O "novo choque do petróleo" e suas possíveis consequências

(Fonte da imagem: Exame)
Lembro de uma coisa dita a exaustão no ano passado por alguns "iluminados", como se fosse ontem: com o pré-sal, não só daríamos um passo a autossuficiência em petróleo (que ganhamos, perdemos e sabe-se lá quando ganharemos de novo), como também teríamos fortes avanços em educação, uma vez que o Plano Nacional para a área passaria a prever que recursos destas novas reservas tivessem destinação para o setor, muito embora tenha sido largamente demonstrado que isso, por si só, não foi capaz de fazer do Brasil uma Finlândia nos indicadores de ensino. Nos últimos meses parece que toda essa euforia criada em torno dessa quase infinitude de recursos desapareceu. E com razão, afinal o barril do "ouro negro", que oscilava em torno dos US$ 110 nos últimos quatro anos, está hoje em torno dos US$ 50. No caso brasileiro (muito bem descrito pela reportagem do El País) isso, junto com os recentes escândalos de corrupção, aceleraram a espiral descendente da Petrobras, que hoje vale o mesmo tanto ou mesmo menos (em valores atuais) em relação ao período da descoberta do pré-sal. Ou seja, é como se para o mercado a grande descoberta brasileira não tivesse valor nenhum.

De fato, a economia brasileira pode ser severamente afetada por esse choque negativo de preços, sobretudo quanto aos investimentos na exploração do pré-sal, que podem se tornar praticamente inviáveis. Mas não é só isso. Esse novo panorama implicará em desdobramentos a nível global, com consequências para alguns países. E é basicamente isso o centro do que será dito na postagem de hoje.

O choque

Preço do petróleo nos últimos dois anos. (Fonte da imagem: Investing)
A matéria publicada pela The Economist, ainda em dezembro do ano passado, traz uma breve explicação da combinação de fatores que levaram à queda livre dos preços: demanda baixa por conta de uma atividade econômica mais fraca, aumento da eficiência e substituição do óleo por outros combustíveis; o fato da turbulência no Iraque e na Líbia, dois grandes produtores de petróleo, não ter afetado as saídas; os EUA terem se tornado os maiores produtores de petróleo do mundo, que apesar de não exportarem petróleo bruto importam hoje muito menos e possuem estoques de reposição; e o mais importante: a Arábia Saudita e seus aliados escolheram por não diminuirem sua cota de produção com o intuito de retomar a alta dos preços. Até poderiam, mas os principais benefícios iriam para países concorrentes, como Irã e Rússia. Lembrando que os sauditas podem suportar preços mais baixos do petróleo com grande facilidade, uma vez que detém US$ 900 bilhões em reservas e seus custos de produção são extremamente baixos, entre US$ 5 e US$ 6 o barril.

Esta descida nos preços, conforme citada na matéria da Economist e no portal Infomoney, tende a prejudicar os setores de maior risco no mercado petrolífero, como os frackers norte-americanos, que tomaram pesados empréstimos com a expectativa de terem altos retornos com a manutenção dos valores anteriores; e os projetos com alto custo de exploração, como a perfuração em águas profundas ou no Ártico, ou com a maturidade e a escalada nos custos de exploração no Mar do Norte. Mas o maior impacto disso é em países onde os governos dependem de um alto preço do petróleo para bancar aventuras políticas ou caros programas sociais, como a Rússia, o Irã e a Venezuela, não citada na reportagem da Economist, mas não menos importante, uma vez que com cada vez menos receita corre risco cada vez maior de dar calote.

Cenários possíveis: lá e cá

Os links das matérias do El País, da Economist e do Infomoney, além do Wall Street Journal, ainda que passem as informações de forma bem sucinta, nos dão um vislumbre dos possíveis cenários para alguns países neste contexto de "liquida geral" que tomou conta do mercado de petróleo em todo o mundo. Os EUA, melhor explorados nas reportagens do IM e do WSJ, podem entrar em uma situação desconfortável, embora não (ainda) desesperadora. Tudo porque a queda livre dos preços do Brent, conforme dito ao final do tópico anterior, pode inviabilizar economicamente a produção de boa parte setor de xisto do país, com falências das empresas mais alavancadas financeiramente, e sérias dificuldades para as maiores. Como o boom do setor de xisto ajudou a recente fase de recuperação econômica americana, esta pode se tornar bem mais lenta caso os preços continuem caindo. E certamente Paul Krugman não curtirá isso. Cabe lembrar ainda que o príncipe saudita Alwaleed bon Talal, empresário do setor petrolífero, declarou que mesmo se os preços do óleo voltassem a subir, estes jamais voltariam a bater a marca dos US$ 100.

