Depois da bonança vem a tempestade

(Fonte da imagem: BOL)
Boa tarde pessoal. Primeiramente quero pedir desculpas aos leitores do Minuto Produtivo por não ter atualizado este blog ao longo de mais de uma semana. É que teve Semana de Engenharia de Produção no IFES Campus Cariacica (onde estudo), e uma vez que sou diretor de projetos da ENPRO Consultoria (empresa júnior do curso, responsável pela organização do evento) tive que estar na faculdade em um horário mais cedo que o habitual para lidar com as demandas adicionais. Apesar de tudo, a programação foi muito boa e as palestras foram bastante proveitosas, sem falar nos coffee-break de segunda e quarta-feira, que foram deliciosos (sim, tenho um espírito de gordo e sim, gostaria de deixá-lo um pouco de lado). Mas enfim, já passou e é hora de tocar a vida. E, claro, voltar a postar por aqui.

O comentário de hoje é sobre uma coluna de Henrique Meirelles na Folha de S. Paulo, em que o ex-presidente do BC e possível Ministro da Fazenda no segundo mandato de Dilma Rousseff fala sobre o cenário econômico internacional e os desafios para os emergentes - o que, obviamente, inclui o Brasil - nos próximos anos. Segue abaixo a coluna. Volto mais tarde.

"Conviveremos com um mundo interessante nos próximos anos. Usando a linguagem dos velejadores, estamos no meio de uma calmaria – sem vento para impulsionar o barco, mas também sem tempestade, isto é, sem crise.

A China, o grande motor que puxou muitas economias emergentes, está desacelerando fortemente, com avaliações de que o recuo pode ser ainda maior do que o dos números oficiais. O país cresceu muitos anos com estratégia de exportação agressiva, taxa de câmbio depreciada, mão de obra barata, ausência de benefícios sociais e trabalhistas e poupança doméstica enorme, cerca de 50% do PIB. Isso lhe permitia investir intensamente.

Mas quando a crise abateu os países ricos e reduziu as exportações chinesas, Pequim lançou grandes projetos de infraestrutura visando manter a demanda e substituir as exportações por investimentos, o que gerou excesso de capacidade e problemas de crédito.

Paralelamente, o país estimulou também o consumo doméstico. Mas, como muita coisa em economia, é mais fácil falar do que fazer, e as soluções chinesas envolvem mudanças radicais de hábitos da sociedade que levam anos.

Aparentemente, esse processo está atingindo limites, impactado também por investida contra a corrupção, o que é absolutamente necessário, mas, num primeiro momento, desorganiza ainda mais a máquina produtiva chinesa. Com tudo isso, a China pode ter desaceleração econômica importante nos próximos anos.

A Europa não está crescendo e provavelmente não crescerá no curto prazo. Seu problema é estrutural. Com a adoção do euro, houve excesso de endividamento de muitos países da região embalados pelas aparentes facilidades dos juros baixos e do capital alemão, esteio da moeda europeia. Estão agora numa fase penosa de adaptação, com situação fiscal ainda complicada e dependendo da capacidade de Mario Draghi, presidente do BC europeu, de replicar estratégia americana de alta liquidez. Assim, o mundo não deve esperar grande ajuda da Europa também.

Nos EUA, o crescimento voltou graças a uma economia dinâmica, um mercado de trabalho flexível, um ambiente empresarial altamente competitivo, um mercado de capitais aberto com fontes de financiamento abundantes e um sistema educacional que, apesar das queixas, é capaz de formar profissionais de alto nível em grande número.

Em resumo, o mundo, com a exceção dos EUA, não oferecerá grande ajuda à retomada do crescimento. Os emergentes portanto, terão que resolver os seus problemas domésticos de competitividade e produtividade para voltar a crescer a taxas desejadas. A boa notícia é que isso é viável."

Retomando...

A coluna de Meirelles de certa forma demonstra certa tranquilidade em relação ao cenário econômico internacional, o que me desperta preocupação com os reflexos para o Brasil, basicamente por dois motivos: primeiro, mesmo com o mínimo de vento para impulsionar o barco já não conseguíamos navegar com a mesma desenvoltura dos emergentes nos últimos três anos (e certamente não conseguiremos fazer o mesmo neste ano); e segundo, tal calmaria pode muito bem ter cara de "pré-frontal" (um dia que precede a chegada de uma frente fria normalmente costuma começar com céu limpo e com muito calor, e logo após vem aquele temporal)...

Sobre os novos cenários para China, União Europeia e EUA, cabem algumas considerações: a China possui uma dívida total em torno de 250% do PIB, sendo que todas essas obrigações financeiras foram contraídas de forma rápida e antes que o país enriquecesse de fato, o que lança dúvidas sobre até que ponto o gigante asiático poderia continuar apostando no crédito para evitar a inevitável realidade da desaceleração; o velho continente, com honrosas exceções da Alemanha, Reino Unido e alguns pontos países, caminha para uma década perdida; e o desempenho dos EUA pós-QE ainda é incerto, tanto que este pacote de estímulos teve um imenso cuidado em ser desmontado. Enfim, isso só reforça a ideia citada no parágrafo anterior de que essa calmaria pode muito bem preceder um cenário perigoso nos próximos anos, ao invés do simples fato da economia mundial passar a operar em velocidade de cruzeiro.

De qualquer forma, concordo com Meirelles de que não dá para culpar os "de fora" pelos problemas estruturais existentes em algumas economias emergentes, uma vez que alguns de seus pares conseguem ter um bom desempenho no mesmo cenário, e que a necessidade de reformas para voltar aos trilhos do crescimento são imperativas, inclusive para o Brasil. Entretanto, acrescento a ideia de que tais ajustes precisam ser feitos o quanto antes. Reitero: a calmaria pode muito bem ser um mau sinal.

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