Até quando acerta o Sakamoto erra

(Fonte da imagem: R7)
Boa tarde pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar pela primeira vez neste blog (apesar de que na minha página pessoal já comentei sobre uma de suas lambanças) um artigo de Leonardo Sakamoto em que ele pergunta sobre que banco teria a decência de financiar bicicletas a juro zero (ver aqui), de forma que as pessoas prefiram as "magrelas" em vez dos carros. Vou admitir para vocês que desta vez até que ele se esforçou para falar do tema sem apelar a coitadismos, mas para honrar a tradição, o ranço ideológico acaba falando mais alto. Segue abaixo alguns trechos do post (em azul), com meus comentários na sequência.

"Uma amiga me atentou para o anúncio abaixo, que a Caixa Econômica Federal divulgou em sua conta no Twitter a fim de promover uma de suas linhas de financiamento de automóveis:

"Carona? Não, obrigado.''

Por favor, não pense que tenho preconceito com carros. Eu até tenho amigos que são carros! Um Willys 1964 azul me trouxe grande felicidade por um tempo. Mas bebia demais! E, depois de levar boa parte do meu dinheiro por conta disso, deixei o jipe cair no mundo, para nunca mais voltar.

Também não estou demonizando os carros. Todos os que precisam ou querem usar automóveis devem ter esse direito, seja pela razão que for – necessidade, comodidade, conforto, status, segurança, enfim.

Mas em um momento em que as grandes cidades não comportam mais tanto transporte individual motorizado e no qual se busca investir mais no transporte coletivo, de massa ou não-poluente, é um contrassenso uma publicidade ironizando saídas solidárias que tiram carros das ruas, como a carona. As sutilezas voluntárias ou involuntárias desse tipo de publicidade acabam fazendo um marketing terrorista contra mudanças de comportamento importantes para melhorar a vida na cidade."

De fato, até certo ponto irei concordar com o Sakamoto de que a propaganda foi uma mancada e tanta, uma vez que ela desestimula a carona, que de um jeito ou de outro é um meio de diminuir o fluxo de veículos nas ruas. Em relação à mobilidade urbana, meu ponto de vista é bem simples (se você quiser conferir com mais calma basta ler aqui): expansão da oferta de transporte coletivo por meio da quebra de monopólios e menor regulação sobre o setor, de forma que o usuário possa ter alternativas ao carro que realmente atendam suas expectativas, bem como um plano cicloviário que ligue os pontos principais de uma cidade ou área metropolitana. Mas voltando a falar da propaganda, é admirável que um banco público, justo em um momento que todas as esferas de governo discutem um meio de reduzir congestionamentos e garantir maior agilidade nos deslocamentos do dia-a-dia, resolva adotar uma estratégia de publicidade que vai de encontro a uma das alternativas utilizadas para desafogar o trânsito. Ou melhor, nem surpreende tanto, afinal a capacidade de autossabotagem estatal é ilimitada, e o exemplo do Banco Central não me deixa mentir.

Até aí, nada de absurdo (como de costume) no texto de Sakamoto. Mas agora vem o vacilo:

"Não consegui encontrar uma linha no site da Caixa sobre compra de  bicicletas. Se existir, é algo que está muito bem escondido, inclusive do gerente com quem também falei. A de veículos, pelo contrário, amplamente destacada e divulgada, é essencialmente para motorizados. Hoje, quando aparece alguém querendo comprar uma bicicleta, a agência pode oferecer um crédito pessoal ou microcrédito com a melhor taxa possível.

Seria importante que a instituição, que se gaba de contribuir para a qualidade de vida do brasileiro, abrisse uma linha para financiar a compra de bicicletas sem juros. “Ah, mas algumas lojas e sites já dão financiamento a juro zero.'' Sim, montadoras de veículos também. Mas quero ver bancos adotarem isso como política.

Que tal revolucionar o mundo de verdade?

E não vale apenas emprestar bicicletas nas regiões mais ricas da cidade, como já fazem outros dois bancos. Políticas legais, mas que não democratizam realmente o acesso.

Parece brincadeira, mas um estudo da Tendências Consultoria aponta que a carga de imposto que incide sobre as bicicletas é proporcionalmente maior que a dos carros.

Há projetos no Congresso Nacional que questionam isso. Por exemplo, o senador Inácio Arruda (PC do B-CE) propôs a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados para bicicletas e peças, mas a proposta foi rejeitada. Vale lembrar que o governo federal adora reduzir o IPI para automóveis, sob a justificativa de manter os empregos no setor – recursos esses que são enviados na forma de royalties ao exterior para ajudar a fechar as contas das matrizes das montadoras.

O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), um conhecido esquerdista, propôs o projeto de lei 7.788/2014, que garante isenção de tributos que incidem sobre a bicicleta e equipamentos de segurança, baixando bem seu preço. O projeto também prevê a criação de  linhas especiais de financiamento para esse meio de transporte."

Bem, percebe-se uma pequena ingenuidade econômica por parte do jornalista, uma vez que ele compara um financiamento de um bem com outro que custa pelo menos 100 vezes o preço do primeiro. Em geral, financiamentos de grandes somas de dinheiro tendem a ter uma taxa de juros mensal (ou anual, dependendo do período de financiamento) menor, e a lógica disso é semelhante à diferença entre vender no varejo e vender no atacado: enquanto o varejista maximiza o ganho por produto vendido, o atacadista maximiza o ganho sobre o total vendido. Portanto, em uma visão de mercado, um financiamento de uma bicicleta tende a ter juros e margem de lucro maior em relação ao carro. Quanto ao "juro zero", cabe dizer que na maioria dos casos isso é uma ficção, uma vez que em não raros casos se oferece um desconto sobre o preço à vista. Enfim, a impressão que tenho é se isso se transformasse em política a medida não surtiria o efeito desejado.

Quanto à política atual de incentivos fiscais e creditícios para a aquisição de automóveis (comentei com calma sobre o assunto em um post do dia 31/05), cabe dizer que esta é indefensável até mesmo pela questão econômica, uma vez que esta já está sendo praticamente esgotada pelo endividamento das famílias. No mais, defendo a ideia de que a tributação deveria ser igual a todos os meios de transporte.

Enfim, Sakamoto acertou na crítica. Mas errou na solução.

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