Interpretação bíblica para haters leigos: um mini estudo de caso

(Fonte da imagem: Colégioweb)
Boa noite pessoal. Iria abrir a semana no Minuto Produtivo para falar um pouco da questão hídrica no Brasil, que é um tema recorrente e foi uma de minhas promessas pessoais para este blog no mês de novembro, mas resolvi antecipar um assunto na fila por uma questão de necessidade e pelo fato do assunto ser, digamos, atemporal (apesar de que no momento julguei ser urgente). Trata-se de um minitutorial de interpretação da Bíblia, livro sagrado para o cristianismo.

O motivo de antecipar este post é que nas redes sociais, sobretudo em páginas destinadas a aqueles que nunca leram de fato a Bíblia (ou a lê no estilo "caixinha de promessas"), ou que simplesmente odeiam religião apenas por odiar, eventualmente citando aquela frase de Marx que ela "é o ópio do povo", mas resolvem citar passagens das Escrituras quando querem distribuir pancadas nos líderes religiosos, mesmo que estas estejam isoladas e, quase sempre, fora de contexto. Isso explica um Titica Tico Santa Cruz dizendo que Jesus Cristo seria chamado de "petralha" nos dias de hoje. Ou que os primeiros cristãos foram os primeiros socialistas da história (haja paciência). É claro que não sou nenhum expert em teologia muito menos sou um religioso fervoroso no melhor estilo "carola", e eventualmente critico as posturas dos líderes religiosos da atualidade (em boa parte é justo por terem perdido o foco no que deveria ser o mais importante para o cristianismo, que é a Bíblia), mas acredito que um mínimo de interpretação de texto e lógica faz bem em qualquer caso, principalmente quando se lê algo que, digamos, não é muito familiar.

Observações feitas, vamos ao mini estudo de caso. Segue imagem abaixo:

(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
Basicamente, a crítica apresentada pela página na imagem consiste no fato de que a ideia da isenção de impostos para igrejas (e aí já começa a omissão dos fatos, uma vez que a Constituição Federal veda tributação não só para templos de qualquer culto - e que também não são só as igrejas, mas também mesquitas e sinagogas, para citar exemplos das principais religiões monoteístas - como também patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos e instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos) vai de encontro a uma famosa passagem de que deve se dar "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Pois bem, apresento o primeiro princípio básico de interpretação de texto, não só para se interpretar a Bíblia (que alguns tanto a odeiam e achincalham, exceto quando é para espinafrar algum pastor ou padre charlatão, ainda que merecidamente), mas para qualquer outro livro: para se entender a história e o contexto por trás de um texto é importante não ler só o parágrafo em questão, mas também ler o que está antes e depois dele. Além disso é necessário pensar no panorama histórico da época, justamente para não avaliarmos situações de dois mil anos atrás com a visão de mundo que temos hoje (a recorrente questão do anacronismo). Dito isso, vamos ao trecho em que a passagem está localizada, que está em Mateus 22:15-22 (também pode ser encontrado em Marcos 12:13-17 e Lucas 20:20-26). Me reservo ao direito de grifar as partes mais importantes:

"Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam nalguma palavra;

E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo: Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens.

Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?

Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?

Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.

E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?

Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram."

Vamos ao contexto da época: desde o ano 63 a.C. a Judeia, região onde Jesus viveu, era uma província de Roma, portanto submetida ao seu sistema legal e tributário. O povo de lá, que fora uma nação independente entre os séculos 11 a.C. e 6 a.C. e que gozou de relativa autonomia no período pos-exílio, odiava o domínio romano e as revoltas contra o mesmo não eram raras (a destruição de Jerusalém, que ocorreria no ano 70, foi motivada por uma dessas rebeliões). Cabe lembrar ainda que os judeus da época acreditavam da vinda de um Messias que iria libertar Israel do domínio romano e elevar a nação a um novo patamar de glória, uma vez que se viam como o povo escolhido de Deus. Sendo assim, a intenção dos fariseus em fazer esta pergunta a Jesus era simplesmente colocar sua reputação em xeque. Se ele respondesse "sim" à pergunta, cairia em desgraça perante a multidão, uma vez que esta detestava o simples fato de estar sob domínio romano (quanto mais pagar impostos aos dominadores). Se respondesse "não", poderia ser preso por estar incitando uma rebelião contra César. Por mais óbvia e banal que a resposta de Jesus pareça hoje, para aquela situação e o contexto da época foi uma jogada de mestre. Afinal, estamos falando do Mestre dos mestres, correto?

Além disso, as outras duas passagens (vide dois últimos links do quarto parágrafo) ajudam a entender a quem estava se referindo na questão do pagamento dos impostos a Roma. Seguem abaixo os trechos:

"E, chegando eles, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és homem de verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas à aparência dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deus; é lícito dar o tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos?"

"E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus.

É-nos lícito dar tributo a César ou não?"

Como dito antes, os fariseus queriam colocar a reputação de Jesus em xeque, seja diante do povo, seja diante das autoridades romanas. Além disso, a forma em que foi feita a pergunta (primeira pessoa do plural) permite entender que a questão do pagamento de impostos não era (necessariamente) direcionada a empresas ou determinadas organizações (lembrando que há muitas diferenças entre o aspecto das pessoas jurídicas naquela época e hoje), e sim direcionada para a população em geral. Ou seja, os fariseus estavam perguntando a Jesus se era lícito à população pagar imposto à Cesar ou não. Enfim, mesmo se aplicássemos a visão de mundo atual a este texto a questão de isenção de impostos a determinadas organizações está completamente fora do contexto da situação apresentada.

O mínimo, portanto, não é apenas ler a Bíblia. Até porque ler texto e não entendê-los ou interpretá-los os analfabetos funcionais (que são muitos, inclusive nas universidades) também fazem.

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