Tempos de retrocesso

(Fonte da imagem: USP)
Em resposta ao artigo “Nunca se roubou tão pouco” de Ricardo Semler, publicado na Folha de São Paulo.

O texto de Ricardo Semler argumentou que a corrupção no país é estrutural e histórica e que vem diminuindo ao longo das décadas em relação ao PIB brasileiro.

Nos governos militares, sendo uma ditadura, não há transparência dos gastos e, portanto, é um ambiente propício para corrupção. Todavia, cumpre informar que há uma relação entre percepção de corrupção entre a população e o tamanho de intervenção estatal.

Nesse sentido, o intervencionismo foi marca dos regimes militares no Brasil, tal como tem sido o lulopetismo. Destarte, em países cujo estado é maior, a percepção de corrupção é maior também. Empiricamente é possível notar que um estado gigantesco é um ambiente favorável a maior corrupção.

Ademais, o PIB brasileiro cresceu muito nas últimas décadas. Logo, caso os valores desviados em absolutos hipoteticamente se mantivessem, isso por si somente (e não a diminuição da corrupção) faria com que o percentual em relação ao PIB diminuísse.

Salienta-se que há uma minoria manifestando-se por um (absurdo) retorno dos militares. É perceptível que a insatisfação é generalizada “com o que está aí”, não com uma aclamação com retorno dos militares – que, para mim, deveriam permanecer no quartel.

Sobre a suposta evasão de R$ 1 trilhão de reais de empresários, fiquei ainda mais cético com a argumentação trazida pelo texto. Afinal, foi comparado práticas de diversas empresas por um período de várias décadas com a postura por uma década de um partido perante uma empresa de capital misto. Até que ponto é válida essa comparação?

Pondero que o governo atual acertou ao lançar mão de bons programas sociais, alguns inspirados na Escola de Chicago, entretanto mal estruturados, pois o foco não parece ser a emancipação dos indivíduos, porém sim suas respectivas dependências. Essa sensação ocorre porquanto o governo parece comemorar quando o volume de pessoas beneficiárias dos programas sociais aumenta. Fica a reflexão: até que ponto isso é mérito ou demérito?

Sejamos francos, em que se pese os diversos escândalos que entram e saem do noticiário com uma velocidade que sequer conseguimos acompanhar, o governo atual foi reeleito. Sem dúvida esses programas corroboraram para tanto.

No que tange aos “partidos de aluguel”, acabar com o fundo partidário e o horário eleitoral gratuito me parecem ações que atacam o problema e não os seus sintomas, sendo, portanto, efetivas nesse sentido. Isso afastaria os partidos do estado, os forçando a se aproximarem do eleitor.

No que se refere à corrupção mencionada a multinacionais, vale dizer que isso não diz respeito a corrupção pública, não é nosso dinheiro que está lá. Ademais, não houve qualquer evidência material que acompanhou o texto. Outro ponto a se destacar é que mesmo que isso seja uma prática conforme mencionado, a mesma reduz a competitividade da própria empresa, sendo certamente um enorme prejuízo para a organização.

Quero acrescentar, ainda, que em sucinta pesquisa no site transparency.org em seu ranking de percepção de corrupção verifica-se que a posição do Brasil, que em 1999 era 45º, despencou para 72º no ano de 2013. Vivemos tempos de retrocesso, mormente ao verificar a aprovação da flexibilização do superávit, o que na prática rasga a Lei de Responsabilidade Fiscal.

É claro que a corrupção é também uma questão cultural, mas moralmente deixar de pegar o recibo de um médico e desviar bilhões de reais dos cofres públicos possuem o mesmo peso?

Por fim, sobre o sentimento de a partir de agora ter ‘orgulho e esperança’, gostaria de ter o mesmo otimismo de Ricardo Semler. Ao meu ver, a expectativa para os próximos anos do que acontecerá em Brasília apenas contribuirá para o aumento do consumo de antidepressivos.

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