Passe livre: sempre foi, é e será uma farsa

É pelos centavos sim! (Fonte da imagem: Yahoo Notícias)
Boa noite pessoal. Como é de conhecimento de muitos, ontem (sexta-feira) foi o dia em que milhares de pessoas saíram as ruas para protestar contra o aumento das tarifas de transporte coletivo não só em São Paulo (onde foi o maior ato), mas em outras capitais e grandes cidades do Brasil. E como era de se esperar (seria surpresa se isso não ocorresse), os protestos terminaram em confronto com a PM e a ação de terroristas black blocs (sim, black blocs são terroristas e se você não gostou do que eu disse azar o seu). Como dizia o sábio de Eclesiastes, um livro do Antigo Testamento da Bíblia, "nada de novo debaixo do sol".

Para quem lê e acompanha este blog há algum tempo, muita coisa do que irei falar por aqui não é novo, até porque já comentei de forma até exaustiva sobre a questão do "passe livre", sendo que um de meus comentários, do dia 21/06/2013 (portanto durante a micareta que tomou conta do país naquele período), você pode conferir aqui. Salvo um ou outro ajuste no texto, reitero tudo o que disse na época.

Mas como certas parvoíces são recorrentes, alguns esclarecimentos também precisam ser recorrentes. E o título do post é bem claro quanto ao que direi nas próximas linhas: o passe livre sempre foi, é, e será uma farsa. Ultrapassa qualquer limite de estupidez uma discussão cuja base é uma vigarice intelectual. Aliás qualquer pessoa com o mínimo de senso lógico (nem vou tocar ainda no senso econômico pois eu sei que este tende ao péssimo em terra brasilis) sabe ou deveria saber que os serviços públicos, gratuitos e de qualidade (quanto ao último item é mais fácil achar um velório de anão do que isso) que o governo "dá" a população são pagos pelos pagadores de impostos, ou seja, nós. O fato do atual Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, precisar deixar claro uma obviedade, inclusive citando a frase popularizada pelo economista Milton Friedman "não existe almoço grátis", já nos dá a noção da pífia e patética cultura econômica que ronda o Brasil, inclusive nos círculos universitários, de onde inclusive vêm boa parte da massa que engrossa MPL's da vida e tudo mais. E o Manteganomics é só um exemplo caricatural.

"Ain, mimimi, você tá defendendo empresário que lucra abusivamente em cima da desgraça do povo, que anda feito sardinhas, mimimi...", pode estar choramingando alguém agora. Primeiramente, é importante frisar que nenhum empresário abriria qualquer negócio se este não desse um lucro maior do que se ele colocasse o dinheiro investido no banco para render alguns trocados de juros (nem cito o simples fato de esperar lucro pois isso deveria ser óbvio para algumas cabeças ocas pensantes). E segundo, tanto os insumos como mão-de-obra necessários à operação e manutenção de metrôs, trens e, principalmente, ônibus (este último meio de transporte comum a todos os sistemas de transporte coletivo no Brasil) são reajustados periodicamente e, mesmo considerando eventuais reduções de custos em outros aspectos, as tarifas precisarão ser reajustadas, mais dia ou menos dia (a propósito, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro) os aumentos das passagens não ocorriam desde a revogação dos mesmos em junho retrasado. E manter tais tarifas congeladas implica, necessariamente, em mais subsídios às empresas de ônibus, pagos por...Adivinhem, impostos!

E por falar de impostos, bem...Vamos pensar que de repente todos os prefeitos e governadores, em um lapso de "bondade", estabelecessem a bendita tarifa zero, dando transporte público (!), gratuito (?) e de qualidade (?!) a todos. Caso alguém acredite que os empresários finalmente sentiriam na pele tal medida, podem esquecer. Os lucros destes continuariam garantidos por meio dos subsídios públicos, que passariam a ser integrais. E como dito anteriormente, estes subsídios são pagos por impostos, pagos tanto por quem usa diariamente o transporte coletivo como por aqueles que não usarão em nenhum momento. Para quem costuma reclamar de pagar as coisas "duas vezes", parece um baita incentivo. Só que não.

"Ain, mas se o Estado assumisse o transporte público os empresários deixariam de lucrar abusivamente", baba um militante hidrófobo. Ok, você venceu. Acontece que tanto os insumos como a mão-de-obra continuariam sendo pagos (com dinheiro e não com amor, para ficar claro) e continuariam sendo reajustados periodicamente. Sendo assim, seriam necessários aportes de dinheiro público para bancar essa "dádiva" para a população. Dinheiro esse proveniente de...Impostos. Que continuariam pagos tanto por quem usa o sistema como por quem não usa. Ah, isso porque nem toquei - nem tocarei - no mérito de discutir o modus operandi e o sistema de incentivos no serviço público ou em empresas estatais.


"Ain, mas com tarifa zero mais pessoas deixariam o carro na garagem e passariam a andar de transporte público!" - tenta outro militante acertar uma bala de prata naquele que vos escreve. Ótimo, mas "mais" não significa "todos". Continuaria existindo gente pagando sem usar (por meio de impostos) para ter gente andando sem pagar (e que fique mais claro ainda antes que tentem usar o discurso mocorongo da "redistribuição de renda", como já fui obrigado a ler no Facebook: tanto os mais pobres como os mais ricos, estes com condições de pagar passagem, estariam no último grupo). E acho que você entendeu onde que quero chegar com minha fala.

Enfim, farsas não foram feitas para serem discutidas muito menos para serem defendidas. Foram feitas para serem combatidas. E o estudo, bem como a informação, são as principais armas.

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