Patriotismo e Nacionalismo: Virtude e Vício

(Fonte da imagem: G1)
Nos últimos dois dias li o pequeno, porém precioso, livro de Gustavo Corção, "Nacionalismo e Patriotismo". Fiquei muito impressionado com a obra, como sempre, afinal, já o li em outra oportunidade. Trata-se de uma coletânea de artigos que o filósofo e romancista da democracia cristã publicou no jornal "O Estado de São Paulo" no transcorrer da década de 1950, onde o mesmo faz a análise da mentalidade política brasileira durante a confrontação com os problemas políticos particulares de sua época.

Embora a obra se dedique a analisar um período específico e particular de nossa história, ela revela a nós aspectos de nossa mentalidade política que se encontram presentes no nosso cotidiano, ainda que subjacentes. Esses aspectos se revelam em expressões do cotidianos, frases de efeito e personagens políticos e culturais que admiramos. Esse aspecto é o nacionalismo.

Para Corção o brasileiro não é patriota, ao contrário, é nacionalista. Embora isso tenha se enfraquecido bastante desde o fim do regime militar, ainda é possível observar no debate político brasileiro um resquício forte de nacionalismo sob a forma de patrimonialismo. Os brasileiros até hoje demonizam as privatizações... Privatizações aliás que só bem fizeram ao país.

Mas o que é o nacionalismo? Corção o define - aristotelicamente, como um bom tomista faria - como um vício, uma distorção da ideia de lealdade e devoção nacional que se opõe por excesso a uma virtude central que é o patriotismo. O outro vício, que se opõe ao patriotismo, compondo o esquema aristotélico da ética dos meio-termos é o internacionalismo. Alguém poderia alegar que há mais similaridades entre nacionalismo e patriotismo do que entre patriotismo e internacionalismo. Sim, é verdade! Mas isso não invalida a descrição do filósofo uma vez que o próprio Aristóteles em seu epopeico "Ética á Nicômaco" já alertava-nos que em alguns caso a virtude se assemelha mais com um dos vícios do que com o outro, fazendo com que o meio-termo não seja tão centralizado assim, principalmente, se escolhermos visualizar o postulado do estagirita numa reta.

Uma vez que definimos um arquétipo, um modelo geral, resta-nos definir quais são as características que marcam o nacionalismo. Como todo vício, o nacionalismo é marcado por sentimentos viciados, por distorções que, ao invés de guiar-nos às virtudes, guia-nos a outros vícios.

Para o romancista da finada UDN, o nacionalismo se caracteriza como um egoísmo coletivo, uma crença de que os nossos infortúnios devem-se sempre à elementos externos hostis, e nunca ás nossas falhas morais, nesse aspecto, o nacionalismo é também uma arrogância que nos leva à crença de que não devemos nada ao mundo, e que, ao contrário, é o mundo que nos deve tudo, o que é uma forma de ingratidão. Isso pode ser observado, segundo Gustavo, nos nacionalismos italiano e alemão (Fascismo e Nazismo). Há sempre a crença de que os males que afligem a nação são de elementos externos que nos atacam desde fora, ou sabotadores internos. No Fascismo, existe a crença de que o mundo exterior destituiu os italianos da glória e poder do Império Romano, e que é a hora de ressuscitá-lo. Na Alemanha, a crença numa superioridade racial alemã (ou ariana), onde alemães acreditaram que seus infortúnios não vem de suas vicissitudes e erros, mas sim de uma conspiração judaica - uma raça inferior - que está disfarçada sob a forma de capitalismo liberal e do socialismo soviético. No Brasil, por falta de grandes fatos heroicos ou de homogeneidade étnica e racial, nosso nacionalismo acabou se refugiando na figura do índio e do negro, e na glorificação da miscigenação. Dessa forma, segundo Corção, nosso nacionalismo é mais um "isolacionismo emburrado".

Por pregar que existem inimigos em todos os lugares que nos aniquilam e tentam nos matar, o nacionalismo cria uma paranoia de perseguição e desejo de vingança. Para isso, todo nacionalista pede ações velozes como a necessária para alguém que está sendo atacado, e violentas o bastante para obter sucesso em sua defesa. Na prática política isso se manifesta no momento em que o líder nacionalista pede a seus cidadãos que abram mão de alguns direitos que "não enchem barriga", para que assim se facilite a resposta aos agressores e ao desenvolvimento nacional. Como o processo democrático oferece muitas barreiras a desenvolvimentismos bruscos e a beligerâncias externas, frequentemente, o nacionalista exige que se derrubem os ditames da democracia representativa e do constitucionalismo. Os direitos mais importantes do cidadão. E assim se estabelece o vínculo entre o nacionalismo e totalitarismo como visto na história e que o leitor mais interessado, pode consultar aqui das próprias letras de Corção.

O patriotismo, ao contrário, é uma virtude. Ele vai muito além do simples respeito às tradições culturais do país ou de reações emotivas orgulhosas diante dos símbolos nacionais. O patriotismo é um sentimento que se encontra com inúmeras outras virtudes, à exemplo: gratidão, humildade e altruísmo.

O patriota não exerce seu amor e devoção à pátria em detrimento de outras nações, ele não precisa desqualificar um povo estrangeiro para exaltar as qualidades de seu país. O patriota não se preocupa muito com o que os outros povos lhe devem, mas sim com o que o seu povo deve a humanidade. O homem patriota é capaz de receber um novo conhecimento técnico ou abstrato vindo de algum outro lugar do mundo, de outros homens, culturas e civilizações sem sentir menosprezo. Ao contrário, ele se sente agradecido e deseja retribuir. "O que o nosso povo legou de bom a humanidade?" - se pergunta o homem patriota - o verdadeiro patriota ama a sua terra, mas não se ensoberbece dela, ao contrário, é capaz de se emocionar ao imaginar que em outros cantos longínquos do globo, outras pessoas vivem as mesmas virtudes em relação aos seus irmãos e compatriotas, ainda que elas nem sequer se atentem à existência do emocionado patriota que viaja pelos seus devaneios fraternos. 

O patriotismo é virtuoso em essência porque ele deriva da mesma relação que devemos ter com nossos familiares, ser um patriota é ser altruísta; é pensar em ser bom para sua comunidade e servi-la da melhor maneira possível, pois sabe-se que é através do bem servir ao próximo que se constroem as boas relações sociais. E quando todos se servem bem e se prestam a ser úteis, justos e amáveis uns para com os outros, toda a comunidade se engrandece e prospera. O patriotismo é muito mais do que uma imaginação, um conceito ou ideia. Ou mais do que um sentimento honroso diante dos hinos e bandeiras; é também o amor ao legado dos homens que vieram antes de si, é a consciência de que muitos seres humanos se esforçaram e deram seu melhor para lhe legar um mundo de significados e significantes que lhe acolherá sem que você sequer tenha pedido pra entrar nele. É caminhar orgulhoso ao enxergar as pegadas de outros homens sob seus pés. E saber que de uma forma ou de outra, há muito deles em você, e que por meio de seu agir, você os imortaliza.

Poucos autores foram capazes de enunciar com tanta profundidade em tão poucas páginas o valor dos verdadeiros símbolos nacionais que são o amor ao próximo, a gratidão e a humildade. E num tempo em que temos tantos nacionalistas intervencionistas e saudosistas de um regime autoritário como o de 64 e de outro lado internacionalistas canalhas das pior estirpe como Chauís e Safatles...A ausência de um gigante como Gustavo Corção é motivo de profunda tristeza.

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