As lições de "O Mapa e o Território" - Parte 1

Alan Greenspan, autor do livro O Mapa e o Território. (Fonte da imagem: Time)
O artigo de hoje no Minuto Produtivo é, de forma básica, uma resenha do livro O Mapa e o Território, de Alan Greenspan, economista e ex-presidente do Federal Reserve (Banco Central) dos EUA. Sua obra, lançada em outubro de 2013, traz algumas reflexões e alertas sobre a economia mundial (com foco, claro, na norte-americana) após a crise de 2008, bem como algumas medidas que podem - e devem - ser tomadas para que no próximo tombo financeiro o mundo não sofra uma devastação tão grande. Alguns pontos do livro de Greenspan são bastante importantes, servindo inclusive de lição para o Brasil. Hoje resenharei os sete primeiros capítulos (no final de semana farei isso com o restante do livro).

No primeiro capítulo, intitulado "Espírito animal", o autor explana alguns aspectos do comportamento humano que devem ser levados em conta na economia (ele os chama de propensões): medo e euforia, aversão ao risco, preferência pelo presente, comportamento de manada, dependência, interação, preferência local, competição, código de valores, otimismo, viés de parentesco, interesse próprio e, por fim, a autoestima. Propensões essas que possuem efeitos positivos como negativos, dependendo do momento e da intensidade que elas são acionadas. Apesar do fato de essas propensões relativizarem a racionalidade humana, esta última em longo prazo serve de moderadora dos "espíritos" que guiam os agentes econômicos.

No segundo capítulo, Greenspan faz uma breve descrição de alguns aspectos e fatores que precederam a grande crise econômica de 2008: os perigos mais complexos provenientes do shadow banking system (sistema bancário paralelo); os riscos gerados por um sistema bancário com baixas reservas de capital (que já tiveram no século XIX reservas de capital superiores a 50% de seus ativos e atualmente possuem entre 5% e 15%), que poderiam servir de "amortecedor" para o caso de um default de uma instituição financeira; os bancos too big to fail (grandes demais para falir), que se expandiram de forma explosiva nas décadas anteriores à crise, não necessariamente possuindo economias de escala melhores em relação à um banco de menor porte e cujo principal malefício à economia são os subsídios para evitarem a quebra dessas instituições, que reduzem a eficiência do sistema financeiro e a alocação de capital; o fracasso da gestão de risco das instituições financeiras; o fracasso das agências de classificação de risco (em avaliar com nota máxima títulos extremamente tóxicos ao mercado); o fracasso dos reguladores (sim Boulos, o sistema financeiro americano era amplamente regulamentado, só que essa regulação não funcionou); o déficit de capital; a questão da dívida importar tanto em sua quantidade como em sua qualidade; a identificação dos ativos tóxicos; e, por fim, a "embriaguez" que longos períodos de estabilidade com crescimento pode gerar nos agentes econômicos.

O terceiro capítulo é uma exposição do autor sobre as raízes da crise: o crescimento do mercado dos subprimes, que sofreu uma demanda ainda maior a partir da necessidade da Fannie Mae e da Freddie Mac, empresas patrocinadas pelo governo norte-americano, de cumprir exigências de metas habitacionais estabelecidas pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano, o que na outra ponta significou uma oferta de financiamentos a um grupo novo de potenciais proprietários, que não podiam pagar um empréstimo convencional nem mesmo as exigências de uma hipoteca subprime prefixada, restando apenas as hipotecas de taxa variável, sendo que estas seriam o estopim da onda de inadimplência que precedeu a hecatombe de 2008. Para piorar, a contabilidade dessas empresas patrocinadas pelo governo era defeituosa, o que tornou mais difícil a detecção do tamanho real do problema. Além disso, a alta alavancagem gerada pelas reduzidas exigências de capital bancário foi outro ingrediente que aumentou o desastre.

No quarto capítulo, o de leitura mais árida na minha opinião, é uma breve explicação do economista sobre a bolsa e o mercado de ações, com foco nos aspectos gerais que rondam o mesmo: o medo e a aversão ao risco, a reação dos investidores na alta e na baixa, a ação dos pequenos investidores, o preço dos ativos, o efeito do mercado financeiro na economia real, a reação do governo aos ganhos de capital, entre outros. Nas duas seções finais do capítulo, Greenspan explica de forma detalhada questões envolvendo uma quantificação das expectativas de um investimento e a influência da cultura corporativa das organizações no mercado.

Após isso vem o quinto capítulo, talvez o mais importante dos sete primeiros, no qual o autor fala da questão da regulamentação do sistema financeiro. Apesar de criticar algumas falhas do sistema financeiro que ajudaram a produzir o cenário devastador da crise de 2008, o autor rechaça a ideia de que uma regulamentação governamental mais intensiva seria a solução, dizendo que isso poderia acabar sendo contraproducente, gerando distorções de mercado e limitando o crescimento econômico (ele cita a Lei Dodd-Frank ao longo do capítulo). Nele, o ex-presidente do Fed defende uma limitada regulamentação econômica, no sentido de identificar e inibir os comportamentos irracionais que os agentes econômicos venham a ter, com ajustes nos níveis de capital regulatório ajustado pelo risco, de liquidez e de garantias exigidas pelas contrapartes, bem como uma necessidade de uma relação entre capital (próprio) e ativos mais alta. Sem falar que o autor ataca a questão da doutrina dos "grandes demais para falir", instituições financeiras que, segundo ele, ameaçam o uso da poupança produtiva nacional e produzem uma situação típica de "capitalismo de compadres". Tais instituições, para Greenspan, devem ser fatiadas em empresas menores ou, em casos mais complicados, encerradas progressivamente, reduzindo de forma gradual a dimensão dos empréstimos que elas podem fornecer. Em última instância, elas devem ser deixadas para quebrar.

O sexto capítulo trata-se de uma descrição histórica feita por Greenspan no aspecto informacional do ambiente econômico e a influência de meios de comunicação cada vez mais velozes na tomada de decisões, bem como nas previsões macroeconômicas, bem como a influência política e a importância da independência do Federal Reserve. Outro capítulo com leitura árida, só perdendo para o quarto.

Por fim, vem o sétimo capítulo fala da questão da incerteza como um freio à disposição de se fazer novos investimentos, sendo que no meio empresarial norte-americano, a continuidade deste clima se deve ao extenso ativismo governamental na sua tentativa de agir em vários setores para acelerar a retomada da economia e regular o sistema financeiro (ressalvando as devidas proporções isso não faz lembrar de um país continental localizado na América do Sul?). Neste ponto, Greenspan alerta que uma intervenção maciça do governo tem o risco de retardar o ajuste, tornando-o mais problemático em longo prazo (isso te lembra alguma coisa por aqui?). Enfim, ele defende que no final das contas os mercados busquem o reequilíbrio após uma crise, com as empresas ineficientes sendo deixadas a seguir a trajetória de falência, o que evita o cenário de compadrio em que pesaria mais o aspecto político que o econômico de fato.

Meu comentário final é que os sete primeiros capítulos deste livro são bastante interessantes para aqueles que gostam de uma boa discussão sobre economia. Possuem uma descrição boa dos fatos (para um leitor comum) e, para aqueles que gostam de estatísticas, tem vários gráficos ao final do livro, com explicações sobre as variáveis apresentadas. Apesar disso, são os sete capítulos restantes que possuem os pontos mais polêmicos das questões que acossaram e ainda acossam o mundo depois de 2008. Deixo isso para o final de semana.

Até a próxima.

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