2012? No Brasil, 2014 - o ano que o país afundou de vez

Alguns dos momentos mais marcantes de 2014. (Fonte da imagem: acervo pessoal do editor)
No primeiro dia de 2014, após ter passado o Réveillon na casa de um amigo meu (ex-colega de curso e hoje aluno oficial da PM), disse a ele antes de me despedir para retornar a minha casa o seguinte: "se conseguirmos algo será graças apenas a nós mesmos, até porque se dependermos do governo para alguma coisa estamos ferrados" (na verdade disse um termo um tanto diferente em relação ao último, apesar de dizer a mesma coisa). Na época, tanto eu quanto ele (e creio eu que mais alguns que leem este blog) a ideia de que a combinação Carnaval, Copa do Mundo e Eleições, bem como os resquícios do turbulento segundo semestre de 2013 (devido aos protestos) iriam fazer deste ano algo tão imprevisível quanto lamentável, e que se fôssemos deixados levar pelas situações teríamos de longe o pior ano de nossas vidas. E de fato estava certo. Infelizmente (ou felizmente, dependendo da situação), mais certo do que eu imaginaria ou gostaria de estar.

O ano já começou bastante quente, com a polêmica em torno dos rolezinhos, que começaram em São Paulo e com rapidez se espalharam em vários shoppings no Brasil. O que era mais uma daquelas modinhas toscas que copiamos de fora (nosso país é especialista em copiar com mais frequência o que há de pior dos gringos) ganhou ares de luta de classes, graças a narrativa da imprensa "conservadora" que bateu na tecla de que existia uma tentativa de ocupação dos espaços destinados às classes média e alta pelos mais pobres (a maioria negros, só para frisar). A tese, estapafúrdia por sinal, ganhou forma após os "rolês" ganharem o reforço de movimentos sociais. Não fosse isso o bastante, alguns dos organizadores desses eventos acabaram se unindo à União da Juventude Socialista (UJS), ligada ao PC do B, sendo que alguns se desfiliaram. Não se pode deixar de mencionar a reescalada dos protestos contra a Copa do Mundo e, claro, o agravamento da estiagem iniciada em dezembro passado no Centro-Sul do país, situação que levaria São Paulo ao quase colapso no abastecimento de água.

Em seguida, veio a polêmica em torno das declarações da jornalista Rachel Sheherazade, apresentadora do SBT Brasil, que ao dizer que era compreensível que um garoto que roubava pessoas na rua fosse amarrado no poste causou furor de grupos ligados às esquerdas e defensores de direitos humanos pelo fato de apoiar a justiça com as próprias mãos. De fato, é compreensível entender uma reação tão histérica, dado que moramos em um país em que as pessoas, mesmo aquelas com diploma de universidade embaixo do braço, interpretam uma notícia ou opinião de forma mais precária que algo escrito em papel higiênico (ainda existe aqui, algo que nossos vizinhos venezuelanos não têm a mesma sorte, infelizmente). O que não é compreensível é somar isso a doses cavalares de vigarice ideológica e intelectual para justificar uma censura à opinião de alguém que não adote um discurso gourmet em relação às mazelas de nosso país.

Após isso, veio outra polêmica: a de uma pesquisa mandrake feita pelo IPEA na qual a maioria supostamente concordava que mulheres que usavam roupas curtas mereciam ser atacadas e que se as mulheres se comportassem haveria menos estupros. Óbvio que o resultado da pesquisa (antes que eu me esqueça: a amostra era de apenas 0,002% da população brasileira e 2/3 dos entrevistados eram mulheres, o que já tornaria qualquer conclusão em cima disso extremamente suspeita) causaria furor e a pífia e patética campanha "eu não mereço ser estuprada", com direito a ecos na grande mídia. Acontece que foi descoberto um erro primário, resultado de uma troca de colunas no Excel, que reduziria de 65% para 26% a porcentagem de entrevistados que concordavam que mulheres com roupas curtas mereciam ser atacadas. O "levantamento" caiu por terra e a campanha seguiu o mesmo caminho. Independente disso, por que não levar igualmente a sério a ideia de que se as mulheres não merecem ser estupradas por conta de roupa curta (algo que é impossível de não concordar), pessoas não sejam assaltadas por usar um iPhone na rua? Ou então andar de Mercedes (não me refiro ao ônibus) por aí?

