As bombas que Dilma Rousseff terá que desarmar no segundo mandato

(Fonte da imagem: Meu Figueira)
Boa noite pessoal. Após o meu primeiro comentário sobre a reeleição da presidente Dilma Rousseff (ver aqui) irei hoje utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre as "bombas" que a mandatária terá que desarmar logo no início do segundo mandato, sobretudo no ambiente econômico (diga-se de passagem, algumas destas "bombas" foram armadas por ela mesma ao longo destes quatro anos). Antes de entrar de vez no assunto do post, cabe dizer que a reação do mercado à reeleição da petista não foi a das melhores: a Bovespa fechou em baixa de 2,77%, sendo que pela manhã a queda chegou a 6,2%; já o dólar fechou em R$ 2,52 (após chegar a R$ 2,56), com alta de 2,61%. Coincidência ou não, o nervosismo diminuiu um pouco justo após o anúncio de que Trabuco, presidente do Bradesco, e Loyo, do BTG Pactual, poderiam entrar em uma nova formação da equipe econômica da atual presidente. E antes que alguém apareça dizendo que "dólar não enche barriga de pobre" cabe dizer que boa parte do trigo utilizado na fabricação do pão francês (ou "de sal", como se diz aqui no Espírito Santo) é importado, portanto precificado em dólar. Sim, o mercado tem muito a ver com o cotidiano das pessoas.

Dito isso, vamos às bombas:

1 - Inflação

(Fonte da imagem: UOL)
Mesmo para alguns fãs do PT, é evidente e inegável que Dilma não deu tanta bola para o combate à inflação (como mostra o gráfico acima). Durante seu governo, a inflação nunca deixou a banda de cima da meta (intervalo compreendido entre o centro de 4,5% a 6,5%), sendo que em 2011, 2013 e neste ano o índice rondou perigosamente o teto, isso quando não o rompeu. Vale lembrar que em nosso país diversos preços são indexados, ou seja, reajustados em função dos índices de inflação, o que acaba gerando expectativa de inflação no futuro (a tão falada "inflação inercial"). Sendo assim, mesmo com todo o discurso contra as "medidas impopulares", ela precisará de tomá-las (mesmo que a contragosto e em dose menor) se quiser ver a inflação próxima ao centro da meta. Entre as medidas elencáveis estão o aumento do superávit primário (via corte de gastos), o fim das manobras de contabilidade criativa e o aumento da taxa Selic. Além disso, a atual política creditícia precisa estar alinhada com essas três medidas, para que evitemos um efeito enxuga-gelo.

2 - Crescimento da economia

Guido Mantega, ex-Ministro da Fazenda em atividade. (Fonte da imagem: EBC)
Outra marca negativa do governo Dilma foi o fraco crescimento da economia nestes quatro anos. O fim da fase exuberante do crescimento da China e do boom das commodities levou o Brasil a voos de galinha, se comparados a seus pares na América do Sul ou a outros países emergentes. A projeção para o crescimento do PIB em 2014 é de apenas 0,27%, patamar inferior inclusive ao esperado em países europeus recentemente assolados pela crise da dívida pública, como Espanha e até mesmo Grécia. É evidente que estes dois últimos países vivenciaram uma recessão severa nos últimos anos, mas os governistas agora não têm mais a desculpa de que "os europeus estão na pior" para justificar as lambanças ocorridas de 2011 para cá. Além disso, a tentativa de se criar um motoperpétuo para o espetáculo do PIB por meio da expansão do crédito e do consumo não só não deu certo como criou bolhas em importantes setores da economia nacional, como o imobiliário, o automobilístico e o varejista, e com o estouro de tais bolhas o pouco de crescimento proporcionado tende a virar pó. 

Motivos para os maus resultados não faltam: excesso de intervencionismo estatal (mesmo aquele "do bem", para estimular um setor), gargalos na infraestrutura, baixa produtividade, entre outros. Para reverter isso, a equipe econômica do segundo governo Dilma terá que agir de forma minimamente pragmática, tornando a política industrial mais horizontal, o ambiente de negócios mais previsível e com bem menos mudanças de regras em relação a este primeiro mandato, apostar de forma mais agressiva nas concessões para a modernização da infraestrutura de transportes, além de, claro, sinalizar que o combate à inflação (vide tópico anterior) será "pra valer".

