O ainda atual diagnóstico de Hannah Arendt sobre a educação

Natália  Lima Netto

Muito se debate as causas dos péssimos resultados do ENEM tão comentados nas redes sociais. Em relação a isso, achei útil fazer um resumo de um dos textos mais famosos de Hannah Arendt: A crise na Educação.

Hannah Arendt e seu cigarrão. (Fonte da imagem: Homo Literatus)
Em seu texto, Arendt faz uma análise de como a educação entrou em crise como um todo e de como é impossível separar isto dos processos históricos que permearam a realidade humana no século XX. Como a educação representa a transmissão de um legado cultural e científico acumulado de uma geração para outra, é inevitável relacionar a educação com os fatos e acontecimentos políticos que marcaram o século passado; desde os totalitarismos fascistas e comunistas até a crise do capitalismo.

Nos Estados Unidos da América, a educação representa mais do que a simples transmissão de legados culturais, técnicos e científicos, mas representa em essência um projeto de nação ou projeto de engenharia social. Como, ao contrário dos países europeus, que desenvolveram voluntariamente ao longo dos séculos suas próprias culturas e tradições; criando de maneira orgânica suas instituições, o “novo mundo”, em especial, os Estados Unidos foi uma nação construída de maneira planejada, ajuntando imigrantes de diversos pontos da Europa, Ásia e África com os povos aborígenes. Então, a educação na América é uma forma de se criar uma identidade nacional do zero. Assim sendo, a educação americana era toda pautada na noção da tabula rasa que unifica John Locke e Rousseau. A noção de que um projeto de sociedade (utópica ou não) deve começar com a educação das crianças existe desde a Antiguidade, podendo ser encontrado menções a isso n’A República de Platão e que viria a impulsionar toda a renascença, os liberais e os founding fathers que assinaram a declaração de independência dos Estados Unidos da América.

Entretanto, Arendt choca todo o fundamento filosófico dos Estados Unidos com os resultados acadêmicos aquém da média mundial nos últimos anos. Isto a leva a se questionar a origem da decadência da educação nos Estados Unidos. Como um país que pôde por seu próprio esforço, entre 1776 e 1917, se tornar o mais rico e poderoso do mundo, desmoronar educacionalmente a ponto de ser ultrapassado pelos países europeus que outrora o invejavam? Isto guia a filósofa e historiadora a se perguntar se teria relação com a importação de técnicas pedagógicas da Europa Central e as ideias progressistas em educação em detrimento da tradicional Liberal Arts americana.

Outro problema para Arendt é o fato de as universidades serem forçadas a se rebaixar a nível colegial para fazer a ponte entre o ensino básico e o ensino superior levando o sistema educacional a uma sobrecarga, uma vez que o acesso a educação secundária era bastante restrito e no período em que a autora escreve, estava a ser ampliado. A noção da igualdade de direito a ter uma educação é forte nos Estados Unidos e não se respalda no mérito, ao contrário do que ocorre na Grã-Bretanha, que parece seguir a figura do aristoi, o aristocrata do governo dos melhores.

Hannah Arendt, com razão, aponta o esquecimento da importância do desnivelamento entre professor e aluno, entre velhos e novos, como responsável pelo descenso do padrão cultural americano. A educação progressista criticada por Arendt exalta o igualitarismo estúpido, que nivela todos por baixo, e não permite que os que tenham mais potenciais acedam o seu lugar de direito. Para Arendt a igualdade de direitos como cidadão não pode limitar a desigualdade como seres humanos, afinal de contas, não somos iguais uns aos outros; temos talentos diferentes, ideias diferentes, personalidades diferentes e tentar reduzir um aos outros, levou ao aniquilamento das qualidades individuais. Arendt aponta três erros capitais que levaram a educação americana ao colapso.

O primeiro é a crença de que a criança é totalmente autônoma, racional e capaz de se autogovernar. Isto representa a igualação e, por definição, o aniquilamento das diferenças entre os velhos e os novos.

O segundo erro capital é, para Hannah, o desmoronar da noção de ensinar, pois parte do princípio que não há uma divergência de conhecimentos entre os indivíduos. O professor passa a não ser mais aquele que ensina, e sim aquele que é capaz de ensinar a aprender. O mestre deixa de ser o portador da informação a ser assimilada para se tornar num agente de mero acompanhamento e auxílio oportuno, inculcando nos "guris" conteúdos não-cognitivos, como diria Pascal Bernardin. O igualitarismo de funções baseado na noção de que ninguém ensina nada a ninguém, mas todos aprendem em conjunto (para parafrasear Paulo Freire), representa aos olhos de Arendt, a aniquilação da diferença entre quem sabe mais e quem sabe menos e, por definição, representa a abolição de diferenças entre professor e aluno. Para Hannah Arendt, a pedagogia centrada no aluno é a causa última e objetiva de toda a decadência escolar americana.

A terceira ideia errada fundamental é a crença de que só se aprende aquilo que se faz, o aprender-fazer é a crença de que se pode substituir o conhecimento abstrato, humanístico e erudito, pelo conhecimento técnico e materialista. A terceira perna do erro é uma consequência lógica da segunda. Se a função do professor é ensinar a aprender, então a função de ensinar um conteúdo sai dos ombros do professor e recai sobre a do próprio educando, que aprenderia, por assim dizer, por suas próprias experiências. Os ataques fundamentais de Arendt atingem em cheio as ideias de John Dewey na educação.

Em resposta aos problemas levantados por si, Arendt dedica os trechos a seguir á sua concepção de educação. Em resposta aos ataques que fez ás teorias psicológicas modernas que estavam unidas ao pragmatismo filosófico do início do seculo XX, a filósofa dá suporte ao modelo conservador e tradicional de educação – o que na época lhe rendeu a pecha de reacionária por parte da esquerda americana – centrada na importância do papel da família e das comunidades mais próximas, da restituição das diferenças entre a nova e a antiga geração e do processo de recuperação da autoridade do professor, não como um posto político, mas como o detentor de um saber que é útil ao educando para se integrar na sociedade. 

Mas que sociedade? Pergunta-se Arendt.

A sociedade ocidental, regida pelos valores judaico-cristãos, pela filosofia grega e o direito romano aglutinados no ideário liberal dos pais fundadores dos Estados Unidos. Arendt, ao menos nesse aspecto, se coloca assim ao lado de outros críticos conservadores de sua época, como Michael Oakeshott e Russell Kirk.

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