A polêmica do salário mínimo alemão

(Fonte da imagem: Público - Portugal)
Olá amigos leitores do Minuto Produtivo! Esta é a minha primeira postagem como colunista do site, e antes de ir ao núcleo da polêmica, gostaria de saudá-los e avisá-los que este não será um evento único e que a partir de agora estou integrando a equipe de editores do site. Espero poder trazer opiniões que enriqueçam o debate tanto político quanto econômico e que, acima de tudo, gostem dos meus textos e opiniões. Uma vez saudados, vamos ao que interessa...

O Jornal "O Globo" noticiou uma nova goleada de sete da Alemanha sobre o Brasil. Não, desta vez queridíssimo leitor, não é no futebol e sim na economia. O jornal da família Marinho fez uma gozação conosco, brasileiros, sobre o fato de o salário-mínimo implementado na Alemanha ser sete vezes maior que o pago em nosso queridíssimo país. Há nesta notícia uma sequência erros de sugestão que destrincharei. Primeiramente demonstrarei que o nosso "Brasil brasileiro" não foi goleado pelo salário-mínimo especificamente, mas sim por nossa própria história e também nossa própria ineficiência. Na sequência demonstrarei que essa medida (salário-mínimo) está mais para uma vitória da oposição à Merkel, do que da própria chanceler democrata cristã. E por fim, que essa medida não garante nenhuma melhora substancial para a economia alemã e que a "sugestiva" ideia de aumentar o nosso salário em sete vezes para empatar o jogo como os alemães não deveria ser feita no Brasil.

Vamos à primeira parte. É uma crença inocente a tal goleada salarial, pois ela parte do princípio de que o governo pode colocar o salário-mínimo em qualquer patamar e que todos os empresários o pagarão de bom grado. Nosso salários não são baixos apenas por causa dos nossos políticos corruptos e malvados, mas sim porque nós, trabalhadores brasileiros, somos caros e produzimos pouco. Nossa CLT varguista, descende da "Carta del Lavoro" de Benito Mussolini, e impõe um custo grande aos contratantes. Ou seja, ou o governo arranja um meio de tornar o trabalhador brasileiro caro e produtivo o bastante em pouco tempo, ou continuaremos caros e pouco produtivos. Há uma alternativa, revisar a CLT e flexibilizá-la, mas nós sabemos - sejamos realistas - que nenhum político brasileiro tem mais que uma bola e meia nos testículos para propor o barateamento da mão-de-obra local.

Uma vez que Brasil e Alemanha estão em patamares históricos tão diferentes, é necessário colocar em pratos limpos tal situação e analisar isso dentro de um contexto sócio-histórico adequado. A produtividade do trabalhador alemão é maior que a do brasileiro desde sempre. A produtividade maior do trabalhador alemão aumenta a lucratividade do trabalho e, na competição pelos melhores trabalhadores, permite o aumento das remunerações. O que é a causa desse acontecimento? Educação de qualidade, tanto a nível humanístico quanto no nível técnico-profissionalizante.

A Alemanha tem uma população culta desde muito antes do Brasil pensar em ter escolas laicas para ensinar o bê-a-bá aos índios. A Reforma Protestante tornou a Bíblia em alemão acessível aos povos germânicos e possibilitou, e estimulou a alfabetização e a massificação da cultura. Foi graças a isso, mais de 400 anos de adiantamento em projetos educacionais, que permitiram aos alemães garantirem seu lugar ao sol. É quase certo que, sem Lutero e sua reforma, talvez nem Kant, nem Hegel, nem Nietzsche teriam tido tamanho impacto na cultura de suas nações. De nada adianta ter gênios em suas pátrias, se seus conterrâneos não sabem ler e não podem desfrutar dessa genialidade. Mesmo hoje, a educação ainda é o motor da economia alemã.

