O "risco Syriza"

Alexis Tsipras (Syriza), novo primeiro-ministro da Grécia. (Fonte da imagem: G1)
No último domingo (25/01), a Grécia (bem como a Europa) teve a maior reviravolta política de sua história republicana. Após quatro décadas de alternância entre o Nova Democracia, partido de centro-direita, e o Pasok, partido de centro-esquerda, Alexis Tsipras, da Syriza (extrema-esquerda), chega ao poder após uma vitória avassaladora de seu partido. Para muitos analistas, tal giro foi a resposta da população grega às medidas de austeridade implementadas após a crise financeira deflagrada em 2010 (resultante da crise de 2008 nos EUA). O PIB do país reduziu em um quarto deste então, o desemprego atingiu uma proporção semelhante (entre os jovens chega a 60%) e a já elevada dívida pública do país, que já estava em patamares muito elevados para os padrões europeus, disparou. Tese essa que concordo, apesar de que tal explicação oculta as verdadeiras causas da catástrofe econômica (e social) que atingiu o país que foi berço da democracia no Ocidente.

É óbvio que esta vitória foi motivo de festa dentro e fora da Europa. Na Espanha, outro país duramente afetado pela crise, Pablo Iglesias, do Podemos (outro partido de extrema-esquerda, que está liderando as pesquisas eleitorais), comemorou o resultado, dizendo que os gregos finalmente teriam um governo para eles, e não um delegado de Angela Merkel, atual chanceler da Alemanha (que bancou parte do plano de resgate do país helênico). No Brasil, a imprensa e principalmente as redes sociais repercutiram de forma positiva o fato, com alguns alegando que a vitória de Tsipras significava o fim do "neoliberalismo" e o retorno das políticas sociais, cortadas pelas medidas de austeridade. Porém, uma análise fria das propostas do novo primeiro-ministro, entre elas a elevação do salário mínimo, o calote perdão de metade da dívida pública e uma moratória da outra metade, que seria paga a partir do crescimento da economia e a expansão de benefícios sociais. Propostas essas que como explicarei mais tarde, podem levar a Grécia a um estado ainda pior se comparado ao atual.

Afinal de contas, foi o "neoliberalismo" que quebrou a Grécia?

O senso comum de muitos foi dizer que a Grécia quebrou devido ao "neoliberalismo" e ao "livre mercado", tese essa que desaba após uma breve pesquisa e análise dos fatos. Conforme muito bem compilado em um artigo no Instituto Mises Brasil, o que levou o país helênico a ficar de pirex na mão para a União Europeia e o FMI foram medidas que poderiam ser classificadas como qualquer coisa, menos como medidas "neoliberais". Em linhas básicas, as políticas expansionistas de gastos públicos adotadas pelo governo grego, seja o social-democrata Pasok, seja o conservador Nova Democracia (neste caso o conservadorismo se aplica aos aspectos sociais, não se assemelhando em nada ao fiscal conservatism defendido em países anglo-saxões, por exemplo), foram responsáveis pela tragédia econômica do país. Um exemplo disso foram os salários do funcionalismo público, que praticamente duplicaram entre 2000 e 2010. Outro exemplo foram os gastos para sediar os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

(Fonte da imagem: Estadão)
De forma a corroborar com as evidências apresentadas pelo artigo do Mises, trago alguns gráficos interessantes que ajudam a delinear o quanto o governo grego foi fiscalmente irresponsável nos anos que antecederam a hecatombe. Os primeiros, de gastos gerais, receitas gerais e a diferença entre ambos, seguem abaixo:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados da OCDE)

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados da OCDE)

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, cálculo a partir de dados da OCDE)
No primeiro gráfico (gastos gerais) a Grécia, exceto em 2005, figurou entre os três países que mais gastavam entre os selecionados (para efeito de referência, escolhi o grupo dos PIIGS - sigla em inglês que se refere à Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha e incluí a Alemanha, a maior economia da União Europeia), sendo que em 2008 e 2009 esteve como o mais gastador. Mas alguns podem argumentar: "Ah, mas a austera Alemanha chegou a gastar mais que a Grécia no período!". O lance, porém, é que os gastos governamentais alemães se mantiveram em patamares constantes, enquanto que na Grécia eles assumiram uma curva ascendente entre 2005 e 2009. Mas sozinho o gráfico não explica tudo.

Na sequência, o segundo gráfico compara as receitas gerais dos governos dos mesmos países do gráfico anterior. Como disse anteriormente, a Grécia figurava entre os três maiores gastadores, mas após 2002 deixou de estar entre os três maiores arrecadadores (entre 2004 e 2007 ficou na quinta posição). E enquanto os gastos gerais nunca ficaram abaixo dos 45% do PIB, as receitas nunca ficaram acima dos 45% do PIB. Portanto, o governo grego sempre gastou mais em relação à arrecadação.

