Não, não sou Charlie. Mas isso não deixa o ato terrorista em Paris menos injustificável

(Fonte da imagem: Il Fatto Quotidiano)
Boa noite pessoal. Completando quase uma semana do maior ataque terrorista da história recente da França (ver aqui meu primeiro comentário sobre a tragédia), que deu origem a uma espiral de tensão e violência que se estendeu até sexta-feira e cuja reação popular foi um protesto convocado ontem, que teve a participação de vários líderes mundiais, é necessário que se faça algumas reflexões sobre alguns pontos que giram em torno das atrocidades que marcaram a semana anterior.

Primeiramente, é importante que eu deixe bem claro aos leitores deste blog: não, eu não sou Charlie. Seria hipocrisia de minha parte eu dizer que sinto representado por alguém que se valha do desrespeito e da ofensa gratuita (o que inclui os símbolos religiosos, não só os do islamismo como também os do cristianismo, atacados igualmente pelo chargista francês) com o intuito de fazer "humor". Acredito que sempre quando é possível fazer alguém rir ou provocar alguém sem apelar para o escárnio em vez de recorrer a este é preferível a primeira opção. Entretanto, para ficar igualmente claro, é importante dizer que isso, em nenhuma hipótese, justifica ou torna o ataque terrorista islâmico em Paris menos estúpido.

Esta sequência de ideias que norteiam a minha opinião sobre o tema, por si só, é completamente diferente daquela defendida por alguns, que mesmo considerando o ato de covardia dos extremistas lamentável, tentam forjar a desculpa de que "os chargistas foram ofensivos", "atacaram o símbolo de uma religião", "eles pediram para serem atacados". Isso faz tanto sentido quanto dizer que uma mulher "mereceu ser estuprada" por usar uma roupa curta. Ou que alguém foi assaltado ou sofreu latrocínio por "ostentar um celular" (pergunte ao Sakamoto, ok?). Sim, mesmo achando as charges de Charlie Hebdo escrotas, repulsivas e estúpidas (e acho estúpidas mesmo), isso não dá margem a qualquer atenuante em relação ao massacre. Qualquer transigência a favor desse discurso abre margem a um precedente que considero perigosíssimo: o de que as pessoas possam se ofender por absolutamente qualquer coisa que eles julgem "sagrada" e, por isso, apelar para a violência como resposta.

Outra coisa que é importante frisar são algumas comparações - forçadas, para não dizer esdrúxulas - do que aconteceu em Paris com atos promovidos por extremistas de outras religiões (não, não nego que existem extremistas em outras religiões, inclusive na cristã, da qual faço parte). Alguns, por exemplo, tomam o atentado em Oslo de 2011, promovido por Anders Breivik, como algo equivalente ao que ocorreu em Paris. Acontece que o terrorismo islâmico é mais organizado, com dois grupos que adotam o conceito de jihad global (Al-Qaeda e Estado Islâmico), sem falar de outros grupos menores. Acontece que o terrorismo islâmico é mais recorrente na história ocidental recente. E mesmo se não fosse, é importante lembrar que mesmo entre os muçulmanos que não participam diretamente de tais atos, existem aqueles que veem o terror como meio justificável de impor sua ideologia. Existem setores no cristianismo que, hoje, em pleno século XXI (é importante lembrar esse detalhe, antes que alguns citem as Cruzadas e a Inquisição), dão um suporte tão estruturado e organizado? Se não, não existe margem nenhuma para comparações nesse sentido.

Para finalizar, fica uma reflexão em relação à política de segurança da União Europeia: não seria o caso de se adotar uma política de controle de fronteiras? Não seria o caso de se pensar duas vezes antes de receber de braços abertos qualquer um que queira se estabelecer na região? Não seria o caso de se cobrar dos imigrantes uma integração à cultura e aos costumes de seu novo país, e não o caminho contrário (que foi adotado nos últimos anos)? Vou além (e pode ser que eu compre uma briga com alguns leitores): não seria o caso de se cobrar dos muçulmanos "moderados" (neste caso me refiro aos diversos grupos de imigrantes estabelecidos no Velho Continente) uma postura de aliança aos demais moradores dos países europeus para se aliarem ao combate contra os extremistas, ainda que sob risco de serem vistos com cada vez mais desconfiança ou mesmo cumplicidade?

São muitas perguntas e poucas respostas, pelo menos por enquanto. Mas uma coisa é certa: não há nada que justifique abrir fogo contra inocentes por conta de uma charge. Mesmo que de um símbolo sagrado, mas ainda assim, charge.

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