sociedade, mas como eu estava com pressa, decidi deixar para assistir à entrevista no site do programa (você pode conferir aqui). 

Bem, assisti à entrevista com a torcedora e introduzo minha opinião com três pontos: a primeira é que o "espetáculo" não foi tão trágico como eu imaginava no momento em que eu dei minha pausa no escritório; a segunda é que isso não muda o fato dessa cobertura da imprensa sobre o assunto ser desnecessária, uma vez que ela já se explicou sobre o tema e já pediu perdão ao goleiro, que a desculpou, muito embora ele quer que a justiça seja feita (e honestamente não discordo, uma vez que o perdão não implica necessariamente em blindar quem fez o que era errado das consequências); por fim a terceira, que de qualquer forma o momento em que ela foi questionada por Fátima Bernardes me permite a trazer algumas reflexões para este post.

A primeira reflexão é em relação ao comportamento de massa, citado pela jovem e bem destacado pelo especialista que estava na bancada do programa, o qual invariavelmente eu concordo e aproveito para fazer alguns adendos. Obviamente não sou especialista em comportamento humano muito menos em psicologia (provavelmente o meu colega de edição Vinicius Littig, estudante da área, poderia falar melhor do que eu nesse aspecto), mas uma experiência simples de trabalhos em grupo pode dar uma noção do que quero acrescentar: sem algo (ou melhor, alguém) que condicione, o comportamento de um grupo tende a ser nivelado pelo "pior" indivíduo, e quanto maior for o grupo, mais difícil de condicioná-lo. O que quero dizer com isso é que quando não nos policiamos em uma situação na qual estamos no meio de um grupo podemos fazer coisas que sozinhos sequer pensaríamos em levar adiante. E xingar alguém, mesmo que seja de uma ofensa racista (que antes de mais nada repito: é um comportamento estúpido e deve ser punido), é uma das menores barbaridades que podem ser feitas quando se está no meio de uma massa. O caso das brigas de torcidas, citado recorrentemente no primeiro artigo sobre o assunto no blog e também explorado em uma postagem na coluna de Rodrigo Constantino no final do ano passado (ver aqui) não me deixa mentir.

A segunda reflexão, até certo ponto consequência da primeira, é que quando se age apenas porque a massa está agindo, perde-se a capacidade de pensar nos riscos e nas consequências que podem ser geradas no futuro. Como ela mesma disse, não imaginava que estava sendo filmada muito menos que teria sua vida praticamente devassada (inclusive sofrendo represálias tão ou mais irracionais que o próprio ato injurioso contra o Aranha). Também não imaginava que seu time seria excluído da Copa do Brasil, uma decisão histórica e que considero uma faca de dois gumes no sentido de se punir um coletivo por conta da atitude de uma pessoa ou de um pequeno grupo, sem contar a lógica - ou a falta dela - de punições existentes no nosso futebol.

Por fim, a terceira reflexão e a mais importante é que tarde demais a mídia - no papel da Rede Globo no momento - resolveu desconstruir a imagem de "Geni" construída em cima de Patrícia ao longo destes últimos dias. Repito: não estou dizendo com isso que ela não deveria ser punida pelo que fez, apenas digo que a transformação do caso (que poderia ter sido resolvido de forma simples) em um espetáculo criou um verdadeiro cavalo de batalha para a garota, que terá que reconstruir sua vida (certamente não será em Porto Alegre), marcada para sempre por algo que não foi feito somente por ela mas esta acabou se transformando no "Azazel" do racismo. Tudo, claro, em nome da tolerância.

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