Bolsonaro, a "fúria dos deuses" e a oferenda inútil

(Fonte da imagem: Carta Capital)
Antes de entrar de fato no tema do post de hoje, pretendo abri-lo com uma ilustração estranha à primeira vista, mas que ao longo do texto que irei escrever tornar-se-á perfeitamente entendível: em alguns filmes e desenhos animados de história antiga ou tão somente mitológicos, certos deuses, por algum motivo, se iravam com a população que em tese o adorava, e, por isso, se dispunha às vezes a destruir esta. As pessoas, com o intuito de se livrar da iminente destruição, resolvem arranjar uma oferenda para ser sacrificada (imolada, queimada, decepada, etc.) de forma a aplacar a fúria desses deuses e, assim, evitar a punição. Em alguns casos isso dava certo, em outros, porém, essas divindades continuavam insatisfeitas e o castigo ocorria assim mesmo, seja com terremoto, uma forte tempestade elétrica, chuva de fogo, tsunami ou uma combinação cataclísmica de todos esses eventos e mais alguns.

Algum leitor do blog deve estar se perguntando: "ora, você vai falar de Bolsonaro e colocou uma foto dele para abrir o texto, o que esse trololó todo tem a ver?". Bem, antes de explicar o porquê da pequena narrativa que fiz, contarei de forma breve e sucinta o caso que virou o quiproquó da semana: em um discurso no Congresso Nacional, o deputado relembrou uma confusão vivida entre ele a deputada Maria do Rosário (PT-RS), que a chamou de estuprador e esse, respondendo ironicamente, disse que "não a estuprava porque não merece". Isso foi o suficiente para os partidos governistas (sobretudo o PT e o PC do B), o PSOL e diversos movimentos sociais e grupos feministas resolveram cair em cima de Bolsonaro, uma vez que este, supostamente, estava fazendo "apologia ao estupro".



A reação de tais partidos e grupos, normalmente associados à esquerda, por mais histérica que seja, era previsível. O que me surpreendeu é que alguns mais à direita também resolveram enxovalhar o deputado, ignorando completamente a reação da esquerda, ou mesmo considerando que ele agiu de forma moralmente equivalente, o que é pior ainda. É aí que entra a alegoria citada no primeiro parágrafo: as esquerdas ficam em fúria com a declaração de Bolsonaro, fazendo com que este se torne um "espantalho" para a direita. Alguns desta, por sua vez, resolvem simplesmente "entregá-lo" à fúria esquerdista, de forma com que a mesma aplaque sua fúria e não trate mais a direita como algo "golpista" e "ditatorial". Acontece que, diferente dos deuses das mais diferentes mitologias, que podem ou não aceitar o sacrifício, a entrega de Bolsonaro como "oferenda" é um esforço tão grande como inútil. Até porque opiniões bem mais amenas do que essa causam um furor quase tão implacável quanto. As declarações de Rodrigo Constantino sobre os "rolezinhos" no início do ano (ver aqui) e o polêmico caso Rachel Sheherazade (ver aqui o vídeo) não me deixam mentir.

Não, não estou dizendo com isso que Jair Bolsonaro deve ser blindado de críticas. Aliás, o fato de defender o regime militar e sua visão nacionalista, inclusive com ideias opostas ao livre mercado (que eu defendo) são motivos suficientes para eu fazer ressalvas quanto a um possível apoio, por mais que ele combata no Congresso os discursos esquerdistas em geral. Agora há uma diferença muito grande em fazer críticas quanto a algumas de suas ideias e principalmente em sua estratégia em apresentá-las (Luciano Ayan tratou exaustivamente disso, como pode se ver por exemplo aqui) e simplesmente entregá-lo ao furor da esquerda, que tão logo passe o frisson em assassinar a reputação de mais uma pessoa escolherá alguém que, por mais moderado que seja, acabe sendo alvo de chacota por tão somente não ceder em suas ideias (a propósito, isso já acontece, como citei no parágrafo anterior).

