Quando a narrativa importa mais que os fatos: a suposta exclusão racial nas revistas teen

(Fonte da imagem: BBC Brasil)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre uma matéria publicada ontem na BBC Brasil sobre um suposto quadro de exclusão racial nas revistas teen (confira aqui), publicada pela estudante de Jornalismo Isabela Reis. Nela ela alega, entre outras coisas que somente brancas têm preferência em tais publicações, mesmo com quase 58% das meninas de 10 a 19 anos se declarando negras (que é a soma de pretas e pardas, ponto que comentarei mais à frente). Enfim, o mesmo papo que enxerga racismo em tudo.

Antes de ir ao ponto, pretendo fazer dois comentários prévios aos leitores deste blog. O primeiro é que sim, o racismo existe no Brasil e deve ser combatido. Negá-lo ou ignorá-lo não resolve a questão e o principal problema é justamente a forma como estão lidando (o caso Patrícia vs. Aranha, que vocês podem conferir meu comentário sobre isso aqui e aqui, é um exemplo claro). O segundo é que convenhamos, a observar pelos comentários que já escutei de relance nas rodinhas de garotas que leem essas revistas, quem não as compra não perde absolutamente nada.

Dito isso, transcreverei alguns trechos da matéria (que estarão em azul) e comentarei em seguida. Segue abaixo.

"A invisibilidade dos negros na mídia brasileira não é assunto novo, mas as revistas para o público adolescente revelam um quadro cruel de exclusão. Em um país onde 57,8% das meninas de 10 a 19 anos se declaram pretas ou pardas (categorias cuja soma é comumente usada para medir a população negra), as publicações juvenis não as enxergam. Somente as brancas estão nas páginas. Não há diversidade."

Para começo de conversa, o que a jornalista fala como comumente eu diria que é convenientemente. Explico isso com um exemplo bem simples: provavelmente alguns de vocês devem ter visto ou mesmo participado de alguma pesquisa em que você avalia o desempenho do prefeito de sua cidade ou governador do seu estado e, normalmente, têm três opções: boa, regular e ruim. Suponha que em uma delas deu o seguinte resultado: 25% avaliaram o desempenho como bom, 25% como ruim e 50% como regular. Os governistas podem dizer o seguinte: "olha, tá vendo, 75% dos entrevistados aprovam o prefeito/governador!". Já os oposicionistas podem dizer "olha, tá vendo, 75% dos entrevistados reprovam o prefeito/governador!". Por fim, eu diria que eu teria que avaliar as pesquisas anteriores para saber se tal resultado é bom ou ruim.

A lógica é a mesma para esse enquadramento de pretos e pardos como negros, sendo que neste caso, é para superestimar o problema. Primeiramente, é que deste percentual citado pela jornalista que se enquadram como negros, a maioria, na verdade, são pardos, que é um termo utilizado em substituição aos diversos grupos de mestiços (ver aqui a nota técnica do IBGE em relação a isso) existentes em nosso país (provavelmente você já deve ter escutado nas aulas de geografia ou história que esses grupos podem ser resumidos em: mamelucos, mulatos e cafuzos, que são as misturas de branco com índio, negro com branco e negro com índio, respectivamente). A propósito, o último recenseamento, feito há quatro anos, ilustra justamente o que falei (ver a tabela 1.3.2 aqui).

(Fonte da imagem: IBGE, compilado pelo editor)
Para esclarecer ainda mais essa questão de conveniência utilizada pela Isabela, segue abaixo a declaração do especialista em pesquisas sobre diversidade racial, José Luiz Petrucelli sobre este ponto (ver aqui a matéria em que ele fez a citação):

"José Luiz Petruccelli, que faz pesquisas sobre diversidade racial há mais de 20 anos no IBGE, reconhece que a classificação pode ser aprimorada, embora defenda que o modelo segue uma série histórica e mudanças poderiam prejudicar a comparação dos dados. "Esse é um tema muito polêmico. Alguns defendem que deveríamos usar a classificação negro, mas o negro é uma identidade social. Leva em conta uma visão política, a identidade de um povo muito mais do que a cor da pele", defende.

O especialista diz não ser correto, para efeito de pesquisas, reunir pardos e pretos em um só grupo, de negros. Segundo ele, a discriminação contra os pretos é muito maior do que a verificada entre as pessoas que se autodeclaram pardas, e essa diferença precisa estar presente nos levantamentos demográficos. "Existe diferença no comportamento social entre pretos e pardos: quanto mais escuro, mais discriminado", afirma."

Resumindo: os pardos acabam exercendo uma "função camaleão". Dois grupos distintos (pretos e pardos) não só pela cor de pele, mas também economicamente e socialmente (a propósito, como disse anteriormente, mesmo os pardos possuem subgrupos com características diferentes uns dos outros), são jogados em um mesmo balaio para tornar o problema maior do que de fato é. E a tabela mostrada acima comprova isso.

"É difícil crescer lidando com produtos que não te contemplam. Como explicar para uma pré-adolescente negra, em plena formação de identidade, que ela é bonita, se a revista preferida ignora seu tom de pele? Como enaltecer a beleza afro, se o conteúdo estimula o embranquecimento? Como acreditar que o crespo é normal, se as reportagens só exibem cabelos lisos? Estamos no século 21 e parece que paramos no tempo. Nós queremos existir. [...]

