A santa ingenuidade da Folha de S. Paulo e o MPL

(Fonte da imagem: Exame)
Bom dia pessoal. No último final de semana, fiz um post neste blog falando um pouco dos aspectos econômicos da ideia do "passe livre". E fui enfático em dizer que a ideia, por si só, é uma vigarice intelectual, uma vez que para alguém que use sem pagar o transporte coletivo haverá a necessidade de alguém que pague, às vezes sem usar. "Ora, mas isso é óbvio, né cara pálida?!", dirão alguns. Pois é, aqui no Brasil ainda é necessário discutir coisas óbvias. É necessário que um Ministro da Fazenda esclareça isso. Na verdade não surpreende tanto se pensarmos que os candidatos às universidades, que eventualmente engrossarão tais movimentos no futuro, possuem um desempenho pífio em matemática e redação. Aliás, o ano passado foi recheado de exemplos em que obviedades em qualquer lugar no mundo precisam ser detalhadamente discutidas e explicadas no Brasil, como exemplifiquei em um post no dia 12/12/2014.

Hoje, a Folha de S. Paulo publicou um editorial cobrando um posicionamento claro do MPL (Movimento Passe Livre) em relação aos black blocs, grupos (ou para não incomodar os "sensíveis", adeptos de uma tática) que adotam o quebra-quebra de patrimônio alheio como meio de protesto. Por mais que tentem fazer uma crítica ao movimento organizador da última onda de manifestações eles falham pela ingenuidade e pela falsa simetria moral em alguns pontos. Seguem alguns trechos (em azul), com comentários após os mesmos:

"[...] Reeditam-se agora, guardadas as devidas proporções, as manifestações de junho de 2013, que tiveram o efeito não só de impedir o reajuste das passagens mas também de revelar um saudável inconformismo com a precariedade dos serviços públicos no país.

Também se repete, contudo, uma parte lamentável desse roteiro: depois de terem participado de uma caminhada pacífica, alguns manifestantes se desgarram dos demais para protagonizar cenas de vandalismo e violência, às quais se segue a reação truculenta e desastrada da polícia.

São os adeptos da tática "black bloc", em geral jovens encapuzados vestidos de preto que veem na depredação do patrimônio público e privado uma forma legítima de protesto. Sua presença nos atos demorou a ser destrinchada um ano e meio atrás, mas hoje já não representa nenhuma surpresa.

Não é aceitável, assim, que as tropas de segurança ainda se mostrem incapazes de conter esses grupos sem ameaçar, ao mesmo tempo, os diversos princípios democráticos em jogo. Seria de esperar que estivessem mais bem preparadas para assegurar o respeito à lei.

Tampouco é aceitável, entretanto, a atitude do Movimento Passe Livre (MPL). Responsável pela convocação das manifestações, a organização se recusa a condenar o "modus operandi" dos vândalos. [...]"

Não sendo o assunto central desta postagem, portanto abro um parêntese: qual era o pedido diante desse inconformismo com a precariedade dos serviços públicos no país? Que os mesmos responsáveis por estes serviços precários atuem cada vez mais. Qual a probabilidade de isso dar certo? Bem, finalizado o parêntese, percebe-se que o editorial da Folha já começa mal no sentido de criar equivalência moral entre os policiais e os black blocs. Não, não estou dizendo que todas as ações da PM sejam justificáveis e que esta age corretamente o tempo todo. Só que há uma diferença considerável - para dizer o mínimo - de um agrupamento ter o direito ao uso legítimo da força por parte do Estado no sentido de garantir a segurança e a ordem pública (não custa lembrar que tumultos são perturbações da ordem pública, como pontuei de forma bem clara em um de meus posts sobre os rolezinhos) e se exceder no cumprimento de seu papel e um grupo de pessoas que não possuem prerrogativas de garantir a segurança ou a justiça de alguma coisa achar que podem empregar violência gratuita em nome de sua causa.

