Governos e seus volumes mortos

Ponte sob a reserva do Atibainha, que faz parte do Sistema Cantareira. Seu volume morto está prestes a morrer. (Fonte da imagem: G1)
Hoje completa pouco mais de três semanas do ano de 2015, bem como da posse dos novos governantes e dos reeleitos que, supostamente, gerem o nosso país. Uma pessoa que assistisse ao horário eleitoral gratuito, entrasse em coma e acordasse no primeiro dia útil deste ano se assustaria com o cenário atual de nosso país. Talvez perguntaria: "Onde estou? O que aconteceu? Até o ano passado estava tudo bem...". Estava. Ou melhor: não estava. As coisas estavam mal há algum tempo, mas não só esse hipotético cidadão como alguns leitores deste blog não se atentaram aos fatos. Em alguns casos, nem mesmo o mais pessimista imaginava que a situação seria pré-apocalíptica. Por falar de apocalipse, o Relógio do Juízo Final avançou dois minutos, e marca apenas três para a meia-noite. Não sei se eles estão certos, mas certamente boa parte do Brasil (e provavelmente, do mundo) entrou com menos esperanças em 2015 em relação a 2014. E no que tange as circunstâncias eu acabaria compartilhando do mesmo desalento.

A imagem que abre o post de hoje é um exemplo desse cenário pré-catastrófico: o Cantareira. Com apenas 5,3% de sua capacidade, já levando em conta as duas cotas do volume morto, já não se discute mais o fato de se o sistema vai ou não secar e sim quando. Na hipótese mais otimista, durante o inverno milhões de paulistanos terão que contar tão somente com a água de carros-pipa. E segundo alguns meteorologistas, essa situação perdurará pelo menos até o verão. De 2017.


O caso do Cantareira, por mais trágico que seja e por mais que mostre a incompetência crassa do governo paulista em gerir um recurso tão fundamental como a água (sim, Alckmin tem sua parcela de culpa e sim, já falei isso em outra postagem neste blog) não é o único em que o poder público, seja nas esferas municipal, estadual e federal, resolve agir apenas quando todas as alternativas convencionais estão esgotadas. Mesmo na questão da água, São Paulo não é um caso isolado. Mais da metade dos municípios brasileiros caminham para uma situação preocupante. Mas como disse antes, a tática de usar e abusar do volume morto não é uma exclusividade apenas da área de meio ambiente e recursos hídricos. Em maior ou menor grau o Brasil já usa o "volume morto". Há algum tempo.

Tomemos por exemplo o caso de nosso setor elétrico, que vive sob grandes turbulências há pelo menos dois anos, e que ficaram mais evidentes após o apagão que atingiu dez estados e o Distrito Federal. Com as represas operando em níveis cada vez mais críticos (piores inclusive se comparados ao racionamento de 2001), e com uma demanda de energia crescente, a dependência das usinas termelétricas, com custo de geração e impactos ambientais maior, passa por uma igual escalada. Estas usinas deveriam entrar em operação somente nos casos de picos de consumo, mas o que era para ser um sistema de emergência se transformou em um sistema permanente. Resumindo: o sistema elétrico brasileiro opera no "volume morto". Que cada vez menos dá conta do consumo de energia em nosso país. O risco de um novo racionamento é cada vez mais real. E iminente. E o detalhe disso tudo: com uma economia que cresce a um ritmo pífio, tendendo a zero em 2014. Se crescêssemos em ritmo norte-americano seria bem difícil que eu escrevesse neste blog. E seria mais difícil ainda que vocês lessem este post.

Por falar de economia, outra situação pré-trágica: o esgotamento de um modelo de desenvolvimento baseado no consumo na expansão do crédito (que continuou elevada mesmo com patamares de crescimento do PIB cada vez menores), que combinado a uma contabilidade criativa nas contas públicas, levou o país a um cenário de estagflação, que é o pior dos mundos macroeconômicos. Já que falei de contabilidade criativa, ela basicamente é outro exemplo da política do uso do "volume morto": com gastos que crescem a uma velocidade ainda maior que a arrecadação - pornograficamente alta, por sinal - o jeito foi usar as finanças dos bancos públicos, de empresas estatais e do PAC e mexer no Fundo Soberano (além de outras medidas, como transformar despesas em investimentos) para fechar as metas de superávit primário. No final do ano passado nem isso adiantou: tivemos o primeiro déficit primário em 17 anos. Com os "volumes mortos" do governo federal a beira dos esgotamento o jeito é meter a mão nos "volumes mortos" dos bolsos do contribuinte, por meio de mais impostos e da retirada de alguns benefícios. Não que eu seja exatamente contra isso, a questão é que em sua campanha Dilma prometeu não mexer nestes, nem que a vaca tossisse. E tossiu.

Creio que estes exemplos sejam suficientes para definir que 2015 será um ano que exigirá muito do "volume morto" dos brasileiros. Seja do bolso, da vontade e, principalmente, da paciência.

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