Ainda sobre os urubólogos "do bem" e as prioridades - ou a falta delas. Ou: a trapalhada de Levy Fidelix

(Fonte da imagem: TV Record)
Boa tarde pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre a polêmica lançada no debate dos candidatos à Presidência da República na TV Record, ocorrido ontem. Mais precisamente, sobre as controversa - para dizer o mínimo - declarações do presidenciável Levy Fidelix, do PRTB. Um trecho do momento, cômico e trágico ao mesmo tempo, segue abaixo (ver matéria da Exame sobre o assunto aqui):

"Olha minha filha, tenho 62 anos e pelo que eu vi na vida, dois iguais não fazem filho. E digo mais: desculpe, mas aparelho excretor não reproduz. Eu como presidente da República não vou estimular. Se está na lei, que fique, mas eu não vou estimular a união homoafetiva"

Como se não fosse acontecer algo diferente, o "arremate" de Fidelix ganhou forte repercussão nas redes sociais, em maior parte negativas, pelo suposto tom homofóbico em seu discurso. E antes que alguém pense que estou aqui para defendê-lo, já adianto que as declarações do bigodudo entraram como mais um dos motivos para não nutrir simpatia por ele. Digo "mais uma" porque apesar de ele fazer críticas ao atual governo (ora, isso até a psolista Luciana Genro faz) e ter sido o primeiro a citar o Foro de São Paulo - do qual o PT faz parte, o candidato pelo PRTB possuem propostas que vão na contramão do que o país precisa no momento, ao meu ver: mais gastos públicos, uma plataforma estatizante, concorda com Dilma em não dar autonomia ao Banco Central, sem falar de outros aspectos. A sua maneira infeliz de se opor ao casamento igualitário é, apenas, a cereja do bolo.

Dito isso, vou ao primeiro ponto da fala de Fidelix, que é do aspecto naturalista que ele usa para defender sua ideia. De fato, se levarmos em conta os aspectos mais elementares da reprodução humana, de que para se ter um filho em condições naturais é necessária a relação sexual entre um homem e uma mulher, na qual o órgão genital masculino encontra o feminino, a fala dele, se levada por esta visão, está correta. Entretanto, nós, seres humanos, diferentemente de outros animais, não usamos a relação sexual apenas com o intuito de nos reproduzir, mas também com o intuito de sentir prazer. Só por aí se percebe que há uma falha - grave, por sinal - na argumentação do presidenciável.

Entretanto, da mesma forma que não se pode usar somente o argumento naturalista para se opor que casais do mesmo sexo tenham o mesmo direito de se casar em relação aos de sexos opostos, também não adianta usar a mesma linha de raciocínio para blindar a homossexualidade de críticas. Provavelmente vocês já devem ter lido ou escutado algo do tipo: "81723821739213 espécies tem o homossexualismo como prática normal, mas apenas uma pratica a homofobia". É óbvio que se levássemos tal lógica ao pé da letra, estaríamos defendendo a legalização de canibalismo, fratricídio, eugenia e outras práticas consideradas crimes na espécie humana, uma vez que isso também é natural em diversas espécies animais. Logo, o argumento natural, neste caso, é um dos piores (se não o pior), tanto para quem defende como para quem faz oposição.

Quanto ao meu posicionamento sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, meu ponto de vista sobre o assunto (que você pode vê-lo aqui), ele é bem simples: a melhor forma de se ter um casamento igualitário é que o Estado retire toda e qualquer interferência no que se refere aos relacionamentos pessoais. Se um casal, independente de ser de sexos opostos ou do mesmo sexo, quiserem fazer um contrato de união via cartório e quiser chamá-lo de casamento, isso é questão deles e somente deles. E, para deixar bem claro, eles não devem obrigar nenhum estabelecimento - religioso ou não - a celebrar sua cerimônia de união, caso esse recuse. A propósito, se o cara quiser ser LGBTXYZ, cis, trans, meta, para, orto, cateto ou hipotenusa, isso é problema dele e não meu. Se quiser deixar de ser tudo isso, idem. Claro, basta não me amolar ou encher meu saco, ou, como gosta de dizer os libertários, don't tread on me! Ah, só para constar: não sou libertário.

O segundo ponto, no meu ponto de vista o principal, é quanto à exagerada repercussão que isso recebeu, ainda mais se levarmos em conta que ele é um dos candidatos nanicos e nem tem a mesma repercussão midiática (muito menos de grupos intelectuais) de uma Luciana Genro, por exemplo. Até porque parece que o Brasil tem poucos problemas para ter que criar uma comoção em torno da fala de alguém que é inexpressivo na corrida presidencial. Nem parece, por exemplo, que o Brasil tem em torno de 50 mil homicídios/ano, entre eles as 300 e poucas mortes de homossexuais que se criam tanto alarde, e antes que falem "ah, mas só os gays morrem pelo fato pela orientação sexual e isso é estúpido", digo que muitos dos demais que são assassinados também morrem por causas estúpidas, por não entregarem dinheiro (ou por não conseguirem entregar o que o meliante quer), ou mesmo por um esbarrão no ônibus ou retrovisor quebrado no trânsito. Nem parece, por exemplo, que estamos a caminho de uma crise econômica que pode muito bem se tornar a pior em 25 anos, com baixo crescimento e alta inflação, sem falar que várias empresas estão com o brioco na mão. Nem parece, por exemplo, que temos um sistema de saúde universal (sim, pasmem, há quem se orgulhe do SUS apenas por isso) e universalmente falido em aspectos gerenciais. Nem parece, por exemplo, que temos uma educação que não serve para educar - dado que frequentemente estamos na rabeira dos rankings da área - mas que serve para empulhar a mente de crianças, adolescentes e jovens. Nem parece, por exemplo, que para termos estradas decentes, mesmo pagando impostos, é necessário que paguemos pedágio (não, não me oponho às concessões rodoviárias, até porque elas são um "mal menor", mas ora, pagar duas vezes?). A lista de prioridades é enorme...

Não, não estou dizendo que questões que envolvam direitos individuais como a do casamento "igualitário" não têm importância. Mas é evidente que há uma inversão crassa de questões prioritárias para que dediquemos tempo, discursos e energia em decidir se o fiofó alheio deve ser privado ou estar "sob gestão estatal". É bem provável que se um estrangeiro que não tivesse a menor noção do que seja o Brasil caísse de paraquedas por aqui neste exato momento e descobrisse o tema político mais comentado, iria pensar que somos a Holanda dos trópicos...Com a desvantagem de que os cursos d'água, quando não estão quase secos, estão imundos.

Para finalizar, digo que a fala de Fidelix - que repito, foi muito infeliz no contexto - é, no frigir dos ovos, um convite a mais exercícios de urubologia. Se um homossexual morrer nos próximos dias, é muito provável que se fale em um possível "efeito Levy", como se isso não ocorresse antes de ele falar qualquer coisa. E digo mais, caso descubram que, se esse caso hipotético não for um crime de homofobia e sim suicídio ou crime passional, como foram os casos do Kaique e do João Donati, vão continuar fazendo a "saída á francesa" até que achem outro cadáver para sobrevoar. Afinal, quanto mais carniça, melhor.

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