Caríssima Marcella Franco, culpa nossa uma ova!

(Fonte da imagem: UOL Entretenimento)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar uma postagem publicada pela Sra. Marcella Franco em seu blog "Bonitinha, mas Ordinária", hospedado no portal R7 (ver aqui). Nela, a jornalista resolve culpar os homens (!) pela situação dramática da modelo e apresentadora Andressa Urach, internada após uma infecção na coxa esquerda após uma aplicação de hidrogel. Antes de mais nada, pretendo adiantar para os leitores deste blog: o texto da Sra. Franco é muito ruim. Terrivelmente ruim. Impressionantemente ruim. Arrisco dizer que é o pior de 2014, uma vez que duvido que saia outro tão pavoroso neste resto de ano, mesmo considerando a habilidade fenomenal de Eliane Brum, Leonardo Sakamoto e Guilherme Boulos em escrever ruindades em rede nacional. Até peço desculpas em compartilhar algo do tipo neste espaço, mas ao final explico o motivo. Seguem abaixo os trechos (em azul), com comentários ao longo do mesmo.

"Qualquer que seja o desfecho do caso de Andressa Urach, o culpado será o mesmo. Quer ela saia do hospital, perca a perna, ou acabe morrendo, não importa – a responsabilidade é toda de vocês, homens.

Claro que nenhum cara a obrigou a injetar nada nas coxas ou em qualquer outra parte do corpo. Nem a fez, desde sempre, perseguir uma beleza e uma perfeição impossíveis, se modificando e violentando com intermináveis cirurgias e intervenções. Não, realmente estas opções foram todas da Miss Bumbum.

Mas, por trás disso tudo, de toda a paranoia sem medidas, há uma entidade que, ainda que sem perceber, controla as atitudes de todas as Andressas espalhadas pelo mundo, provavelmente até mesmo as suas, moça que lê agora este texto.

Esta entidade se chama raça macha."

Bem, o raciocínio por trás do discurso de Franco me lembra o de nossa presidente, que dizia que sempre por trás de uma criança havia um cachorro atrás como figura oculta, mas tudo bem, vamos tentar concatenar o que ela falou. Primeiro ela lança a culpa nos homens, depois ela lança uma sequência rápida de fatos que refutam completamente a ideia apresentada inicialmente, e em seguida ela resolve refutar a refutação, alegando uma existência de uma "entidade oculta" que controla as opções - sim, Andressa Urach tinha opções! - das mulheres, e por fim denomina essa entidade de "raça macha" (gênero virou raça, acreditem se quiser). Sobre a "raça macha", é importante fazer algumas ponderações que colocam em xeque a existência dessa "entidade oculta": esta é composta por aproximadamente metade da população dos países em geral, com indivíduos que possuem interesses e aspirações diferentes (em alguns casos, completamente diferentes), inclusive no que se refere ao gosto por mulheres. Mas uma coisa tanto este escriba como os leitores (homens) deste blog vamos concordar: gostamos, sim, de mulheres que gostam e cuidam de sua aparência. Da mesma forma que as mulheres irão concordar que tem apreço por homens que gostam e cuidam de sua aparência.

É outro detalhe importante: levando em conta apenas o que os homens consideram como "boa aparência" em mulheres, é um conceito que varia muito. Alguns gostam de loiras, outros de morenas, outros de ruivas, outros de mulatas...Alguns preferem um corpo digno de escultura, com um ótimo "conjunto" de pernas, seios e glúteos, outros preferem apenas um rostinho angelical...E, por fim, tem aqueles que não se importam com nada disso, sejam por gostarem de mulher independentemente de aparência ou simplesmente por não gostarem de mulheres. Bom para quem gosta, diria alguns (eu estou incluso nesta linha de raciocínio). De qualquer forma, isso já seria suficiente para pensar na ideia de que um "padrão único de beleza" imposto, seja para as mulheres, seja para os homens, não passa de um reducionismo patético.

"Por enxergarem cada vez mais as mulheres como itens descartáveis, os homens acabam levando as mulheres à insanidade absoluta. Por sermos tratadas, em nossa grande maioria, como mercadorias que devem estar sempre em sua mais absoluta e reluzente forma, nos concentramos em estar eternamente firmes, apetitosas, lisas, jovens.

É porque os homens nos trocam com tamanha facilidade pela menina mais bonita e mais nova que nos desesperamos. A culpa é de vocês se passamos a nos enxergar como inadequadas, imperfeitas, incompletas.

E óbvio que não foi sempre assim. Estávamos bem até pouco tempo atrás, e foi só quando vocês começaram recentemente a viver como se empurrassem carrinhos numa mercearia, escolhendo tudo pela aparência e abrindo mão por completo de algo que lembrava o amor verdadeiro, que a coisa desandou.

Vocês, agora, amam bundas, peitos, barriguinhas perfeitas. Deixaram no ar uma saudade de quando uma mente sagaz e um coração dócil tinham valor de mercado."

Sim, como disse em meu comentário anterior, tanto eu como meus colegas homens que leem este blog concordam que uma boa aparência é importante e chama a atenção. Mas acredite, Sra. Franco, para qualquer coisa nos dias de hoje, independente de sexo, idade, gênero ou qualquer outro critério, aparência tem sim muito peso. Ou você acha que mulheres não se importam com a aparência dos homens? Ou mais ainda, tem a "aparência" da conta bancária como critério mais importante, em alguns casos? Será que se seguirmos a lógica apresentada pela jornalista precisaríamos culpar as mulheres se nos transformássemos em workaholics insaciáveis apenas para garantir aquele salto alto ou um banho de loja com nossos cartões de crédito?

