Capitalismo, consumismo e o Natal

(Fonte da imagem: G1)
Final de ano. Quase sempre acontece as mesmas coisas: as ruas e casas ficam mais bonitas com a iluminação e decoração especial, as pessoas tendem a ficar mais reflexivas diante do que fizeram ou deixaram de fazer ao longo dos quase doze meses, o comércio fica mais lotado (embora este ano a expectativa é de um período natalino fraco) e, até o período das festas de final de ano, o trânsito fica mais congestionado que o normal. Quando chega as comemorações propriamente ditas de Natal e Ano Novo, sempre rola aquele encontro com a família ou os amigos mais distantes (ou nem tão distantes assim, apenas impossíveis de se encontrar ao longo do ano), às vezes um amigo-X (amigo-choco, amigo-livro, amigo-sacanagem, amigo-qualquer coisa e assim vai) e, quase sempre, aquelas piadinhas ou perguntas infames, como "pavê ou pacumê?" ou ainda "e as namoradinhas?" (mesmo que saibam que você não seja um homem de muita sorte para a conquista). Como o final de ano é o período em que a elasticidade da paciência humana chega ao seu nível máximo, dá para suportar isso numa boa.

Mas o final de ano também revela alguns malas sem alça (ou aspirantes a esse posto), que fazem questão de escolher dezembro para destilar toda sua amargura. Basicamente se resumem a dois grandes grupos: aqueles que fazem questão de não comemorar o Natal utilizando o argumento de que Jesus não nasceu no dia 25, a data é um cosplay de diversas festas pagãs e todo aquele blá blá blá; e aqueles que criticam o consumismo inerente à data, aproveitando para requentar aquele discurso anticapitalista aprendido nas aulas de História e Geografia do ensino básico. Este último grupo será o foco do post de hoje.

De fato, entendo alguns dos motivos que os amargurados em relação ao consumismo de final de ano têm para ficarem dessa forma. Afinal, as pessoas muitas vezes acabam focando muito em presentes e no final se esquecem do que deveria ser o principal neste momento, que é passar mais tempo com os queridos, fazer um balanço dos acertos e erros do ano que passou e planejar o que pode ser feito de melhor para o ano seguinte. Também é compreensível que o consumismo acaba sendo maléfico no aspecto social e, sobretudo, ambiental, devido ao descarte cada vez maior de produtos que muitas vezes são pouco aproveitáveis em uma segunda destinação. Mas tem um terceiro aspecto do consumismo que passa batido quando este é criticado: ele é ruim para a economia de um país e, acima de tudo, subverte a lógica do capitalismo.

"Mas por que você está dizendo isso?", pergunta o amargurado ou aquele que realmente acredita que o consumismo é normal e benéfico para a economia. Bem, todos nós sabemos que o capitalismo é feito de ciclos, com seus auges e crises (sendo que ainda estamos sob efeito de uma). Mas é importante frisar que este ciclo coexiste com um outro ciclo, no qual existem fases em que é necessário poupar, fases em que é necessário investir e fases em que é necessário consumir. A alternância destas fases no tempo certo e com o mínimo de interferências é fundamental para o bom desempenho da economia, sobretudo em médio e longo prazo. Assim como é impossível um país se desenvolver somente na base do investimento ad infinitum (como no caso da China, que terá que rever seu modelo em breve), é igualmente impossível um país se desenvolver somente na base de consumo ad infinitum (como no caso do Brasil, que também terá que rever seu modelo em breve). A propósito, tanto a aposta em investimento como no consumo requer gastos e, não raras vezes, endividamento.

E por falar de endividamento...Bem, o principal malefício econômico do consumismo é justamente o descontrole nas dívidas, que acaba sendo agravado pelas políticas que favorecem o crédito farto e barato. Junte isso ao estágio quase primitivo da cultura financeira de boa parte da população brasileira (a existência de um Guido Mantega chefiando a Fazenda é apenas uma caricatura disso) e temos um cenário que é uma festa para políticos populistas que querem ter a imagem de quem "fez o pobre andar de avião" (mesmo que este corra o risco de nem poder viajar de ônibus no futuro) e de empresas que gostam do capitalismo de laços. E que diga-se de passagem, são os maiores e, talvez, únicos beneficiados.

"Ah, então você defende que o pobre não tenha acesso ao consumo, é isso?", brada um governista irritado. Não, longe de mim dizer isso, até porque acho que quanto as classes menos favorecidas terem acesso a itens antes só adquiridos por pessoas mais abastadas, como computadores, televisores LED, geladeiras frost-free e até mesmo um carro, melhor. O problema é quando isso é feito de forma insustentável, colocando até mesmo o que foi conquistado em risco. E este é o nosso caso, como já afirmei em diversas postagens neste blog (aqui e aqui, por exemplo).

Enfim, meu caro amargurado que leu este post até o final e que critica o consumismo, eu concordo com você nesse ponto. Saiba, porém, que esse é mais um dos vários inimigos ao bom funcionamento de uma economia capitalista. E quanto aos demais, não se sintam culpados por comprar um presente de final de ano para seu parente ou amigo. Mas resistam as tentações do endividamento "a perder de vista". E mais que o seu presente, eles querem a sua presença.

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