Sobre macacos, aranhas e zumbis

(Fonte da imagem: TNH1)
Boa tarde pessoal. Ontem, 03 de setembro de 2014, pode ter sido um dia histórico para o futebol brasileiro. Pela primeira vez um time de futebol foi excluído de uma competição devido a atos racistas de sua torcida. O Grêmio, que disputava as oitavas de final da Copa do Brasil com o Santos, foi responsabilizado pelas manifestações preconceituosas de alguns torcedores de sua torcida e eliminado do torneio em decisão unânime no STJD. Mas a intenção da postagem de hoje não é para falar da eliminação do Grêmio em si, muito embora vejo a questão como uma faca de dois gumes: por um lado, o time deveria ser punido por não tomar uma atitude prática no sentido de punir os torcedores que praticaram tal ato (Cosme Rimoli, por exemplo, defendeu este ponto); por outro, punir um time por conta de atitudes boçais de alguns indivíduos pode levar a desproporcionalidades e a criação de precedentes um tanto perigosos (posicionamento defendido por Rica Perrone). A minha intenção é trazer reflexões sobre este caso, sobretudo em relação aos desdobramentos.

Antes de trazer tais reflexões, porém, vamos ao histórico do caso: na quinta-feira passada, 28/08, quando o Grêmio disputava com o Santos no jogo de ida das oitavas da Copa do Brasil em sua casa, um grupo de torcedores do tricolor gaúcho, entre eles Patrícia Moreira (foto), resolveu ofender o goleiro Aranha, do time adversário, com insultos racistas, e ainda fez sons imitando um macaco (confira aqui). A repercussão do caso, sobretudo nas redes sociais, foi instantânea, e a indignação foi grande. E de fato, não há como não se indignar diante de tal situação, afinal desqualificar alguém por conta de um aspecto que não influencia em seu caráter e personalidade como ser humano como a cor da pele é uma das piores demonstrações de torpeza moral que uma pessoa pode chegar. Até este ponto a narrativa e as reações ao fato são coerentes.


Os desdobramentos do caso, porém, são os que chamam mais a atenção de quem pôde acompanhá-lo com mais calma. O primeiro deles, o afastamento da torcedora gremista do emprego, foi uma decisão ainda razoável, não só com o intuito de preservar a imagem da empresa (uma clínica odontológica, no caso) bem como a organização para qual esta trabalhava (a Brigada Militar do RS), mas também para preservar a própria jovem, que poderia ser hostilizada ou mesmo agredida por colegas de trabalho e clientes. Depois disso praticamente nada da narrativa inicial se aproveita: o segundo desdobramento foi que a torcedora foi xingada e ameaçada de diversas coisas nas redes sociais, inclusive de morte e de estupro e o terceiro desdobramento foi que a casa da jovem foi apedrejada.

Diante desses dois últimos desdobramentos, é necessário que ponderemos sobre algumas coisas. A primeira delas: é esse o "mundo melhor" que os ditos tolerantes lutam? Afinal, por mais que o racismo (que para deixar claro: sim, ele existe. Negá-lo não vai resolver o problema e a questão principal e a reação a isso) seja algo torpe e repulsivo, achar que uma pessoa deveria ser estuprada ou mesmo morta por isso, além de desproporcional, é de uma intolerância e estupidez ainda maior em relação ao que a torcedora fez. A segunda ponderação, complementar a primeira, é: onde estão aqueles que se opuseram ferrenhamente à justiça com as próprias mãos até há alguns meses? Estranho que aqueles que falavam tanto em "efeito Sheherazade" toda vez que alguém era linchado injustamente ou mesmo justamente (vou deixar bem claro: não defendo a justiça com as próprias mãos, apenas a vejo como consequência de um Estado inerte) estejam neste momento praticamente silenciosos. Talvez porque apedrejar a casa de alguém e desejar estuprá-la ou mesmo matá-la porque chamou um negro de "macaco" seja mais "compreensível" do que amarrar ou mesmo dar uns tapas em alguém que estava roubando, estuprando ou mesmo matando outra pessoa. Por tabela, entende-se que racismo está em um nível igual ou mesmo pior aos demais crimes citados. Preciso falar ou mesmo explicar o porquê de isso ser uma inversão de valores?

Um último desdobramento, mas não menos importante, é a punição propriamente dita, que como disse na introdução deste post é uma verdadeira faca de dois gumes. Mas além disso ela apenas reitera (para variar) a falta de lógica existente no futebol brasileiro. E nem precisa ir muito longe para explicar o porquê. Você já viu um time ser expulso de uma competição, suspenso do futebol ou pelo menos rebaixado por briga de torcidas organizadas ou situações semelhantes que não raras vezes têm consequências trágicas? Eu não. E vejo uma bola de feno rodando...

Briga entre torcidas de Vasco e Atlético-PR, na última rodada do Brasileirão, dia 08/12/2013. Alguém pensou em excluir os clubes da competição por causa disso? (Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Torcedor morto com uma privada atirada para fora do estádio, no jogo entre Santa Cruz e Paraná, no dia 02/05/2014. E não houve sequer cogitação em rebaixar o time pernambucano. (Fonte da imagem: Blog do Torcedor)
Por mais exemplar que possa parecer a punição ao Grêmio, fica os seguintes recados: para os torcedores, é muito mais provável que você vire um Judas a ser malhado se você xingar algum jogador negro de macaco (que repito, é uma estupidez fazer isso, antes que alguém venha a dizer que estou defendendo o racismo) do que se você espancar um torcedor de um time adversário até (quase) a morte ou dar uma "privadada" na cabeça dele; para os dirigentes dos clubes, não precisa se preocupar se ocorrer um porradeiro na arquibancada, mas reze para que algum torcedor do seu time não resolva imitar um macaco, atirar bananas no campo ou faça coisas do tipo. Aí já é vandalismo.

Enfim, o que sinto após tudo isso é medo do futuro de nosso país. Não só pela intolerância dos típicos intolerantes, mas principalmente pela intolerância "do bem", "cool", "prafrentex". Esta última consegue ser ainda mais perigosa.

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