"Se" não muda fatos. Ou: os urubólogos "do bem"

(Fonte da imagem: G1)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar novamente sobre o caso do ambulante que acabou sendo morto por um policial em uma operação antipirataria em São Paulo (que quiser ler o primeiro post sobre o tema pode conferir aqui). Mais precisamente, sobre um texto publicado no blog do jornalista Flavio Moura no Yahoo Notícias sobre os desdobramentos do caso. No post, o jornalista tenta requentar a ideia de que o camelô foi "executado" e tentou lançar uma hipótese sobre o que aconteceria se tal incidente acontecesse com alguém de classe média. Segue abaixo alguns trechos de seu texto, com comentários meus ao longo desta postagem.

"O policial aponta por três minutos a arma em todas as direções. As pessoas em volta gritam “baixa a arma!”, enquanto dois colegas seus tentam imobilizar um vendedor de rua no chão.

O vendedor se recusara a entregar os CDs pirata que tinha na mão. A polícia partiu pra cima e a situação se criou.

Acuado, o assassino tira do bolso um spray de pimenta para dispersar o grupo ao redor. Ato contínuo, Carlos Augusto tenta tirar o spray de sua mão. É o que basta para ser executado."

De cara, Moura tenta impor uma narrativa sobre o fato, que é a de que o policial executou o ambulante. E, como disse no post anterior sobre o assunto, tal narrativa não se sustenta. Primeiro, porque quase toda a progressão do uso da força (da presença simples do policial até o uso da arma não letal) já havia sido cumprida, restando então o uso de força letal. Além disso, repito: nenhum policial tem a obrigação de ser oráculo para adivinhar que o camelô tomaria apenas o spray de pimenta da mão dele. Enfim, o uso da arma de fogo foi necessário para garantir a segurança do próprio agente, da equipe e até mesmo de quem estava em volta (que, diga-se de passagem, não era para estar).

"Não chega a surpreender a decisão da juíza (o nome da figura é Eliana Cassales Tosi de Melo e ela faz parte da 5a Vara do Júri do Foro Central Criminal de São Paulo). A lógica peculiar é praxe entre seus colegas. Basta lembrar o juiz que recentemente queria manter preso o manifestante Fabio Hideki, detido injustamente em manifestação durante a Copa do Mundo, por considerá-lo “esquerda caviar”."

Para começo de conversa, o único ponto em que a detenção de Hideki foi injusta foi por causa da posse de material explosivo. As demais acusações, diga-se de passagem, foram mantidas. Sobre o termo "esquerda caviar" utilizado pelo juiz, cabe dizer que não foi esse o motivo de o manifestante ter sido preso. Tal expressão foi utilizada como uma crítica à postura incoerente de muitos "heróis do povo" que na verdade são apenas pessoas mimadas querendo impor sua visão de um "mundo melhor" a torto e direito para todos. Seria algo semelhante àqueles que fazem miserinha para pagar pensão alimentícia mas anda de cabo a rabo com uma Mercedes, por exemplo.

"O que assusta é a comoção relativamente branda em torno do episódio. Da declaração tosca do prefeito, “foi um ato isolado”, aos indignados de plantão das redes sociais, tudo se passou como se fosse mais um tropeço da polícia, entre tantos outros.

Nem os apocalípticos mais estridentes que sigo no Facebook, muitos deles incapazes de reconhecer na letalidade da polícia também um problema de preparo dos policiais, alguns até defensores da tese de que a violência hoje é pior do que durante a ditadura militar, atinaram para a gravidade do episódio.

Fiquei pensando o que ocorreria se a cena fosse na Paulista, nas manifestações de junho do ano passado. E se a vítima fosse um jovem de classe média quebrando uma vitrine de loja ou banco (gesto a meu ver mais grave do que vender CD pirata). O governo estadual corria o risco de ser deposto."

Mas o episódio foi de fato isolado, mesmo admitindo-se a ideia de que foi uma trapalhada da polícia (que não foi). Sobre o "se" levantado pelo Moura, tenho a seguinte ideia: possibilidades são tão somente...Possibilidades. Portanto não é muito recomendável que se leve em conta essas para análise de fatos. A propósito, o "se um jovem de classe média que quebrasse uma loja ou banco fosse morto" (diria até que se isso ocorresse seria merecido) não muda o fato de que o camelô morto resolveu se intrometer em uma operação policial e que, imprudentemente, tentou tomar um spray de pimenta das mãos do agente que reagiu atirando.

A propósito, se pensarmos que por aqui pobreza e/ou luta por um país ou mundo melhor são vistos como critério para que tais pessoas possam fazer o que bem entender sem estarem sujeitas a críticas, arrisco a dizer que em ambos os casos a demonização contra a polícia seria praticamente a mesma. Até porque dizer que a polícia é truculenta (mesmo enfrentando black blocs com pedras e coquetéis molotov - armas letais, até onde sei - usando gás lacrimogêneo e balas de borracha) e "resquício da ditadura" (mesmo com diversas corporações existindo há mais de 150 anos, portanto muito antes do golpe militar) virou algo, digamos, "cult". Falo isso com mais calma após o próximo trecho.