Mais adiante teve o primeiro ápice (tanto no sentido positivo como no sentido negativo): a Copa do Mundo. Se pensarmos que a expectativa para o evento era de um quase inevitável desastre, o Mundial foi, até certo ponto, bom, seja dentro ou fora de campo (um ponto crítico), apesar do governo, dos protestos contra o evento e da constrangedora reação de jornalistas da ESPN diante das vaias que a presidente Dilma Rousseff recebeu na abertura do evento (e que receberia na final). Como eu (e mais uns poucos) imaginava, o Brasil não faturou o hexa em casa. Só não esperava um final de participação tão catastrófico, com direito a dez gols tomados em apenas dois jogos (mais que a soma de gols nas fases anteriores e o mesmo tanto das três edições anteriores). E para o bem do futebol, a Alemanha finalmente conquistou o tetracampeonato.

Findo o "conto de fadas" do Mundial, se aproximava outro ápice: a hora que teríamos de escolher quem deveria governar e legislar nos estados e no país. Mas antes disso teríamos que ver como escolhas não muito racionais - para ser bastante generoso - levam a consequências quase trágicas. Se eu fosse um pouquinho mais insensível me perguntaria como pessoas que acham seguro que seus filhos brinquem com tigres são permitidas a votarem. Mas deixem baixo isso.

E chegou a hora de falar de eleições...E que eleições! A histórica (e, às vezes, fake) polarização entre PT e PSDB quase foi rompida devido à morte de Eduardo Campos (candidato à presidência pelo PSB) e à ascensão meteórica de Marina Silva nas pesquisas eleitorais. A campanha agressiva (e suja) da presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff desfez este possível cenário, reconduzindo este à "normalidade", com um segundo turno entre a situacionista e o tucano Aécio Neves. A disputa, uma das mais acirradas desde 1989 e com uma troca sem precedentes de farpas, acusações e ofensas, acabou terminando com a atual presidente reeleita. O mais legal de tudo é que tão logo se passou o término da apuração das urnas esta simplesmente acabou fazendo praticamente o que seus adversários supostamente fariam caso fossem eleitos. Com direito a um ex-membro de um banco e do FMI para o Ministério da Fazenda. Quem te viu, quem te vê, hein Dilma...

A propósito, junto com as temáticas sociais e de violência (seja a do dia-a-dia, seja a de terroristas black blocs que acabaram finalmente tendo o sangue de alguém em suas mãos, no caso o do cinegrafista Santiago Andrade), a economia foi um tema recorrente no Brasil este ano. Crescimento quase nulo, inflação acima do teto da meta e contas públicas deterioradas (com direito a uma votação no Congresso que livrasse o governo federal de cumprir a meta de superávit primário que ele mesmo estabeleceu) foram o resultado final. Não que esperávamos algo muito melhor que isso, mas uma trupe comandada por Guido Mantega sempre capricha na ruindade.

Pelo menos no contexto brasileiro, 2014 acabou com algumas semanas de antecedência. O que temos neste momento é um vácuo temporal que tenta-se preencher com polêmicas requentadas (o caso Bolsonaro vs. Maria do Rosário é um exemplo), ou com vitimismos mais sem graça que piadas "pavê ou pacumê". O jeito é pensar em 2015 (ou nem isso, uma vez que será um ano mais de "arrumação da casa" do que para se pensar em algo melhor), que ainda nem começou. E o pensamento de que "se dependermos do governo estamos ferrados" continua válido.

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