Para corroborar com isso foi calculada a diferença entre a receita e os gastos, e fica mais evidente um dos fatores que levaram o país a uma situação falimentar: a exceção de 2001, 2005 e os dois últimos anos da série, o país helênico figura com o pior indicador entre os pesquisados. E se retirarmos a Itália da lista, que teve um valor negativo, porém constante, todos os demais dos PIIGS tiveram um grande tombo a partir de 2008.

Outro gráfico não menos importante para entender a depressão grega é o da poupança nacional. Tal como nos três primeiros, escolhi o mesmo grupo dos países dos três primeiros gráficos. Segue abaixo:

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
A poupança nacional é um indicador importante, uma vez que mede a capacidade das empresas, das famílias e do governo para financiar investimento interno e investimentos externos líquidos. Percebe-se que salvo no período entre 2002 e 2005, a Grécia apresentou o pior indicador nesse aspecto. Em nenhum dos anos da série ela atingiu a marca de 20% do PIB e entre 2003 e 2011 ela sofreu sucessivas quedas, chegando a ficar em 6,2% do PIB em 2011. Mesmo com a alta nos anos seguintes a poupança nacional grega não atingiu os 15%. Altos gastos governamentais, baixas receitas e baixas taxas de poupança nacional acabam me levando a inferir que o governo do país helênico precisou financiar sua máquina recorrendo a empréstimos estrangeiros. Resumindo: o governo grego para se bancar queimou dinheiro...Dos outros.

Para finalizar a logorreia gráfica, segue abaixo o indicador do resultado dos gráficos anteriores: a dívida pública bruta.

(Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor, com dados do FMI)
Vejamos: gasto demais, arrecadação de menos, poupança nacional de menos...Qual a surpresa para a Grécia, por sinal uma das economias mais incipientes da União Europeia, estar como a mais endividada do bloco e uma das mais endividadas do mundo? Não custa lembrar que nesta série apenas a Itália conseguiu ser pior durante algum tempo (até 2005) que o país helênico.

O enigma do novo governo grego


Alexis Tsipras (à direita) conversando com Panos Kammenos, do partido de direita nacionalista Independentes Gregos, parceiro da coalizão de governo. (Fonte da imagem: The Guardian)
No tópico anterior, falei dos motivos que levaram a Grécia à catástrofe econômica que se encontra hoje, e, reiterando, não foi o "neoliberalismo" nem mesmo o "livre mercado" que quebrou aquele país (comparar as medidas econômicas tomadas por Konstantinos Simítis e Kóstas Karamanlis com as adotadas por Ronald Reagan e Margaret Thatcher chega a ser ofensivo à inteligência de qualquer um). Apenas um adendo que esqueci de fazer no tópico anterior: Em se tratando de liberdade econômica (ver comparativo da Heritage Foundation aqui), a Grécia possui indicadores pífios nesse sentido, inclusive piores que os do Brasil nos últimos anos. 

Finalizado o adendo, o giro à esquerda feito pela Grécia, por piores que sejam as consequências imaginadas, era previsível. O que alguns não esperavam é que a aliança de governo de Tsipras seria com os Gregos Independentes (ANEL), um partido de direita nacionalista, cujo único ponto em comum com a ultraesquerdista Syriza é a rejeição às medidas de austeridade. Alguns esperavam, talvez, uma coalizão com o To Potami, uma legenda de centro pró-europeísta. Para efeitos de comparação, seria como se a Leviana Luciana Genro ganhasse a eleição presidencial aqui no Brasil e, como aliado, tivesse Levy Fidelix, aquele que não foi reproduzido pelo aparelho excretor (segundo ele, claro).

Apesar dos temores, a vitória de Tsipras não gerou o pânico esperado nos mercados europeus. Talvez porque estes estão em compasso de espera com os rumos que o novo governo grego irá tomar. O artigo do Financial Times "O Tsipras da Syriza passará a ser um Lula ou um Chávez?" (ver aqui) é o que melhor ilustra este questionamento. E o próprio Tsipras deu sinais, ainda que tímidos, de que poderia adotar uma condução mais pragmática caso passasse a governar (ver aqui), bem como o fato de que ele rejeita a hipótese da Grécia deixar a zona do euro. Resta saber o quanto pragmático seria, e se a própria Syriza aceitaria moderar o discurso, agora no poder.

Este último questionamento é razoável uma vez que o Ministro das Finanças escolhido por Tsipras, Yanos Varoufakis, um ferrenho opositor dos pacotes de austeridade implantado nos últimos anos, e defende a reestruturação da dívida pública. E tanto Angela Merkel, como o Banco Central Europeu e o FMI não parecem estar tão dispostos a renegociar

Como palpiteiro, enxergo apenas dois cenários possíveis: o primeiro é que o governo de Tsipras adote de fato um rumo mais pragmático na política econômica e implante de maneira mais lenta seu pacote de bondades regado a mais gastos públicos. Em contrapartida, a troika poderia perdoar parte da dívida (mais? Pois é, mais...) e esticar o pagamento do restante. Caberia ao governo grego aproveitar a enxurrada de dinheiro feita pelo BCE de Mario Draghi para fazer crescer a economia e cumprir o compromisso de pagar a dívida com essa expansão.

(Fonte da imagem: Invest Diva)
O segundo cenário, mais trágico, mas apenas um pouco (só um pouquinho) menos provável que o primeiro, seria o governo grego forçar a renegociação da dívida, levar a sério as promessas de campanha em relação ao fim da austeridade e a troika não arredar o pé. Neste caso o calote seria apenas questão de tempo e a Grécia seria "convidada" a sair da zona do euro (o famoso Grexit), o que dificultaria a entrada de investimentos e a tomada de novos empréstimos, sem falar que a dracma (moeda nacional do país helênico, que antecedeu ao euro) começaria bastante desvalorizada. Levando em conta que o governo de Tsipras pretende reduzir os impostos para os mais pobres e taxar as grandes fortunas (medida que se revelou desastrosa na França e que expliquei seus possíveis efeitos aqui), bem como bancar um pacote de "bondades" que inclui religar a energia elétrica de quem  a teve cortada por falta de condições da pagamento, construção de casas populares, aumento do salário mínimo, entre outros. 

Neste caso, a pior situação é que o crescimento da arrecadação de impostos - necessário, mas não muito crível - não acompanhe os gastos a mais necessários para implementar tudo isso. Conforme muito bem ponderado pelo meu colega de bancada Arthur Rizzi (ver seu post, publicado há pouco mais de uma semana), governos têm três opções de financiar seus gastos: impostos, endividamento e, por fim, impressão de papel-moeda. Já seria possível imaginar o resultado disso: o já alto endividamento da Grécia iria praticamente explodir (uma vez que fora da zona do euro não haveria a chance de contrair empréstimos a juros menores). E posto que o governo grego voltaria a ter o poder de imprimir papel-moeda, a última "solução" seria inundar o país com dracmas. Ou seja: além do cenário de crescimento e desemprego incertos, a dívida do país se tornaria ainda mais impagável e uma inflação galopante não seria descartada. A título de curiosidade: a inflação na Grécia variou de 10% a 35% ao ano dos anos 1970 até aos anos 1990. E só ficou abaixo dos 5% (o centro da meta brasileira de inflação é 4,5%) a partir de 1997. Seria um pesadelo ainda pior que as atuais medidas de austeridade.

Para a União Europeia, os dois cenários são problemáticos (ainda restaria saber qual seria o pior): no primeiro, caso a troika aceite a renegociação da dívida grega, ainda que de forma parcial, outros países poderiam realizar o mesmo pedido, e muitos credores teriam que assumir o risco de levarem um "balão" generalizado (sem falar que isso acabaria desestimulando uma maior responsabilidade fiscal, uma vez que em caso de nova crise as dívidas seriam total ou parcialmente assumidas pelo BCE, por exemplo). Já o segundo cenário inflamaria ainda mais os extremismos de esquerda e de direita (lembrando que Marine Le Pen, da Frente Nacional francesa, comemorou a vitória de Tsipras), que acusariam a UE de praticarem ingerências externas nos países menos desenvolvidos do bloco, o que levaria economias mais combalidas a adotarem o caminho do calote e a saída da zona do euro como "solução". Como consequência disso os investidores realocariam seus recursos aplicados para países com economias mais estáveis, como o Reino Unido e a Alemanha, ou correriam para buscar abrigo no dólar dos EUA, que por sua vez entraria em forte valorização. Levando a análise deste cenário às últimas consequências, a zona do euro, tal como a conhecemos hoje, seria implodida e, talvez, a própria União Europeia. Os efeitos para a economia brasileira poderiam variar de um período relativamente longo de nervosismo no mercado financeiro até uma desvalorização do real em relação ao dólar norte-americano, o que levaria a uma pressão inflacionária sem precedentes em vinte anos.

Acredito eu que Tsipras e sua trupe sabem dos efeitos que suas manobras econômicas podem provocar não só em seu país, mas também na economia europeia e mesmo em escala global. É esperar para ver (e cruzar os dados).

Encerrando

É compreensível pensar que as medidas de austeridade adotadas na Grécia tenham levado a população a uma situação de desespero, ao ponto de recorrerem a uma alternativa populista para "solucionar" o problema. Também entendo que a forma de austeridade empregada naquele país não tenha sido nem de longe a melhor, uma vez que levou o país a uma recessão profunda e prolongada. Mas o programa de Alexis Tsipras, tal como apresentado, é pouco (para não dizer) crível no sentido de solucionar a tragédia econômica de seu país. E pode muito bem levá-lo de forma mais rápida (e cara) ao buraco.

UPDATE: Em maio de 2012, já havia um plano de contingência para os bancos europeus na hipótese do Grexit. A expectativa da época era que o retorno da dracma representaria um aprofundamento da recessão e uma inflação de 50% no ano.

UPDATE 2: As primeiras medidas do governo de Alexis Tsipras foram suspender as privatizações no setor elétrico, subir o salário mínimo nacional (como proposto) e recontratação de funcionários públicos demitidos nos anos da troika. A Bolsa de Atenas caiu 9,2% e há o risco de rebaixamento da nota da dívida pela agência S&P.

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