Guido Mantega, a caricatura da (falta de) visão econômica brasileira

(Fonte da imagem: Reuters/G1)
Boa noite pessoal. Antes de falar do que pretendo escrever aos leitores deste blog por hoje, vou fazer uma confissão: mais do que um palpiteiro de assuntos políticos e econômicos também sou um corneteiro. É evidente que alguns tenham percebido isso antes pelo conteúdo de alguns de meus posts, mas resolvi confessar isso diante do assunto, que é mais uma para a lista de pérolas de nosso querido (e cornetado) Guido Mantega, que é astrólogo, tarólogo, cartomante, bobo-da-corte e, nas horas vagas, inventa de atuar como Ministro da Fazenda. Em uma matéria do jornal O Globo, o ainda chefão da área econômica disse que o governo vai garantir mais crédito para elevar o consumo. Sim, mais crédito. Para um país cujas famílias estão cada vez mais endividadas (ver aqui e principalmente aqui). Em uma economia com inflação em torno de 7% e crescimento inferior a 1%. O mínimo senso de economia nos permitiria dizer que seria a receita para uma catástrofe, na melhor das hipóteses.

Pois bem, como disse antes, por mais atrapalhada que tenha sido a declaração de Mantega, é apenas mais uma de inúmeras pérolas que nosso ministro resolveu brindar à população, sobretudo nos quatro anos do governo Dilma Rousseff . De previsões do PIB com erros de 2 a 4 pontos percentuais a prognósticos cujos fatos são exatamente o contrário do previsto, Mantega conseguiu virar piada não só para o mercado, como também para o próprio governo. Tanto que Dilma o colocou como primeiro a rodar antes mesmo de ser reeleita. Restou a ele então seguir apenas com o papel caricatural, enquanto nossa presidente - ou presidenta, como queiram chamar - pensa em quem vai assumir a bomba (a propósito, parece que nem Henrique Meirelles está disposto a desarmá-la).

Apesar deste final de passagem melancólico, a existência de um Guido Mantega no comando de uma das principais pastas do país não é um acidente de percurso muito menos algo por acaso. Acredite, ele é apenas uma representação caricata - muito, por sinal - de uma visão (ou melhor, falta dela) econômica que não só os "medalhões" da área, mas boa parte dos brasileiros parecem defender, justificar ou tão somente consentir. Alguns chamam de desenvolvimentismo, outros chamam de nacional-desenvolvimentismo, outros se limitam a chamá-lo de keynesianismo...Enfim, chamem como preferir. Prefiro muito bem chamá-lo de motocontinuismo econômico. Afinal, mesmo com todas as evidências mostradas pelo estouro das bolhas imobiliárias nos EUA e Europa, aqui ainda se acredita que se crédito e gastos públicos a rodo não fazem a economia crescer, é hora de tacar pau na máquina e abrir mais as carteiras.

Keynes for dummies. (Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
A propósito, esta ideia de gastar ainda mais recursos quando estes não funcionam é, se não a principal, uma das evidências do "manteguismo cultural" na visão econômica média do brasileiro. Isso pôde ser visto de forma muito clara nos protestos que sacudiram o país e que não serviram de nada entre junho e julho do ano passado: se a educação anda mal das pernas, mais dinheiro (público) para a educação. Se a saúde vai mal, mais dinheiro para a saúde. Isso quando não resolvem ao mesmo tempo pedir menos impostos. É evidente que a conta não vai fechar: sim, claro ou com certeza?

Perguntem a alguma pessoa aleatória na rua sobre o que aconteceria a alguém que gasta mais do que ganha, entra constantemente no cheque especial, torra o limite do cartão de crédito e, como se isso não fosse o suficiente, pega dinheiro emprestado com agiota acreditando que com um dinheiro que vai receber no mês seguinte (e ainda assim provavelmente, não é certo que ganhe) apenas para manter um padrão de vida insustentável com sua renda. É bem provável que essa responderia que essa pessoa estaria estupidamente endividada, com o nome sujo na praça, sem dinheiro para mais nada além de pagar dívidas e, no caso do agiota, estaria em sério risco de estar com a boca cheia de formigas no dia seguinte. Mas se você disser que, ressalvadas as devidas proporções é mais ou menos isso que o governo faz ao querer descumprir a meta de superávit primário, aumentar a dívida pública, bancar pretensas "bondades" como a redução da conta de luz com dinheiro do Tesouro (ou seja, estávamos pagando para pagar mais barato) e antecipar possíveis resultados dos próximos anos para fechar as contas do ano (a famosa "contabilidade criativa"), provavelmente essa pessoa comerá mosca. Ou talvez caia no papo do governo e chame você de pessimista. Se for um adolescente que tenha saído da aula no momento, é bem capaz de dizer que isso não passa de "balela neoliberal", mesmo que não saiba o que é isso (a propósito, nem ele e nem Boulos sabem). Enfim, não ligam o lé com o cré.

E o mais grave de tudo é que esse "fenômeno" não é observável somente em pessoas que tenham no máximo o ensino médio (que corresponde à maioria da população brasileira), mas também em pessoas que fazem ou mesmo têm o diploma de ensino superior (e diria algo mais grave ainda, pessoas que fazem ou fizeram cursos com alguma matéria econômica na grade curricular). Muitas destas insistem na tese de que "com o governo tem que ser diferente", ou que "o importante não é econômico e sim o social" (esta última tese é falaciosa, como argumentei no mês passado). Como se o poder público não precisasse de impostos e, para isso, precise de uma economia robusta o suficiente para bancar todas as "conquistas" e "direitos" para a população.

Enfim, em um ambiente cuja discussão econômica acaba tendo que se reduzir a um nível abaixo do primário para tornar-se entendível (ligando o modo William Bonner, você precisa falar de economia para que Homer Simpson entenda, e como disse no parágrafo anterior isso seria preciso mesmo em uma universidade), a existência e a longevidade de um Guido Mantega na Fazenda deixa de ser qualquer surpresa. O que não deixa de ser lamentável.

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