Interpretação de texto: pistas do quanto ela está ruim

(Fonte da imagem: How Stuff Works)
Bem, por que no Brasil é tão difícil para as pessoas conseguirem interpretar um texto (não só escrito, mas também discursos)? Muitos de nós, assim como este que vos escreve, já tiveram o terrível desprazer de clicar no link de um portal de notícias ou mesmo de sua página no Facebook e na área de comentários você ler pessoas opinando algo de forma completamente torta em relação ao texto. Eu mesmo, inclusive, já tive que passar pelo calvário de quase desenhar para amigos meus o que alguma personalidade pública disse. Neste blog você pode conferir dois exemplos de como a ausência de noções mínimas de interpretação (somadas a uma boa dose de vigarice intelectual e ideológica, claro) de texto está levando boa parte dos brasileiros a um processo de emburrecimento sem precedentes, a saber, o quiproquó gerado pelas declarações de Rachel Sheherazade (clique aqui) e as famosas distorções de textos bíblicos para justificarem posicionamentos políticos esdrúxulos (clique aqui). Temos ainda o caso recente envolvendo o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que ao relembrar uma resposta irônica à deputada Maria do Rosário (PT-RS) foi acusado de fazer "apologia ao estupro". 

Hoje, uma matéria no jornal Folha de S. Paulo nos dá pistas do quanto ela está ruim. Segue abaixo:

"Um em cada quatro alunos do 5° e do 9° anos do ensino fundamental público está no nível mais baixo na avaliação nacional de português.

Para os estudantes mais novos, na casa dos 10 anos de idade, significa que eles não conseguem identificar o personagem central de uma fábula ou reconhecer o assunto principal de uma reportagem.

Eles tiraram nota abaixo de 150 – em uma escala que vai a 500. O mínimo esperado seria de 200, segundo análise de especialistas da área.

A situação refere-se a alunos em escolas estaduais e municipais, que concentram 85% das matrículas do país.

A tabulação das notas, feita pela primeira vez pelo Ministério da Educação, tem como base a Prova Brasil, avaliação federal aplicada a cada dois anos. Os dados são de 2013 e foram divulgados na sexta-feira (6), por meio de boletins para escolas.

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
No 9º ano, último do fundamental, 25% ficaram no patamar mais baixo na prova entre os oito possíveis.

Com idade na casa dos 14 anos, não conseguem localizar informações explícitas em trechos de romance. Tiraram média abaixo de 200, ante um mínimo adequado de 275.

Considerando o patamar esperado para as séries, 60% dos alunos mais novos estão com desempenho inadequado; entre os mais velhos, 76%.

Presidente da Undime (entidade que reúne secretarias municipais de educação), Cleuza Repulho reconhece ser "alta" a concentração de estudantes em nível mais baixo na língua portuguesa.

"É um dado importante para dar um choque de realidade e [mostrar] a responsabilidade dos gestores", diz. Para ela, o cenário indica necessidade de melhorias em etapa anterior, da alfabetização.

"Normalmente, os professores que vão para a alfabetização são os que estão começando a carreira. Seria bom fazer o contrário: colocar aqui os mais experientes."

Ela pondera ainda que o desempenho ruim em português tem reflexo nas demais áreas. "Tudo parte da interpretação de um texto."

Os dados permitem ainda que seja avaliado o desempenho em cada Estado.

Se na média do Brasil 24% dos alunos do 5º ano estão no pior nível de língua portuguesa, no Maranhão o percentual é de 50%. Já no Distrito Federal ele está em 10%.

Ao todo, 14 Estados têm desempenho abaixo da média nacional em português.

Anteriormente, a divulgação dos resultados da Prova Brasil focava as médias dos alunos, sem detalhar em qual patamar eles estavam. [...]"

Bem, conforme mostrado na reportagem e nos gráficos, dá para se perceber a proporção da ruindade e o cenário sombrio que nos espera nos próximos anos quando os estudantes de hoje forem os comentaristas de redes sociais do futuro: pelo menos seis de cada dez estudantes do ensino fundamental possuem um domínio do idioma inferior ao adequado. Mas se adotarmos como premissa de que o ideal seria do nível 5 ou superior (que ao final do 5° ano permite diferenciar opinião de fato e ao final do 9° ano permite diferenciar o significado de palavras e expressões em textos literários simples), apenas dois ou três de cada dez saberiam, por exemplo, interpretar um texto de maneira decente. E se chegarmos ao ponto de pedirmos que o jovem leitor entenda uma ironia ou saiba interpretar um trabalho acadêmico, por exemplo, talvez você não encontre um estudante que seja capaz disso por escola. Sim, são essas pessoas que estarão no ensino médio e, mais tarde, nas universidades. Neste último caso, após ler essa notícia, nem surpreende tanto o fato de que, por exemplo, tenha tantos analfabetos funcionais no ensino superior (ver aqui e aqui).

Não custa lembrar ainda que este quadro lamentável ocorre mesmo com a elevação dos investimentos em educação, e ainda há quem defenda a ideia de que dar o "dízimo" do PIB para a área será o elixir da cura de todos os males desta. Enfim, se você espera uma mesa de discussões ou uma área de comentários mais "limpa" nas redes sociais, trate de considerar a decisão de se desligar delas.

Em tempo: citei o caso do Bolsonaro e farei um post no final de semana sobre a treta. Vocês não perdem por esperar.

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