A lógica econômica defasada de Dilma Rousseff

(Fonte da imagem: R7)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar um pouco sobre o debate entre os candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves, ocorrido ontem na Record (diga-se de passagem, a performance mais apagada do tucano desde o início da campanha eleitoral). Mais precisamente, comentarei sobre a lógica biruta utilizada para explicar as questões relacionadas à inflação e desemprego. Questionada por Aécio neste ponto, Dilma, mais uma vez, disse que para reduzir o indicador a 3%, o desemprego deveria estar em 15%. É evidente que tal afirmação, se formos identificar dados empíricos dos dois indicadores em diversos países - desenvolvidos e emergentes - é estúpida, uma vez que Chile (inf. 4,9%; des. 6,7%), Peru (inf. 2,7%; des. 5,9%), México (inf. 4,2%; des. 5,1%) e a Alemanha (inf. 0,8%; des. 4,9%), país citado pela candidata como referencial negativo (!) da situação recente da Europa são países com inflação inferior a nossa e nem de longe apresentam um quadro apocalíptico de desemprego.

É claro que eu poderia encerrar a postagem apenas com isso, mas antes é necessário explicar a lógica por trás desta afirmação e por que ela é extremamente defasada nos dias atuais. Provavelmente muitos que tiveram a oportunidade de estudar economia ou mesmo matérias desta área (que é o meu caso: tive um período de Economia da Engenharia, outro de Gestão de Investimentos e Riscos e outro de Gestão de Custos), em um capítulo ou mesmo tópico sobre inflação já deve ter ouvido falar na famosa Curva de Phillips, que recebeu este nome porque foi criada em 1958 pelo economista A. W. Phillips, a partir de dados de desemprego e de inflação no Reino Unido (embora esta descoberta seria estendida a outros países por pesquisadores). Basicamente, a ideia desta curva é que existe um trade-off entre desemprego e inflação: para se ter inflação baixa é necessário altos índices de desemprego e vice-versa.


A curva - em outros livros é de fato uma curva - de Phillips. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)
Tal curva serviu de base para os formuladores de políticas econômicas, sobretudo aqueles que defendiam uma política monetária mais expansionista, com a ideia de que uma maior tolerância à inflação com o intuito de garantir a empregabilidade da população. O problema é que a partir dos anos 1970 tal teoria começou a ser colocada em xeque a partir do momento em que alguns países passaram a ter, ao mesmo tempo, altos índices de desemprego e de inflação. Milton Friedman e Edmund Phelps, de forma quase simultânea, publicaram um artigo que negavam esse trade-off em longo prazo, bem como adicionaram outros elementos (o tempo é um deles) que influenciam os dois índices econômicos.

Inflação vs. desemprego nos anos 1960 nos EUA. Repare que até este momento a Curva de Phillips é seguida à risca. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)
Nos anos 1970, a curva de Phillips deixa de ser observada. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)

O mesmo se observa no período dos choques do petróleo. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)

Sim, é possível ter baixa inflação e baixos índices de desemprego. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)

Para finalizar, mais uma evidência disso. (Fonte da imagem: Introdução à Economia - N. Gregory Mankiw)
É claro que a intenção deste post não é ser extremamente técnico para tentar explicar os casos que fogem à teoria apresentada por Phillips, mas é evidente que a ideia de que é necessário aumentar o desemprego para reduzir a inflação é defasada, e isso há aproximadamente...Quarenta e cinco anos. Sim, Dilma Rousseff empregou contra Aécio Neves um argumento que é inválido desde...1970!

É óbvio que alguns podem argumentar dizendo "ora, mas esses gráficos são dos EUA, e não do Brasil". Mas cabe dizer que mesmo aqui tal fenômeno foi observado por aqui, inclusive nos governos de FHC e Lula, onde tanto se observou de forma simultânea inflação e desemprego em patamares mais elevados, bem como inflação e desemprego em patamares mais baixos. A propósito, se a ideia de que os governos petistas foram mais ferrenhos que FHC no combate à inflação e as declarações de Dilma sobre o tema fossem corretas ao mesmo tempo, por que o desemprego nos governos Lula e Dilma caiu em vez de aumentar? Sim, o exemplo de seu próprio mentor político coloca a sua ideia em xeque.

Enfim, fica evidente que Dilma se valeu de uma teoria defasada para tentar justificar o fato de que está para entregar um país pior em relação ao que ela pegou. O que é estarrecedor foi Aécio Neves não ter sido capaz de rebater isso de forma mais clara.

P.s.: O que escrevi sobre a Curva de Phillips está baseado no livro Introdução à Economia, de N. Gregory Mankiw (2009) - Ed. Cengage Learning

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