As redações sabem da composição do público. Quatro das cinco imagens foram enviadas por leitoras negras. Elas compram, leem, se interessam, interagem, participam, colaboram. Elas estão presente e são ignoradas. Não havia um editorial de moda com modelos negras, uma seção de penteados para cabelos cacheados e crespos ou uma dica de maquiagem para pele negra. As revistas abordam bullying, sexo, masturbação, compulsões, vícios, sempre com personagens brancas, como se as questões não afetassem ou não interessassem as negras."

Não irei estender muito meu ponto de vista sobre este trecho, até porque seria muito parecido com um post em que comentei sobre a "vergonha" que as grifes possuem em relação aos então frequentadores dos "rolezinhos" (confira aqui), mas digo algo bem simples: se um produto que você adquire não te contempla, então o melhor é simplesmente...Não adquirir. Outro exemplo: se muitas pessoas falam que os carros brasileiros são carroças caras, ruins e inseguras, por que cargas d'água eles continuam sendo vendidos que nem água (apesar de que neste ano não está sendo bem assim)? Porque apesar de tudo isso o brasileiro acha que é mais vantajoso gastar R$ 40 mil em um 1.0 pé de boi do que o mesmo em um 1.6 completo com cinco anos de uso. O mesmo vale para as revistas.

"As edições de agosto das três principais revistas para adolescentes do país omitem a população negra. Atrevida, Capricho e Todateen: 294 páginas, apenas cinco fotos de adolescentes pretas ou pardas. Na Capricho, uma imagem estava num anúncio; outra apresentava a nova integrante da equipe de leitoras que colaboram com a revista. Na Todateen, duas fotos estavam no mural de fãs; a terceira, como na concorrente, era da equipe de colaboradoras. E só. A Atrevida não trouxe uma adolescente negra. As cantoras e atrizes pretas ou pardas conseguiram espaço nas publicações pela fama, não pela cor. Foram 114 páginas de padronização e exclusão."

A melhor coisa que posso dizer para o momento é: nossa, que horror! E eu pensando com meus botões que o critério principal para que uma atriz ou cantora consiga espaço em uma revista ou jornal fosse justamente a...Fama. Não a cor da pele. Seria o caso de pedir cotas em revistas? Putz, não era para ter dado a ideia...

"O racismo também não foi pauta. Estamos em 2014, as pessoas ainda xingam negros de "macaco" e a juventude negra está sendo massacrada. O Mapa da Violência 2014, da Flacso Brasil, denunciou aumento de 32,4% nos homicídios de negros de 15 a 24 anos entre 2002 e 2012. Para cada jovem branco que morre, 2,7 jovens negros perdem a vida. E ninguém toca no assunto."

De fato, é uma estupidez sem tamanho chamar alguém de "macaco" por ser negro, tanto que em ambas as postagens sobre o caso Patrícia vs. Aranha (ver o segundo parágrafo) defendo a punição da jovem (o que repito, não justifica o fato de ela ter se tornado o "bode expiatório" da questão), mas quanto ao Mapa da Violência citado pela jornalista (ver aqui, a partir da página 132), percebe-se o mesmo truque estatístico utilizado para superestimar o problema: boa parte dessa alta dos homicídios de negros (que são a soma de pretos e pardos) é puxada justamente pelas mortes de pardos. E mesmo se relevássemos este truque, a questão principal não seria saber se morreram, em termos proporcionais, mais brancos do que negros, e sim, quem matou quem. A propósito, nesta mesma publicação (e seguindo a mesma lógica de Isabela), as mortes de indígenas mais que dobraram ao longo do período. E duvido que se toca no assunto mais em relação às mortes de negros.

"Somos aproximadamente 9,7 milhões de cores, de cabelos com personalidade própria, de bocas grandes, de narizes largos, de sorrisos lindos, de leitoras, de público que vai pagar pelas revistas, de lucro. E ainda assim, não estamos lá. A mídia nos vende uma realidade que não existe. Vivemos no Brasil, o país da miscigenação. Ao abrir uma revista, me sinto na Rússia.

É cruel com as crianças que crescem com o sentimento de não pertencer ao universo apresentado nas revistas. É cruel com as adolescentes que se convencem que, ao alisar o cabelo e parar de tomar sol, vão se encaixar no padrão irreal. É cruel com as famílias que precisam trabalhar em dobro para promover a aceitação. Deviam ter as revistas como aliadas, mas elas são, na verdade, um desserviço."

A mídia só vende uma realidade que não existe porque as pessoas compram uma realidade que não existe, da mesma forma que os carros vendidos aqui no Brasil são carroças porque tem quem pague - e caro, por sinal - pela carroça. Portanto, o problema não é (só) de quem vende, mas sim (principalmente) de quem compra. E desserviço é usar de truques para tornar o tamanho do problema maior em relação ao que de fato é. É a Eliane Brum (ver aqui, aqui e aqui) fazendo escola no nosso jornalismo.

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