E outra: o fato de alguns de nós (mais uma vez estou incluso, e se eu dissesse que não estaria mentindo, muito embora uma mente sagaz e um coração dócil combinados é 10/10, afinal, mens sana in corpore sano) gostarmos de bundas, peitos e barriguinhas perfeitas, isso não significa que as mulheres precisam ou são obrigadas a sair por aí para passarem no primeiro açougueiro para tirar dali, colocar ali e por aí vai. A propósito, a jornalista nunca ouviu falar em academia não? Muitas mulheres já ouviram falar, e malham, não só pela aparência, que por sinal é bom se importar, mas principalmente pela saúde. Mas claro, isso leva tempo e requer muita disciplina, o que acaba levando algumas a recorrer a "atalhos". A propósito, quando os homens querem mais massa muscular e o tempo de academia não é suficiente, acabam recorrendo às "bombas". Alguns acabam desenvolvendo doenças graves ou mesmo morrendo por causa disso. Seria isso um resultado da manipulação da "raça fêmea" em nossos padrões de beleza e sua preferência por braços, abdomes e peitorais definidos (isso quando não acabam preferindo uma conta bancária polpuda)? Pelo amor dos céus...

"Porque não queremos ser trocadas, porque queremos ser escolhidas e mantidas, nos apressamos atrás das melhorias a qualquer custo, para conseguir um nariz (empinado) de vantagem em relação à nossa concorrente. Óbvio que amamos o belo para deleite próprio, mas há tempos que esse deixou de ser o nosso norte.

Estamos valendo tão pouco que o risco de injetar líquidos escusos no organismo acaba parecendo legítimo. Remendamos não só nossas formas, mas também nossa mente, em busca de ticar os pré-requisitos que vocês, homens, nos impõem. Nos preenchemos, esvaziamos, esticamos, cortamos fora – e é só quando uma tragédia como a de Andressa acontece que somos capazes de enxergar uma luz de coerência no fim do túnel.

Perturbadas com a história medonha da moça que só queria ser perfeita, passamos a nos questionar sobre até onde estamos indo. Nos indagamos se fomos longe demais, se o nível da crueldade que impomos a nós mesmas já não ultrapassou o limite há tempos, e se é chegada, talvez, a hora de parar."

Quanto a este trecho cabem duas ponderações: a primeira é algo que minha mãe me falou em diversas ocasiões e cai como luva: se você mesmo não se valoriza, os outros não irão te valorizar como deve. Sim, um pouco de autoestima faz bem nessas horas. E isso não é importante somente no cuidado com a aparência, mas também - e principalmente - na formação do caráter e da personalidade do indivíduo. Isso inclusive serve como parte da resposta ao próximo item destacado: se a autoestima de uma pessoa é tão baixa ao ponto de recorrer ao "vale-tudo", inclusive "entrar na faca" para alcançar o "corpo perfeito" (que é uma utopia), quem vai conseguir convencê-la do contrário? E outra: mesmo se os homens de fato impusessem os pré-requisitos não significa que impuseram os meios para alcançarem esses pré-requisitos. E não, não concordo (pelo menos não em sua totalidade) com a frase de Maquiavel.

"Mas, por mais que a identificação com Andressa nos leve à reflexão, é bem pouco provável que ela nos conduza à conclusão de que não somos os réus nesse processo todo – e que, na verdade, eles é quem são culpados.

Este texto é, sim, pretensioso a ponto de entender que está aqui para ajudar a nós todas. Para nos fazer botar, juntas, o pé no freio, e incentivar a contemplação de que talvez estejamos tentando capturar a atenção e o amor de uma maneira autodestrutiva demais, e que não vai nos levar a lugar algum. É uma guerra perdida – sempre haverá um corpo mais perfeito que o seu, mais jovem que o seu, mais gostoso que o seu.

E é quando vem a pergunta: E DAÍ?

Será só a partir do momento em que passarmos a viver por nós mesmas, e não pela guerra competitiva imposta pelos homens, que teremos, então, alguma chance de sairmos inteiras no final da história."

Reitero: são capazes de se arriscarem em operações proibidas e/ou arriscadas em nome do "corpo perfeito", assumem os riscos disso e ainda assim não são réus? São o quê, então? Vítimas? Isso me parece aqueles discursos em defesa do assaltante que queria apenas ter o iPhone do cidadão que estava andando na rua, ou ainda o ladrão que queria "apenas" dar um rolê de Mercedes...A propósito, não é a primeira vez que falo dessa questão de terceirização de culpa. E justamente pelo fato de ser uma "guerra perdida" que a autoestima é fundamental. Em qualquer aspecto da vida não se ganha sempre, e muitas vezes são necessárias várias derrotas para se alcançar uma vitória. Por fim, quanto a ideia de "guerra competitiva imposta pelos homens", mesmo se esta existisse de fato - e está muito longe de existir - é importante lembrar que o respeito às regras, em qualquer ambiente competitivo (esportes, negócios, mercado de trabalho, economia e relacionamentos), e, no caso, os limites do próprio corpo, são parte integrante. E o desrespeito às regras pode cobrar um preço muito alto.

No mais, chego a acreditar na tese que o texto da Sra. Franco não passa de uma estratégia "porta na cara", tamanhos os absurdos escritos. Talvez se surgir um texto com ideias quase tão ruins quanto, apenas escritas em um tom mais "dócil", mais pessoas (inclusive homens) acabem aceitando. Daí a necessidade de se rebater certas coisas na raiz.

Por fim, tanto eu como os homens que leram o post até o final podem dizer em alto e bom som (por mais que lamentemos a situação da modelo): culpa nossa uma ova!

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