"Não custa lembrar que foi a violência policial o estopim para as manifestações de junho de 2013. As primeiras passeatas foram pequenas e reprovadas pela imprensa e pela maioria da população.

Quando vieram à tona as cenas de manifestantes feridos por balas de borracha, o cenário virou. Dali em diante, os editoriais deram razão aos manifestantes e a classe média ganhou as ruas em defesa do direito de protestar.

O episódio da semana passada me fez lembrar uma declaração do poeta Sergio Vaz, organizador dos saraus da Cooperifa. No documentário “Junho”, produzido pela TV Folha e bom retrato das manifestações do ano passado, ele pondera. “Bala de borracha? Se lá no meu bairro a polícia usasse bala de borracha meus amigos ainda estavam vivos.”

Com todo respeito aos feridos em junho de 2013, o que se deu com o camelô Carlos Augusto é motivo para alguns milhares de passeatas."

De fato, os primeiros protestos contra os 20 centavos de aumento (que não eram só 20 centavos mas no final acabaram sendo só 20 centavos) acabaram gerando reprovação da maioria da população e da imprensa (que até defendia a ideia de uma ação policial mais intensa) para desocupar as ruas. Após isso, a polícia agiu com mais força e não só manifestantes como também jornalistas (a propósito, se chegaram a sugerir que a polícia deveria reprimir com mais intensidade, qual seria o sentido de colocar repórteres justo na linha de frente do conflito?) foram feridos com bala de borracha. Isso foi o suficiente para um patrulhamento ideológico tal que a posição da mídia sobre o assunto mudasse radicalmente.

O problema é que tal mudança simplesmente desconsiderou o que viria na sequência: após a classe média ganhar as ruas defendendo o direito de protestar (na verdade só defendeu isso porque de resto só tinha na melhor das hipóteses uma ideia vaga de participar de uma micareta "consciente") e sempre ao final os protótipos de terroristas de sempre quebrando tudo e usando os manifestantes pacíficos como escudo (alguma semelhança com o que o Hamas faz com os moradores de Gaza nos contra-ataques israelenses?) e mesmo após os protestos se limitarem aos quebra-quebras, os editoriais da imprensa continuaram titubeando entre igualar moralmente a violência dos vândalos à ação policial (comparação absurda por si só) e demonizar a PM, que era incapaz de agir apenas contra a "minoria violenta" no meio da "massa pacífica" (que em certa altura do campeonato simplesmente não existia). Uma hora essa receita não só não iria funcionar como teria um efeito contraproducente em alguns casos, o que acabou acontecendo no episódio do camelô morto. E, por mais que se lamente que uma vida foi perdida, continuo não vendo motivos para se criar um celeuma em torno do caso, ainda mais fazer passeatas.

"A letalidade da polícia brasileira é quatro vezes maior que a dos EUA e 100 vezes maior que a inglesa. Se antes o Rio era o palco dos principais descalabros da corporação, esse posto agora parece ser ocupado por São Paulo.

Na véspera do assassinato na Lapa, a PM paulista transformou o centro da cidade num campo de guerra, com gás lacrimogêneo e barricadas em chamas para despejar 200 ocupantes de um prédio vazio.

Em apenas uma semana, a cidade viu repetir-se o despreparo e a truculência em duas regiões próximas. Se voltamos para trás no tempo, há exemplos a perder de vista."

Mais uma vez, a tentativa de criar ou superestimar uma imagem que não existe em torno da PM. A propósito, a letalidade da polícia brasileira é alta pelo fato de ela ser uma "máquina de matar" como alguns tentam fazê-la parecer? Ou será porque moramos em um país em que, por exemplo, mata-se seis vezes mais (em termos relativos) nos EUA e 24 vezes mais no Reino Unido? Uma polícia violenta é um reflexo de uma sociedade violenta, e não uma causa.

Quanto à ação de desocupação de um prédio localizado no centro da capital paulista, fica mais uma vez evidente a inversão feita pelo jornalista. Quem transformou a região em uma praça de guerra não foi a polícia, e sim os invasores do prédio, que enfrentaram arremessando de cocos a pedras. Para variar, vândalos e até mesmo membros de torcidas organizadas também se envolveram no quiproquó, incendiando ônibus e saqueando lojas. Por enquanto, é o cachorro que abana o rabo, e não o contrário.

Enfim, após um festival de narrativas forjadas e inversões de causa e efeito, o que posso resumir do texto de Flavio Moura é que não passa de um exercício de urubologia. Mas uma urubologia "do bem", em que um cadáver acaba sendo sobrevoado e explorado ao máximo em matéria de coitadismo até que não o sirva mais. Até porque provavelmente aparecerá outro para se fazer uma narrativa conveniente. A cobertura midiática dos rolezinhos, do caso Kaique, do dançarino do Esquenta muy amigo de traficantes, do caso Donati e, por fim, do camelô morto, não me deixa mentir.

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