Não que essa tática por parte da imprensa de tratar policiais e terroristas (sim, black blocs são terroristas e deveriam ser tratados como tal) como lados moralmente equivalentes de um conflito seja novidade (mesmo antes de junho de 2013 tal método já era costumeiramente usado em situações de guerra), mas a recorrência em que os jornalistas adotam esse método, somada à ingenuidade em torno da postura do MPL (que tratarei mais adiante), acabou me levando a fazer um comentário sobre este ponto. Aproveito que citei as situações de guerra para traçar um paralelo entre os black blocs e os terroristas do Hamas (guardadas as devidas proporções, para ficar bem claro), que se envolveram em um conflito no ano passado contra Israel após dispararem foguetes contra seu país: o grupo terrorista islâmico efetua os disparos a partir de estruturas civis (hospitais, escolas, mesquitas, etc.), que são utilizadas como escudo. Os black blocs depredam patrimônio alheio e enfrentam a polícia utilizando manifestantes (em tese) pacíficos como escudo. As Forças de Defesa de Israel possuem o dever de responder às agressões dos terroristas e de proteger vidas e patrimônio de seu país. A PM de SP possui o dever de responder às agressões dos baderneiros (não chamei agora de terroristas para não desagradar aos leitores mais chatos) e proteger vidas, patrimônio e a ordem pública. A não resposta das FDI implica em risco para a vida e o patrimônio os cidadãos israelenses. A não resposta da PM de SP implica em risco para a vida, o patrimônio e a ordem pública dos paulistas. É logisticamente impossível realizar uma operação "cirúrgica" para eliminar os terroristas do Hamas. Assim como é igualmente impossível em termos de logística a polícia escolher um por um os vândalos a serem presos.

Da mesma forma que as Forças de Defesa de Israel têm o uso legítimo da força e o Hamas não, a PM de SP também tem o uso legítimo da força, enquanto que os black blocs não. Sendo assim, mesmo admitindo que haja erros de ambos os lados, tanto nos conflitos em Gaza como nas confusões que ocorrem após os protestos daqui, não há equivalência moral entre os policiais e os black blocs. Da mesma forma que não há equivalência moral entre Israel e o Hamas. E como adendo, digo que tanto a ação militar israelense em contra-atacar o Hamas como a da polícia paulista para dispersar e deter os vândalos são defensáveis.

"Na superfície, o MPL alega não poder escolher quem participa dos protestos, mas por baixo do verniz democrático se esconde a verdadeira razão: o tumulto e o confronto integram uma fórmula eficaz para ampliar a repercussão dos eventos, embora nem sempre com o foco nas legítimas demandas.

Não há de ser por acaso que tantas outras entidades consigam terminar suas passeatas sem que se registrem episódios de descontrole. Nem todos os movimentos escolhem o caminho da violência porque a violência isola os movimentos que escolhem esse caminho.

O MPL tem mais uma oportunidade de mostrar de que lado está. Se insistir na omissão diante do quebra-quebra, será mais honesto abandonar o papel de vítima e assumir o de cúmplice."

Finalmente a Folha de S. Paulo descobriu a pólvora: o MPL vê nos black blocs como "aliados úteis" na causa. Afinal, ainda que da pior forma, estes dão visibilidade às manifestações, não precisam ser assumidos como parte integrante pelos militantes da "tarifa zero" e, por cima, criam um álibi de truculência policial, construído com a omissão, ou pior, da conivência da grande imprensa. Ainda assim, mesmo enxergando o óbvio (pelo menos é óbvio para mim há algum tempo) a Folha ainda diz que se o MPL insistisse na omissão seria mais honesto a este deixar o papel de vítima e assumir o de cúmplice. Ora bolas, o jornal acompanha in loco todos os entreveros e ainda tem dúvidas de que o MPL é conivente com as ações dos vândalos? Precisa realmente do MPL assumir alguma coisa diante de indícios tão claros e inequívocos ao longo de, pelo menos, 18 meses?

Santa ingenuidade, hein Folha!

Em tempo: alguns dos protestos que não terminaram em descontrole foram, por exemplo, os que pediram o impeachment de Dilma Rousseff e até mesmo intervenção militar. As críticas da imprensa, inclusive da Folha de S. Paulo, foram muito mais pesadas. Talvez achem melhor ter outro Santiago Andrade.

Em tempo 2: nos protestos sempre surgem aspirantes a Hamas. Infelizmente não há pelo menos um prefeito que seja um aspirante a Netanyahu.

Em tempo 3: tanto lá em Israel como aqui no Brasil desproporcional é 7 a 1.

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