A Alemanha, apesar de ser uma latecomer na economia, se industrializou primeiro que o Brasil, que durante o fim da República Velha e o Estado Novo ensaiava uma industrialização forçada, algo que só viria se realizar em escala grande o bastante na administração de Juscelino Kubitschek (PSD-MG) e durante o Regime Militar (1964-1985). Contudo, o nosso país ainda não é totalmente industrializado, ainda estamos nos industrializando gradativamente, embora estejamos - é verdade - num nível bastante avançado quando em comparação com os demais países subdesenvolvidos, sejam do nosso continente, como Venezuela e Cuba, ou do resto do mundo como África do Sul e Egito. Em suma, comparar a sociedade e o capitalismo brasileiro com a sociedade e o capitalismo alemão é como comparar um time como o Sport Club Internacional, fundado a mais de 100 anos atrás com um time recém-fundado e dizer que o Inter está goleando o time pequeno em quantidade de títulos, craques e proezas. É desproporcional e ilusório.

Para confirmações destas informações, basta ler o excelente trabalho feito pelo historiador da economia Jacques Brasseul, no seu livro "História Econômica do Mundo: Das origens aos subprimes", publicado pela editora texto e grafia, de Lisboa.

O segundo erro do artigo, é a sugestiva aparência de que a aprovação desse salário mínimo não tivesse sido feita á contragosto da chanceler Angela Merkel e de seu partido. Foi, na verdade, resultado da busca por "governabilidade". Expliquemos: como o FDP (Partido Liberal), principal aliado da Democracia Cristã, conseguiu a proeza de não eleger ninguém para o Bundestag, a CDU se viu forçada a um governo de coalizão com o os seus rivais sociais democratas. (Fontes: 1, 2)

Merkel, inclusive, considera as leis de salário mínimo como um impeditivo a criação de novos empregos. Atenção caro leitor: não se trata aqui de um juízo de valor se isso é bom ou ruim, verdadeiro ou falso, mas sim de se colocar os fatos em pratos limpos e medi-los pelo o que eles de fato são.

O terceiro erro da matéria é sugestionar que o salário mínimo de fato subiu para R$ 788,00 e que tudo está melhor do que antes. Nada mais falso! O salário mínimo subiu apenas nominalmente, o seu valor real é inferior ao seu poder de consumo no primeiro ano do governo Dilma, e a razão é bastante simples: O real está desvalorizado. Em 2011, o salário-mínimo era de R$ 540,00, porém o Dólar custava R$ 1,85. Hoje o salário mínimo é de R$ 788,00, mas o dólar custa R$ 2,76; isso despenca o valor do salário em quase R$ 6,00 em relação a 2011. E para piorar o erro, o título do artigo induz à crença de que o governo poderia aumentar o salário amanhã em 7 vezes, e que nós todos estaríamos mais felizes e mais ricos. Ledo engano. Um aumento desses criaria desemprego, uma vez que apenas trabalhadores cuja produtividade correspondesse ao valor desse mega-salário seriam mantidos. A diferença seria pequena em favor de poucos sobreviventes no mercado, e enorme em desfavor de milhares, talvez milhões de trabalhadores que perderiam seus empregos.

Ou seja, podemos resumir esses três erros em três tópicos corretivos.

1- A Alemanha não goleia o Brasil pelo valor de seu salário-mínimo, mas sim pela sua aposta num capitalismo de mercado após os anos de protecionismo iniciais de Bismarck e List (protecionismo educativo), do nazismo de Hitler e pelo alto grau de educação de seus cidadãos, que são cultos e produtivos.

2- Os democratas cristãos adotaram o salário mínimo a contragosto, e isso não necessariamente significa melhoria social, uma vez que o salário-mínimo exclui parte da mão-de-obra mais barata do mercado, ou seja, desemprego. A adoção dessa medida tem que ser pesada muito meticulosamente, pois os danos que um erro nessa medida pode causar são devastadores.

3- E por fim, além do brasileiro assalariado hoje ser mais pobre do que era a 4 anos atrás, é ilusória a crença de que aumentarmos os ordenados, as pessoas se tornarão mais ricas.

Bem-vindos ao mundo real da economia.

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