Um exemplo da falta de proatividade do brasileiro e o Ciência sem Fronteiras

(Fonte da imagem: Terra)
Boa noite pessoal. O post de hoje será para comentar uma das notícias que chamaram mais a atenção pela manhã, sobretudo a dos estudantes universitários: a Universidade de Southampton, no Reino Unido, reclamou da falta de dedicação dos estudantes Brasileiros que são bolsistas do Ciência sem Fronteiras (clique aqui), programa lançado em 2011 pelo governo federal com o intuito de possibilitar que estudantes e pesquisadores pudessem estudar no exterior, com bolsas que o ajudariam em sua estada por lá. A universidade britânica chegou inclusive a cogitar a possibilidade de deixar de oferecer estágios para estudantes no futuro diante da situação.

Antes de claro, fazer a minha crítica, vou deixar uma observação bem clara no início: não, não estou defendendo o fim do Ciência sem Fronteiras por causa disso. Até porque isso seria desmerecer o esforço e os sonhos de vários estudantes que querem ter uma experiência totalmente distinta de estudos, isso sem falar no contato com a cultura de outro país. A propósito, conheço vários colegas meus que tiveram essa experiência e levaram-na bastante a sério, inclusive estagiando em grandes empresas nos países de destino. Bem como também conheço aqueles que, infelizmente, transformam o programa em uma espécie de "pacotão de viagem" com direito a viagem quase ao redor do mundo regado à festa e muita bebida (e lamento mais ainda pelo fato de tanto eu como você, leitor, bancar gente assim).

Dito isso, alguns pontos da matéria publicada no Brasil Post me chamaram a atenção por uma característica que parece ser comum a boa parte dos brasileiros (e às vezes acabo me incluindo nesse bolo): a falta de proatividade, que, explicando em poucas palavras é a competência de fazer algo acontecer tomando a iniciativa, sem precisar que outros fiquem pressionando. Segue abaixo:

"Denise Leal foi uma das bolsistas que receberam o recado. "Eu achei ofensivo ter recebido [a mensagem] porque realmente tive comprometimento com o programa, mas entendi a intenção deles. A maioria dos estudantes que estão participado do programa não se engaja muito porque o governo [brasileiro] não exige nada em troca. Não cobra nada!", disse Denise, que cursa engenharia civil. "A gente foi meio que solto aqui. Quer estudar, estuda. Não quer estudar, viaja, porque o governo paga e não cobra resultado. O dinheiro dá e sobra, então eles preferem viajar e faltar às aulas porque não tem presença, chamada", acrescentou."

Tudo bem que de fato haveria uma maior necessidade do governo de cobrar alguns compromissos dos alunos que estão participando, mas convenhamos: para marmanjos de 20 a 25 anos que estão praticamente entrando no mundo adulto, precisa realmente de o governo ficar pegando no pé direto para que os bolsistas façam o mínimo, que é se empenhar nos estudos e fazer jus ao nome do programa (que é Ciência e não Turismo sem Fronteiras)? Até porque creio eu que na ausência de exigências por parte do governo, as da universidade onde estudam por um ano, um ano e meio ou até dois deveriam ser suficientes. Enfim, só reforça a ideia de que só fazemos algo mediante um cabresto. E só isso é capaz de acabar nos diferenciando (negativamente) em relação aos estudantes "nativos" das melhores universidades espalhadas pelo mundo.

Mais exemplos do que eu disse:

"Os casos de estudantes que usam o dinheiro da bolsa para fins não acadêmicos não se restringem, entretanto, a Southampton.

A falta um controle rígido das atividades do programa foi constatada também pelo estudante de medicina Mário Henrique Vasconcelos. "Eu fazia as provas das matérias que queria. Se não quisesse fazer prova de uma determinada disciplina, era só comunicar. Não tinha nenhuma cobrança por parte do Brasil. No retorno, só precisei provar que voltei", contou Mário Henrique, que estudou na Universidade de Munique, na Alemanha. Ele disse que conhece "gente que não foi a uma aula sequer".

"Eu diria que mais de 50% dos bolsistas não levavam aquela oportunidade a sério. Tanto que eu saí da Austrália com vergonha de dizer que fazia parte do programa", lembrou Carolina Del Lama Marques, que estudou ciências biológicas na Universidade de Queensland, em Brisbane, na Austrália. "Acabei até evitando estar no meio dos brasileiros do programa, pois muitos deles falavam abertamente que estavam ali para viajar e aproveitar o dinheiro da bolsa. Eu também viajei e acho que isso é uma parte muito importante do intercâmbio, mas não me impediu de pegar matérias puxadas, que só teria oportunidade de fazer lá, de trabalhar em laboratórios de pesquisa reconhecidos no mundo todo e de fazer contatos importantes.""

Enfim, ratifica a ideia que disse antes: "se não mandar, não faço". Duplamente lamentável, uma vez que quem está no programa deveria ter o senso de que está sendo bancado pelo governo (ou em última instância por nós, pagadores de impostos) e se comportar como alguém que realmente se dispõe a levar tal oportunidade a sério e que tais falhas de controle por parte dos organizadores podem comprometer o objetivo final do programa, que é permitir que esses estudantes possam trazer um pouco das melhores práticas das universidades onde eles estudaram. Isso sem falar na péssima imagem de HUE HUE HUE BR BR que podemos ganhar (olha que não é a primeira vez que tal situação ocorre no CsF). E se tal imagem é constrangedora no mundo dos games, pior ainda no mundo acadêmico.


Enfim, espero que se os envolvidos (tanto organizadores como alguns bolsistas) tiverem o mínimo de decência, estes se disponham a fazer com que o programa cumpra o seu objetivo. Caso contrário ficará a impressão de que virou um "Bolsa-Intercâmbio" que, diferente do discurso de que "pobre agora pode estudar no exterior", está se encaminhando para "riquinho que pode muito bem pagar intercâmbio mas resolveu ser bancado pelo trabalhador brasileiro".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou