O pior janeiro para o orçamento doméstico em uma década. Presságio?

(Fonte da imagem: Fecomércio-MG)
Boa tarde a todos. Como previsto, o blog volta à programação normal hoje (assim como no ano passado, foi a vez de um novo membro na equipe de editores fazer a postagem de abertura, sendo desta vez o meu colega de bancada Arthur Rizzi). E no meu retorno, comentarei a matéria do jornal O Globo sobre o típico drama para o orçamento familiar em janeiro, que para este ano promete ser ainda mais difícil. Segue abaixo:

"Este início de 2015 já é o de maior pressão para o orçamento familiar em uma década, na avaliação de cinco especialistas em finanças ouvidos pelo GLOBO. Todo começo de ano é sinônimo de concentração de dívidas e despesas a pagar. Impostos como IPTU e IPVA, gastos com material escolar e viagens estão entre esses custos. Com alta da inflação, restrição ao crédito e reajustes já anunciados de tarifas e tributos, este início de ano promete sangrar ainda mais as finanças dos brasileiros. Para especialistas, a fim de manter a saúde financeira, será preciso apertar os cintos não só agora, mas ao longo de todo o ano.

A situação econômica está encolhendo o orçamento doméstico, diz Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac):

— Nos últimos anos, em média, o salário mensal da família pagaria metade desses compromissos de início do ano, o que já mostra necessidade de planejamento. Mas em 2015 não chega nem a isso. É o pior início de ano em dez anos. Quem não se planejou, terá de queimar economias ou recorrer a empréstimos.

Abrir o ano com aumento de gastos é preocupante porque os ganhos salariais reais estão aquém dos reajustes sendo anunciados, alerta Gilberto Braga, professor de Finanças da Fundação Dom Cabral e do Ibmec-Rio:

— O orçamento familiar já entra o ano pressionado — afirma Braga, que também vê em 2015 o pior início de ano em uma década. — O reajuste do preço do material escolar, por exemplo, está estimado em 8%, acima da inflação, de 6,5%. Os reajustes salariais concedidos no segundo semestre de 2014 foram menores.

O pequeno ganho real nos salários deve ser engolido pelos reajustes, afirma Sérgio Bessa, professor dos MBAs da FGV.

— Se considerarmos o aumento de 8,8% do mínimo como referência e descontarmos a inflação prevista para o ano, o ganho fica em menos de 2%. Ainda virão reajustes de alimentos, planos de saúde, roupas e acessórios, e serviços.

GANHO REAL PEQUENO

Segundo o Dieese, a maioria das negociações (93%) para reajustes salariais no primeiro semestre de 2014 ficou acima da inflação, considerando o INPC, calculado pelo IBGE, garantindo ganhos reais de até 3%. A maior incidência está em entre 1% e 2% acima do índice. O problema é que a elevação de impostos, combustível, transporte urbano, mensalidade escolar e outros acompanha ou supera a inflação. Por setor, o ganho real médio em salário ficou em 1,55% na indústria, 1,57% no comércio e 1,51% nos serviços. Neste último, foi registrado o maior percentual de reajustes equivalentes ou inferiores ao INPC: 7%. [...]

As pessoas, no entanto, já começam a se programar mais. O freio no consumo observado em 2014 e as magras vendas de Natal mostram que o brasileiro, já endividado, decidiu segurar gastos, prevendo um 2015 de ajustes. Para profissionais de finanças, essa retração mostra uma mudança de comportamento do consumidor, que estaria aprendendo a planejar o orçamento.

— Faz uma década que falamos sobre a necessidade de planejamento. E isso parece estar fazendo efeito — diz Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV.

O gestor de negócios Yan Rallon decidiu regrar as finanças da família para poupar e conseguir pagar despesas programadas. Vivendo com a mulher e dois filhos, usa uma planilha para controlar gastos.

— Poupamos ao longo do ano para pagar o IPVA e o IPTU do ano seguinte com desconto. Compramos o material escolar em dezembro, antes do aumento de preços. Sem esse planejamento, seria inviável pagar tudo — conta ele. [...]

INADIMPLÊNCIA PODE CRESCER

Menos otimista, Oliveira, da Anefac, acredita que nem todos se programaram e há risco de alta na inadimplência e no número de pessoas que irão recorrer a empréstimos para fazer pagamentos. Ele afirma que a melhor opção para quem poupou é pagar as despesas à vista, aproveitando descontos. Quem não fez um colchão para gastos extras, mas tem folga no orçamento, deve escolher o parcelamento, já que os juros cobrados são menores que os de empréstimos. Recorrer ao crédito será, porém, a saída para quem não se encaixa nesses dois grupos.

— Será preciso negociar descontos sempre. E trabalhar com uma margem de segurança no orçamento durante todo o ano — alerta Teixeira, da FGV. — Empréstimo é o último recurso. A taxa de juros já está alta e pode subir mais.

A mordida dos reajustes no orçamento vai depender do perfil de cada família. Assim, é importante iniciar o ano sabendo onde se poderá reduzir gastos, recomenda Braga."

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No final do ano passado, em um post no qual eu lancei alguns palpites para a economia brasileira nos próximos anos, disse que 2015 seria um ano na melhor das hipóteses empatado tecnicamente (em ruindade, claro) com 2014. Pelos sinais apresentados na reportagem de O Globo, nem mesmo a melhor das hipóteses acontecerá. E antes que apareça alguém que diga que minhas afirmações são de um engenheiro de obra pronta ou crítico de resultados, é importante lembrar que tanto eu como outros membros da equipe de editores deste blog alertaram - desde 2013 - sobre o cenário complicado que estaria por vir. Cito algumas (com a data):
Apesar da matéria focar muito no Rio de Janeiro o cenário descrito é um termômetro do que está por vir nas demais capitais brasileiras e, por fim, na economia doméstica em nível nacional. Reajustes de tarifas represadas ao longo dos dois anos anteriores (energia elétrica, combustíveis e passagens de transporte coletivo) bem como os aumentos típicos em diversos produtos e serviços somado à alta dos juros (que já levou ao pior Natal dos últimos dez anos em 2014) obrigarão as famílias a serem mais cautelosas ao longo de todo o ano de 2015 (conforme já dito na reportagem). É recomendável que financiamentos a médio e longo prazo (para a compra de imóveis e automóveis) sejam evitados, compras de eletros no cartão de crédito sejam adiadas (ou feitas em menos prestações) e despesas no exterior ou com produtos importados também sejam postergadas neste cenário. E admitindo que estaremos iniciando uma transição de um modelo de desenvolvimento baseado em consumo para um baseado em investimento, não há nenhum pessimismo em esperar um crescimento do PIB em torno da nulidade.

Para finalizar, um recado a quem votou em Dilma nas eleições: se você votou nela pensando que não haveria a necessidade de ajustes na economia, sim, você foi enganado. E não, não foi por falta de aviso.

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