As "crônicas" de Dilma: os gatos, os ratos, a gordinha e o regime

Da esquerda à direita, a nova equipe econômica de Dilma Rousseff: Alexandre Tombini (presidente do BC), Nelson Barbosa (novo ministro do Planejamento) e Joaquim Levy (novo ministro da Fazenda). (Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Boa noite pessoal. Em clima de final de ano e como final de ano que se preze não pode deixar de ter pitacos, irei utilizar o Minuto Produtivo para dar os meus sobre o cenário econômico para 2015, usando e comparando um pouco os palpites de Arthur Rizzi, blogueiro do Tartaruga Democrática (ver aqui a análise dele) e convidado especial dos dois últimos podcasts da primeira temporada (ver aqui e aqui), bem como de outros palpiteiros e, eventualmente, de economistas.

Pois bem, a primeira coisa que pretendo ponderar aqui é, diferente do que Rizzi e o economista Rodrigo Constantino (ver por exemplo aqui) colocaram como palpites em blog e coluna, respectivamente, não acho que Dilma Rousseff escolheu uma equipe econômica mais "ortodoxa" (coloco aspas aqui, pois o único que segue essa linha de fato é Joaquim Levy, futuro Ministro da Fazenda. Nelson Barbosa possui um viés desenvolvimentista e Alexandre Tombini é apenas alguém que vai de acordo com a maré, nada além disso) com o intuito de ludibriar os mercados. Não porque ela não queira nem pense em fazer isso, mas porque no caso de tal estratégia ser adotada, se levarmos em conta o quadro atual da economia brasileira (crescimento baixo, alta inflação, contas públicas como uma caixa preta, etc.), os mercados podem muito bem acusar o golpe e então o pouco de tranquilidade que resta no ambiente de negócios e investimentos pode simplesmente desaparecer.

Mas é claro que eu também não acredito que ela deixará de dar umas "apitadas" na política econômica. Entretanto, creio que ela acabará sendo mais contida neste aspecto, não por convicção mas sim por necessidade e pela realidade dos fatos, tal como na questão das concessões no setor de infraestrutura. Parece que a frase de Deng Xiaoping, líder do partido comunista chinês, cai como uma luva: "não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato". Se o "gato vermelho" não teve apetite o suficiente para caçar os "ratos" que roeram o tripé macroeconômico (metas fiscais, de inflação e câmbio flutuante), o jeito é usar um "gato azul", mesmo que o pinte de rubro para não chocar os militantes mais sensíveis.

O ajuste

Muito se pergunta sobre o que será da economia brasileira em 2015 e até mesmo de 2016 em diante por conta dos ajustes que eram tão necessários, tão negados pela presidente e tão inevitáveis neste momento. Arrisco de cara um palpite: 2015 será um ano, na melhor das hipóteses, tecnicamente empatado - em ruindade, claro - com 2014. Dependendo do grau do "tarifaço" (liberação dos preços represados nos últimos anos, como energia elétrica e transporte coletivo), do enxugamento monetário (via alta da Selic, principalmente), do aumento de impostos (fim das desonerações e criação/recriação de tributos e contribuições) e do corte dos gastos públicos (a freada nos concursos públicos e a "mão fechada" nos reajustes dos servidores, por exemplo, não está descartada, isso sem falar na negada mas agora inevitável redução dos subsídios ao BNDES), o primeiro semestre de 2015 será marcado por contração do PIB e o segundo semestre servirá na melhor das hipóteses para trazer a economia para um patamar próximo à estagnação (arriscaria uns 0,3% no máximo, com 0,2 p.p. de margem de erro para mais ou menos). Quanto à inflação, diante do cenário de trazer alguns preços administrados à realidade, eu arrisco dizer que é praticamente impossível que ela não estoure o teto da meta de 6,5%. Aliás, ela pode ficar consideravelmente distante disso, tanto no valor pico como no valor ao final do ano (arriscaria 7,3%, com 0,3 p.p de margem de erro para mais ou menos).