3 - Infraestrutura

PAC: o programa que acelerou qualquer coisa, menos o crescimento. (Fonte da imagem: R7)
Não que nossas rodovias, ferrovias, portos e aeroportos estivessem melhores antes, mas também é óbvio que a infraestrutura de transporte de nosso país evoluiu bem menos do que poderia - e deveria - evoluir. Problemas com atrasos e corrupção nas obras do PAC e a persistência na ideia de que o Estado deveria controlar quase tudo na área tornaram cada vez mais evidente as limitações que isso representa ao crescimento do país. Mas ainda que tardiamente, o choque de realidade veio e as concessões tiveram que acontecer. E vejo que elas devem ser o principal meio para que tenhamos um melhor padrão de logística no menor tempo possível, muito embora defendo ajustes nos modelos atuais.

4 - Energia elétrica

Nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas no Sudeste e Centro-Oeste em 2001, 2012, 2013 e 2014, neste último com projeções para outubro, novembro e dezembro (Fonte da imagem: acervo pessoal do editor, com dados do ONS)
Uma das críticas dos petistas aos tucanos é que a falta de planejamento no setor elétrico levou o país ao racionamento de energia de 2001, talvez uma das poucas críticas que dou o braço a torcer para concordar. Mas também é fato de que os governos Lula e Dilma fizeram bem menos em relação ao necessário para garantir oferta de eletricidade com certa folga e, principalmente, estabilidade. Vale lembrar que este ano estamos sofrendo com os efeitos de uma estiagem histórica no Centro-Sul brasileiro em pleno verão e o nível dos reservatórios das usinas estão em níveis comparáveis à época do apagão, o que leva a um maior acionamento das usinas térmicas, cujo custo é maior. Como se isso não fosse o bastante, a medida populista da redução da conta de luz em um período que já se comentava sobre os riscos de escassez de energia não só levou o sistema a uma situação próxima ao limite como também levou distribuidoras a operarem no prejuízo, o que levou no final das contas, a um necessário aumento das tarifas, que durará por mais algum tempo.

É evidente, que tanto para consertar a lambança como para equilibrar a relação oferta/demanda de energia, será necessário em curto prazo liberar os reajustes nas tarifas e permitir políticas que encareçam o custo da eletricidade para maiores consumidores e períodos de maior procura. Em longo prazo há a necessidade de ampliar a oferta por meio da construção de usinas hidrelétricas e de isenção de impostos para facilitar a geração de energia por meio de fontes alternativas, de maneira que concilie a necessidade de um sistema elétrico robusto com o mínimo de impacto ambiental.

5 - Crise hídrica

A seca não é só em SP e a culpa não é só do Alckmin. (Fonte da imagem: O Globo)
Outro tema explorado na última semana da campanha eleitoral pelos petistas é a crise hídrica que atinge São Paulo, colocando tudo na conta do governador tucano Geraldo Alckmin, que apesar disso acabou sendo reeleito. Não que ele não tenha responsabilidade pela situação chegar a um ponto quase trágico (embora não seja ele o único culpado), mas o problema não afeta apenas São Paulo, mas outros doze estados, com mais de 1200 cidades decretando estado de emergência ao longo do ano. O Rio de Janeiro, estado governado por um partido aliado ao PT, também está perto de uma situação-limite, e mesmo o estado onde moro (Espírito Santo), que foi castigado pelas chuvas de dezembro do ano passado, não está em uma situação confortável. Enfim, escassez não escolhe ideologia política.

A solução para o problema é semelhante a do tópico anterior: em curto prazo, regular a demanda por meio de políticas que estimulem uma maior precificação para maiores consumidores e horários de maior procura; em longo prazo, ampliação da oferta por meio da construção de novos reservatórios, com estrutura e ambiente que minimizem a perda de água em períodos de estiagem.

Encerrando

É óbvio que não são só estas as "bombas" que Dilma precisará desarmar para os próximos quatro anos. Tem ainda a questão de convencer o país a acreditar no discurso de união que ela fez após a vitória, depois de uma retórica de "nós contra eles" adotada nas últimas duas semanas e meia. Isso sem falar na proposta de reforma política que merece - e muito - motivos para se desconfiar. De qualquer forma, também desconfio da capacidade de nossa presidente lidar com tais questões sem que estas estourem na mão dela. Pode ser que ela surpreenda positivamente e adote medidas pragmáticas diante disso? Pode. Mas tenho meus motivos para não acreditar.

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