O falso dilema entre o econômico e o social

(Fonte da imagem: USP/Diário do Poder)
"É necessário fazer o bolo crescer para depois reparti-lo." (Delfim Netto)

"É a economia, estúpido!" (James Carville)

Boa noite pessoal. Ainda em clima de eleições, mas falando de um tema mais recorrente e que é igualmente válido fora deste período caloroso, irei hoje utilizar o Minuto Produtivo para falar de um dilema que acaba caindo na mente de muitas pessoas (e neste momento, eleitores): quando algumas pessoas falam que a economia brasileira vai mal e que o governo precisa tomar medidas que visem mais competitividade e desempenho, outras argumentam contra, dizendo que "o momento agora é se preocupar com o social", como se a economia e as políticas sociais fossem aspectos mutuamente exclusivos. E não, isso não é um dilema. É um falso dilema.

Antes de explicar o motivo de eu dizer que essa questão é um falso dilema, preciso fazer um parêntese para comentar brevemente sobre as duas frases que introduzem esta postagem. A primeira, de Delfim Netto, Ministro da Fazenda nos governos dos militares Costa e Silva e Médici, foi cunhada no momento em que o Brasil vivia o "milagre econômico", período em que o país cresceu a dois dígitos por ano, mas que infelizmente ficou marcado pelo aumento da concentração de renda e da pobreza. Bem provável que por isso tal frase seja (infelizmente) vista de maneira pejorativa por algumas pessoas que resolvem estudar um pouco da história de nosso país. E, por mais que tal lógica não tenha funcionado naquele momento, as palavras do ex-ministro, que chegou a simpatizar com as políticas de desenvolvimento dos governos petistas mas hoje parece se comportar como um "desiludido" tem sim um fundo de verdade. Já a segunda, de James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992, foi um slogan inicialmente feito para os que atuavam na candidatura do democrata, mas que acabou virando um dos temas principais, pois justamente aproveitava o período de recessão do governo de George H. W. Bush (o Bush pai) para fazer o contraponto. Não só a recessão, mas o clima de aparente tranquilidade no Oriente Médio após a Guerra do Golfo acabaram precedendo a eleição de Clinton, que apesar de ideologicamente estar posicionado na centro-esquerda alterou apenas alguns aspectos econômicos lançados por Ronald Reagan.

Finalizado o parêntese, vamos utilizar a frase de Delfim Netto para exemplificar o porquê do falso dilema entre fortalecer a economia e fortalecer as políticas sociais (sim, o exemplo parece ser um tanto idiota óbvio até, mas acredite, há muito estudante universitário ou mesmo marmanjo com diploma nas costas que não recorre a esta obviedade): pense que eu sou um confeiteiro que fabrica bolos regularmente e que vocês, leitores do blog, são as pessoas que irão comer este bolo, que é dividido em partes iguais, satisfazendo a todos em um primeiro momento. Acontece então que o número de "bocas" cresce mas por algum motivo o bolo que eu fabrico não cresce ou cresce a um ritmo menor que o crescimento dessas "bocas". É evidente que se fizermos inúmeras iterações desta situação, chegaríamos a tal situação: ou alguns ficariam sem o pedaço de bolo para outros terem um pedaço de bolo maior ou teríamos uma situação ainda mais trágica, que é a de todos receberem pedaços infinitesimais (sim, tirei esta expressão do Cálculo e não, não poderia negar meu "ranço" de futuro engenheiro neste texto) de bolo, levando a uma igual insatisfação.

Bem, agora troquemos eu, o confeiteiro, pelo governo; o bolo, pela economia; e vocês, leitores do blog, por beneficiários de programas sociais ou mesmo usuários dos diversos serviços públicos e percebemos que a preocupação com o social com um fim em si mesmo pode resultar em um efeito contrário ao esperado. "Ah, mas o crescimento econômico não significa desenvolvimento social!", brada algum defensor da igualdade perdido por aí. Claro, nem sempre o crescimento econômico pode resultar, automaticamente, em mais oportunidades e qualidade de vida a todos (os casos de cidades que descobriram e hoje vivem da renda gerada pelos royalties de petróleo não deixam mentir). O que eu quis dizer com este exemplo tão infantil - e completamente ignorado por certos grupos da sociedade - é que é possível se preocupar com a economia sem se preocupar com o social, mas é IMPOSSÍVEL se preocupar com o social sem se preocupar com a economia. Exatamente isso que você leu em negrito, quer goste disso ou não. Ou você acha que quem banca isso são anjos que eventualmente distribuem maná do céu?

Sim, quer você goste ou não goste daqueles que defendem a ideia de que é necessário fortalecer os fundamentos econômicos de nosso país, só é possível sustentar tantas "bondades" (que na verdade todos, inclusive você, pagam por elas) porque existe uma economia forte (ou nem tão forte assim, mas) o suficiente para dar sustentação ao governo (por meio de impostos, taxas e contribuições) poder fornecer todos os serviços públicos e programas sociais que a população pode e às vezes precisa usar (a propósito, meu antigo vizinho de blog, Alex Zanetti, explicou muito bem sobre isso quanto aos países escandinavos, confira aqui). Apenas querendo ser um pouco mais chato, a analogia que eu fiz no parágrafo anterior é muito, mas muito simplória, uma vez que o governo não faz o papel de confeiteiro e sim as próprias pessoas que irão se alimentar do bolo (esqueceram que o governo não produz nada?), sendo que o primeiro apenas faz o papel de mediador da distribuição dos pedaços. Mas de qualquer forma, isso nos ajuda a entender que a preocupação com tão somente com o social, por mais nobre e bonito que possa parecer em um discurso, é igualmente ilusória.

Se você se preocupa tanto que os pobres possam crescer e ter acesso a bens e serviços que antes só os mais afortunados tem, você precisa defender fundamentos econômicos sólidos (e acima de tudo, factíveis), um ambiente de negócios mais previsível e que estimule a vontade de empreender do cidadão, uma visão priorizada ao fortalecimento de economias locais e ao nascimento de novos players em vez da atual política de campeões nacionais, que acaba fortalecendo grandes corporações que acabam distorcendo o mercado por meio de monopólios e oligopólios, que por sua vez acabam ofertando produtos e serviços mais caros e de menor qualidade (e sim, quem leva a pior nisso? Adivinhem...Os mais pobres!) e uma visão descentralizada da gestão do Estado (um maior papel dos governos estaduais e municipais em detrimento do federal), com serviços públicos sendo delegados à iniciativa privada sempre que possível. Assim, temos uma maneira sustentável de levantar recursos para justamente haver a implantação de políticas sociais para os mais necessitados (que sempre irão existir, enquanto existir a humanidade). Qualquer ideia que fuja disso não passa de alquimia, que como disse no parágrafo anterior, é ilusória.

Enfim, você pode não ser um fervoroso defensor do liberalismo econômico nem pregar por aí o estado mínimo, mas a preocupação com os mais carentes não pode e não deve subverter os princípios mais elementares de lógica e, por que não dizer, de matemática. Simples assim, óbvio assim.

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