"Ah, mas Bolsonaro errou em falar da forma como falou para a Maria do Rosário!", pode argumentar agora um leitor deste blog. Sim, não vou discordar disso. Quando foi chamado de estuprador, em vez de dizer que ela não seria estuprada porque não merece, ele poderia - e deveria - processá-la, afinal, seria possível facilmente considerar as declarações da deputada petista como calúnia e difamação (pelo menos se eu estivesse no lugar do deputado). Mas também há uma gigantesca diferença entre tratar isso como uma grosseria e um erro (crasso) de estratégia para tratar isso como uma apologia ao estupro, como os grupos de esquerda estão tratando e alguns ligados à direita simplesmente ignoram esse detalhe. Como disse anteriormente, ele foi inicialmente ofendido e respondeu de forma bastante irônica à deputada, que resolveu fazer mise-en-scéne. Ele pode ter sido rude? Pode. Ele pode ter errado na estratégia? Pode. Ele poderia ter falado de outra forma? Poderia. Ele fez apologia ao estupro por causa disso? Óbvio que não!

"Ah, m-m-m-mas se ele disse que ela não merecia ser estuprada é porque outras merecem!", pode argumentar um(a) esquerdista ou feminista que certamente tomou um Dramin para ler o que estou escrevendo neste exato momento. E isso só provaria que quem defende essa afirmação, além de não saber interpretar texto ou um discurso qualquer, não tem a menor noção de lógica elementar (tudo bem, eu sei que vocês nem sempre costumam apelar para isso, mas é necessário, deal with it). Explico com uma breve sequência:
  1. A não (coloque um verbo aqui) B;
  2. Isso significa que (C, D...Z) pode (coloque o mesmo verbo do item 1 aqui) B.
Admitir que a primeira frase é correta não significa que a segunda, necessariamente, seja também. Por exemplo: se um estudante de uma sala não merece tirar uma nota alta, não significa que tenha outros estudantes que mereçam tirar uma nota alta (pode simplesmente não ter ninguém que mereça). Ou se um computador não suporta um dado programa ou sistema operacional, não significa que tenha outros computadores que deem essa condição. De forma análoga, o fato de Bolsonaro dizer que Maria do Rosário não seria estuprada porque não merece não significa (necessariamente) que existam outras mulheres que mereçam ser estupradas. Afinal pode ter ninguém que mereça ser estuprada (e de fato, ninguém merece ser estuprada). 

A propósito, isso me fez lembrar da campanha feita logo após da divulgação de uma pesquisa fajuta feita pelo IPEA que logo depois se revelou completamente errada (ver aqui), na qual diversas pessoas faziam questão de atribuir a responsabilidade do estupro pura e exclusivamente ao estuprador (e de fato é pura e exclusivamente do estuprador, o que acho estranho é não fazer isso aos demais crimes). Por que a opinião de vocês mudou tanto assim? O estuprador não era o único e pleno responsável pelas suas barbaridades? Ou será que ele agora antes de ser um monstro deram uma maratona de discursos de Bolsonaro para ele assistir? Vamos gente, decidam! Não posso esperar o resto do ano...

E eu aqui, pensando que a culpa dos estupros eram tão somente dos estupradores... (Fonte: Divulgação/Página do PT no Facebook)

Enfim, não é necessário defender Bolsonaro para considerar que a reação esquerdista às suas declarações, bem como a reverberação disso pela imprensa (ostensivamente chamada de "conservadora", só não sei o porquê disso até hoje) não passa de histeria coletiva. E hipócrita. E incoerente. E sim, mesmo que você seja direitista e alguém que não apoie o deputado, você não deve desconsiderar essa histeria antes de fazer críticas a esse.

Comentários

  1. Apoiadissimo!!!
    Até porque estamos todos sendo violentados financeiramente, ou seja, o foco do massacre está errado.
    Outro ponto importante é que antes de apoiar um disparate desse deveriam ver o vídeo, onde mostra a mulher dando uma de louca iniciou as ofensas e na minha opinião merecia fácil um vai tomar no !@#$.

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    1. Pois é. O pior é a imprensa "conservadora" divulgar só a parte que ele disse que Rosário não deveria ser estuprada porque não merece.

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