É importante fazer algumas considerações sobre as circunstâncias que servirão de fundo deste ajuste: a primeira é que apesar das medidas a serem tomadas pela tríade Levy-Barbosa-Tombini serem menos conservadoras em relação as utilizadas, por exemplo, pela dupla Palocci-Meirelles no primeiro mandato do presidente Lula, não poderemos mais contar com a sorte de um boom das commodities (sobretudo petróleo, minério de ferro e grãos como a soja) e sim teremos que torcer para que não ocorra um bust enquanto a trupe de Brasília tenta se livrar da "herança maldita" que Dilma deixou para si mesma.

A segunda é que a recente manobra fiscal que desobrigou o governo a cumprir a meta (cof cof) de superávit primário para este ano, no melhor estilo daquela pessoa gordinha que promete iniciar um regime na próxima semana mas antes disso se empanturra de comida (mas claro, para a analogia ficar perfeita essa pessoa gordinha deu a desculpa de que se empanturrou com frutas e verduras, alimentos mais saudáveis, não é?), vai dar um trabalho extra à nova equipe.

A terceira é que caso os ajustes de fato atinjam o bolso dos servidores públicos (através de reajustes menores) é importante estarmos preparados para uma temporada recheada de greves a partir do meio do ano. Eu mesmo, que estarei no último período de Engenharia de Produção no primeiro semestre do ano que vem, já pretendo cruzar os dedos.

A quarta, por fim, que é talvez a mais importante, é que o crédito precisa ser enxugado de forma bastante delicada, para evitar o estouro de três bolhas no setor que estão relativamente avançadas em sua gestação: a imobiliária, a automobilística e a varejista.

E de 2016 em diante?

Quanto ao que está por vir a partir de 2016, ainda é difícil prever, mas tudo vai depender do êxito dos ajustes promovidos em 2015 e dos efeitos que os Jogos Olímpicos e as eleições municipais terão no sentido de manter a economia em marcha lenta. Arrisco a dizer que até o terceiro trimestre, quando ocorrerá o evento esportivo no Rio, a economia continuará em compasso de espera, podendo sinalizar um crescimento mais vigoroso apenas entre outubro e dezembro (o que será suficiente para fazer do ano um pouco melhor em relação a 2015). Meu pitaco é que o PIB crescerá 1,2% (com 0,2 p.p de margem de erro para mais ou menos), e a inflação será de 6,2% (margem de erro idem).

Para 2017, quando provavelmente o centro da política econômica será deslocado de Joaquim Levy para Nelson Barbosa (um desenvolvimentista, apesar de divergir em relação às políticas de contabilidade criativa e da fixação da taxa de retorno nas concessões), a economia pode muito bem crescer a 1,8% (com 0,3 p.p de margem de erro para mais ou menos) tendo inflação de 5,5% (margem de erro idem). E se Dilma colaborar (será?), nada impediria que 2018 seja o ano de maior crescimento econômico e menor inflação em seus oito anos de governo, o que não seria lá grandes coisas, mas pelo menos daria para sustentar minimamente as "bondades" prometidas em sua campanha eleitoral. Vão por mim, caso a "guinada conservadora" (que diria eu ser apenas uma guinada para o bom senso) dê certo, é bem capaz dos "intelectuais" que assinaram o manifesto contra as recentes medidas e nomeações de Dilma acabarem comemorando e elogiando o "novo rumo" que o país está tomando, mesmo que as medidas "vencedoras" se assemelhem muito às "derrotadas".

Encerrando

É claro que devemos ficar de olho em Dilma e sua nova trupe econômica, uma vez que o ajuste que está por vir será o mais difícil em doze anos, e não teremos algumas "facilidades" no cenário internacional que tivemos no início do governo Lula. Mas a realidade ruge. E nem mesmo a "gerentona" conseguirá fugir dos efeitos dessa. O sonho e a fantasia estão chegando ao seu final.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva