O desespero de Laura Capriglione. Ou: dá as cartas quem está no jogo

(Fonte da imagem: TV Folha/Blog da Cidadania)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar uma coluna da Laura Capriglione no Yahoo Notícias (clique aqui) sobre a decisão de Marina Silva de se aliar a Aécio Neves. Nela, após uma longa introdução que fala da trajetória política da ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, ela resolve, em tom (bastante) desesperado, tratar a candidata socialista derrotada no primeiro turno como uma "traidora" pelo fato de ter - até que enfim, diga-se de passagem - decidido pelo apoio ao candidato tucano. Dois trechos, em especial, me chamaram a atenção. Segue abaixo:

"Mas Marina Silva acabou no domingo 12 de outubro, quando virou as costas para sua própria trajetória ao declarar voto no candidato Aécio Neves, o representante de uma política econômica ostensivamente contrária à valorização do salário mínimo e à ampliação das políticas sociais e de inclusão.

Com o capital eleitoral que conseguiu reunir no primeiro turno (21,32 % do total de votos, ou 22.176.619 eleitores), Marina poderia ajudar sua Rede Sustentabilidade a se consolidar como a tal terceira via de que tanto falou antes.

Ela preferiu juntar-se a forças bem conhecidas dos brasileiros: Que criminalizam os movimentos sociais; que atentam contra a liberdade de imprensa; que são apoiadas pela chamada “Bancada da Bala”, por Silas Malafaia e por Marcos Feliciano."

Quanto dramalhão, hein Laura. Em primeiro lugar, antes mesmo de comentar o primeiro trecho grifado, quero dizer que minha visão sobre salário mínimo e demais itens das leis trabalhistas é equidistante tanto daqueles que defendem a manutenção do status quo (ou mesmo sua ampliação) como daqueles que defendem sua eliminação imediata (muito embora eu sei que alguns países não têm salário mínimo e nem isso os trabalhadores morrem de fome). Basicamente eu defendo a ideia de que cada unidade federativa deva ter sua própria legislação trabalhista, incluindo jornada de trabalho, salário mínimo, programação de férias e a existência (ou não) de 13° salário. Mas independente disso, cabe dizer que só existe uma forma razoável de se garantir a valorização dos salários e a manutenção (ou mesmo ampliação) das políticas sociais: garantir as condições necessárias para um bom desempenho da economia (inclusive elaborei um post na última quarta-feira, e vocês podem conferir aqui). Do contrário, continuaremos vendo um cenário cada vez mais recorrente: trabalhadores tendo aumento de salário mas ainda assim insatisfeitos por poderem comprar cada vez menos coisas. Não preciso dizer que renda não se expande somente por decreto, ou preciso?

Quanto à "criminalização dos movimentos sociais" supostamente defendida pelas "forças bem conhecidas dos brasileiros", cabe dizer que esses "movimentos" depredaram lojas, bancos, atacaram policiais e inclusive tem na conta deles um cinegrafista morto por um rojão. E é mais que justo e coerente criminalizar "movimentos sociais" que cometem e/ou acobertam crimes. E quanto aos supostos atentados à liberdade de imprensa, não foram essas "forças bem conhecidas" que tentaram calar - e conseguiram - uma jornalista pelo fato de ter dito que é "compreensível" agir diante de um cenário quase falimentar de segurança pública. Foram justamente as vozes "meigas e doces" das forças que supostamente promovem a "tolerância".

"Marília de Camargo César, autora da biografia “Marina: a vida por uma causa” (editora Mundo Cristão, 2010), conta que, diante de um problema de difícil resolução, a ex-ministra costuma praticar a “roleta bíblica”, que consiste em abrir a Bíblia aleatoriamente, para saber o que Deus recomendaria na situação.

Não é difícil imaginá-la nesse mister quando ela se saiu com a idéia de pedir que o PSDB reconsiderasse a campanha pela redução da maioridade penal, como condição sine qua non a seu apoio. Aécio respondeu sem pestanejar: não! E assim acabou-se mais uma convicção “firmíssima” de Marina."

Vou tentar explicar para a Sra. Capriglione (quase desenhando, para ficar bem claro), pois é bem provável que ela não tenha entendido a situação: Marina Silva perdeu no primeiro turno das eleições. Repito: PERDEU. Ela está fora do segundo turno, ok? Dito isso, cabe dizer que inicialmente a candidata socialista queria praticamente impor o programa político dela sobre o de Aécio, e é evidente que o tucano tem todo o direito de não aceitar as imposições condições da candidata derrotada para ter seu apoio. A questão é que o PSB resolveu decidir majoritariamente por apoiar Aécio e boa parte dos votos direcionados à candidata socialista foram repassados ao tucano. Diante deste cenário e com algumas concessões feitas pelo tucano (sim, salvo a questão da maioridade penal ele fez concessões), Marina cedeu à realidade e resolveu apoiar Aécio. Não custa lembrar que a política é a arte do possível e que dá as cartas quem está no jogo e não fora dele.

Enfim, mesmo não gostando da postura dengosa de Marina para apoiar Aécio, a colunista deu uma demonstração nítida - e grotesca - de desespero e desconhecimento econômico (quanto à questão do salário mínimo) como de desconhecimento de estratégia política. Ou mais além, acha que as virtudes só pertencem a um lado.

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