Como palpiteiro, acredito que a frase dele tenha sido mais em tom de bravata do que algo que expresse a realidade. A manobra dos sauditas e de seus aliados é utilizada em vários setores, tanto na iniciativa estatal como na privada: uma empresa ou um grupo de empresas A resolve inundar um determinado mercado com produtos, forçando os preços para baixo, mesmo que isso signifique lucrar menos em relação a um investimento no mercado financeiro ou represente prejuízo (neste último caso temos o dumping, prática nociva à livre concorrência e que deve ser combatida). Algumas empresas concorrentes quebram, outras abandonam a ideia de conquistar novos mercados e então esta (ou este grupo) A pode aumentar os preços de forma quase livre. E particularmente não acredito que os sauditas farão diferente.

Na matéria do Infomoney citada no início deste tópico o autor considera ainda a hipótese de o governo americano efetuar resgates ou subsidiar os produtores de xisto de forma a evitar uma hecatombe no setor. É importante frisar que minha opinião sobre este ponto específico ser contrária, pelo fato de que, como bem citado por Alan Greenspan em seu livro O Mapa e o Território (apesar do ex-presidente do Fed ter levantado essa questão para o sistema financeiro tal questionamento é válido a qualquer setor produtivo), este socorro seria um estorvo da poupança produtiva para um socorro a um setor que subestimou os riscos do mercado, sem falar no risco de um arranjo capitalista de compadres. A despeito disso, é igualmente pertinente ponderar que os recursos destinados a esse socorro virão de duas maneiras: por meio de recursos dos impostos ou por endividamento, que será pago por meio dos impostos em um momento posterior. Não existe mágica.

A propósito, sobre a questão do endividamento, Arthur Rizzi, meu colega de bancada (a propósito, um spoiler: o próximo post dele no blog falará sobre dinheiro, impostos, dívida e inflação), me fez lembrar de um aspecto bastante pertinente em uma hipótese de socorro aos frackers: quem tiver a maior dívida leva a pior.

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
Seguindo esse raciocínio (ainda que fosse levado em conta o fato do porte da economia norte-americana ser muito superior em relação à saudita e à árabe-emiradense) é possível inferir que mesmo em uma situação extrema, em que ambos os lados assumam prejuízos com a finalidade de disputar mercados, os sauditas, que estão provocando este choque negativo de preços, possuem mais condições de aumentar a "aposta", uma vez que estes podem assumir com folga um endividamento para bancar essa guerra de preços, diferentemente dos norte-americanos, que já possuem um endividamento elevado. Isso sem falar na questão da política interna dos EUA, em que tanto o socorro a esses produtores como o não-socorro acabariam expondo as fragilidades da recuperação econômica do país, alimentando a campanha republicana para 2016.

Outros países estão com o brioco na mão por conta dessa queda livre no petróleo também foram citados nesta postagem. A Rússia, por exemplo, vive sua pior crise cambial desde a desvalorização do rublo (moeda local) ocorrida em 1998 com alta inflação, cenário recessivo e risco de perda do grau de investimento de sua nota de dívida. Já a Venezuela, como dito anteriormente, somou a perda de receita com a queda dos preços do Brent às conturbadas medidas do chavismo sem Chávez de Nicolas Maduro. Um país ainda mais perto da bancarrota que a terra de Vladimir Putin.

Quanto ao Brasil...Bem, quanto ao Brasil os efeitos poderiam ser até bons se a Petrobras, que opera no país sob condições privilegiadas de mercado, estivesse saudável economicamente. Mas como ela amargou perdas devido a defasagem dos preços em relação ao mercado internacional nos últimos anos, ela precisará recompor caixa, portanto isso não significará uma gasolina mais barata nas bombas. Além disso, investimentos no pré-sal (com custo de produção maior) precisarão ser adiados e isso acarretará não só em efeitos econômicos, mas também sociais, uma vez que os recursos dos royalties destinados à educação e saúde e do Fundo Social do Pré-Sal serão menores (e como disse antes, mesmo se estes existissem não há nenhuma garantia que tenhamos ensino e cuidados médicos melhores).

Encerrando

Uma coisa é certa: esta nova fase dos preços do petróleo está longe de acabar. Os sauditas (bem como seus aliados) possuem condições mais que suficientes para continuarem reduzindo os preços da commodity de forma quase indefinida, e isso terá consequências inevitáveis não só para os países notoriamente dependentes do "ouro negro" como também para países que apostaram a recuperação econômica em torno do comércio do produto. E neste "cassino" onde o Oriente Médio é a "banca", ganha quem perder menos. Basicamente é isso. 

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